Voto não tem preço, tem consequência

Leia o texto “Contrários”, de Fernanda Torres.

“OS PARCOS segundos dados aos candidatos a deputado na televisão obrigam os aspirantes a uma concisão de dar pena. Alguns optam pela simpatia, disparando com a rapidez de um raio seu nome de campanha com um sorriso congelado no rosto.

Outros preferem declamar com determinação o seu número de inscrição no TRE, 8!4!7!9! Alguns gritam e muitos demonstram indignação.

É como se, por meio da anunciação do sujeito, devêssemos compreender toda a capacidade legislativa e gestora dos participantes.

Já fiz muitos comerciais e sei da dificuldade de condensar as qualidades incomparáveis de um produto até caberem em apertadas frações de momento. Mesmo assim, é possível descartar inúmeros concorrentes pela inabilidade com que se apresentam. Entre os que gozam de um espaço maior aqui no Rio, um me causou imenso espanto: Flávio Bolsonaro.

Eu posso não entender o mundo da mesma maneira do que ele, mas poucas vezes vi alguém se apresentar de forma tão clara e definitiva.

“Sou de direita. Luto contra os direitos humanos, que só servem para proteger os bandidos e os marginais.” No milênio do politicamente correto, fascina a firmeza com que Bolsonaro defende suas convicções.

Nascido em Resende, na Academia Militar das Agulhas Negras, Bolsonaro é jovem e bem apessoado; defende a pena de morte, a redução da maioridade penal, é contra as cotas nas universidades e criou a Lei Estadual nº 4.916/06, que torna gratuitas laqueadura e vasectomia nos hospitais da rede pública.

Ligado ao Partido Progressista, foi eleito deputado estadual com mais de 40 mil votos. Defende a dignidade das forças militares e auxiliares, jamais esteve envolvido em corrupção e se preocupa com a explosão demográfica e a valorização da família.

Marcelo FreixoMarcelo Freixo partilha de muitas das preocupações de Bolsonaro, mas as encara sob um ponto de vista diametralmente oposto. Ex-professor de história, esteve à frente da comissão dos direitos humanos da Alerj, é vice-presidente da CPI do Tribunal de Contas do Estado e presidiu a CPI das Milícias.

Em 2008, entrou com o pedido de cassação de Álvaro Lins, então deputado, ex-secretário de Segurança do governo Garotinho. Freixo vive hoje sob ameaça de morte.

Apesar dos 50 mil eleitores que provavelmente votarão nele, existe uma forte possibilidade de Freixo não assumir o cargo. Para ter o direito de eleger um deputado, qualquer partido deve receber mais de 120 mil votos como um todo.

A campanha de Heloísa Helena na última eleição viabilizou a candidatura de Freixo, mas desta vez o PSOL não conta com um presidenciável tão popular, além de não ter feito nenhuma coligação. Será muito difícil repetir o feito.

Foi a primeira vez que pensei em ir a público apoiar uma candidatura nesta eleição. Não tenho nenhuma afinidade com o PSOL e não acredito na mistura de arte com corrida eleitoral, mas o Rio perderá muito sem um homem como Freixo.

Bolsonaro afirma que o dinheiro na gaveta do comandante do filme “A Tropa de Elite” é uma questão crucial de segurança para o Estado.

Acredito que Freixo concorde com ele, mas discorda certamente do fim da sentença: “…não o saco na cabeça do vagabundo”.

FERNANDA TORRES é atriz. Texto publicado na Folha de S. Paulo, no dia 12/09/2010, original aqui. Acesse o site de Freixo: www.marcelofreixo.com.br