Valor permanente da família na América Latina

De modo geral, os sociólogos que estudam a família latino-americana destacam as mudanças atribuídas à penetração da modernidade. Na sociedade moderna, a família perde várias das suas funções tradicionais: econômica, política, educativa reduzida em grande parte, de identificação, e assim por diante. De fato, a penetração da modernidade provoca abalos profundos na família tradicional em todas as camadas sociais. Não pretendo repetir o que foi escrito tantas vezes.

Queria, antes, sublinhar a permanência, a persistência de muitos elementos da família tradicional apesar do impacto da modernidade, talvez porque a modernidade penetra de modo muito especial na América Latina. Sem pretensão de apresentar uma visão científica da situação, porque me faltam os dados necessários para uma obra de tal envergadura, darei apenas algumas sugestões com vistas em investigações futuras.

Em primeiro lugar, veremos a continuidade da família tradicional. Em segundo lugar evocaremos alguns dos grandes desafios da família tradicional hoje em dia. Finalmente daremos algumas indicações sobre a maneira como a família responde a esses desafios. As considerações feitas aqui estão fundadas em primeiro lugar em observações efetuadas no Nordeste do Brasil bem como em sondagens em outras partes da América Latina para fazer comparações.

 

I. A permanência da família tradicional

1. Mesmo nas classes superiores, muitos elementos da antiga família patriarcal ainda se mantêm. Naturalmente, a família descrita por Gilberto Freyre não existe mais, mas muitas coisas relativas à família de hoje não se explicam a não ser por referência a essa família patriarcal.

Ainda é muito frequente que a família seja a referência suprema e a única referência absoluta nas classes dirigentes de hoje. Mesmo pessoas que têm um papel destacado na política ou na economia subordinam tudo à família.

De modo geral, a família é mais importante do que o Estado ou a Nação. É muito comum ver pessoas que usam a política para favorecer a sua família, subordinam o serviço da Nação ao serviço da família, o bem público ao bem privado. Consideram o Estado e a política como meios para promover a família. Por isso mesmo, clientelismo, patrimonialismo e, nessa mesma linha, “corrupção”, são tidos como valores ocidentais; não são sentidos como falhas ou pecados. Tudo o que foi feito pelo bem da família se acha justificado. Por isso mesmo, “dar um jeito” com as leis públicas, com as propriedades públicas, se for a favor da família, é perfeitamente legítimo. As pessoas que procuram sonegar os impostos, passar ao lado das leis, exigir favores e privilégios de parte de autoridades fracas, não o fazem por egoísmo, mas por amor à família.

Quando uma dessas pessoas pergunta a uma autoridade pública: “Você sabe com quem está falando?”, ela se refere ao seu sobrenome, à sua família. Sabe que o nome de tal família tem mais força do que todas as leis ou disposições tomadas pelas autoridades públicas.

De igual maneira na economia. Na América Latina, ainda há muitas empresas, até importantes, que são o bem da família. Nesse caso a empresa trabalha pela riqueza da família. Ela simboliza o poder da família. Sua função é produzir dinheiro para a maior prosperidade da família dos donos. Por isso, tais proprietários não conseguem entender o que pode significar o sentido social da empresa. Os trabalhadores são como os empregados da família. Deles se espera que se sacrifiquem pelo bem da família do patrão, assim como se pedia e ainda se pede aos empregados ou às empregadas que se sacrifiquem pelo bem da família dos patrões.

No Primeiro Mundo, o Estado assumiu grande parte das tarefas tradicionais da família e herdou muitos dos seus atributos positivos. O Estado exige e consegue submissão e obediência prática e sanciona as desobediências. Na América Latina, as grandes famílias não se consideram obrigadas a se submeter ao Estado. Pelo contrário, querem que o Estado se submeta aos seus privilégios. Um dos principais obstáculos a uma verdadeira democratização está exatamente nessa permanência da supremacia da família sobre a sociedade global. As grandes famílias não aceitam a autoridade do Estado. O problema para a sociedade consiste em quebrar essa permanência da família como referência total, absoluta e definitiva.

 

2. No polo oposto da sociedade, nas multidões de pobres que ganham o salário mínimo, ou próximo disso, a família tradicional mantém-se também, porém por motivos bem diferentes.

a) Para a grande maioria, a família é a única forma de socialização. Não participam de nenhuma forma de associação ou de organização. No Primeiro Mundo, todos participam de várias associações (sindicatos, associações de defesa econômica, associação recreativa, esportiva, cultural, de promoção social…). Na população pobre, a família é o único refúgio em caso de dificuldades, o único lugar de diálogo, a única referência de valores, o único apoio em caso de conflito. Sem a família, o indivíduo estaria isolado, sem referência, sem identidade, perdido numa cidade que lhe pareceria desumana. A família dá um rosto humano à cidade.

Não se trata apenas da família dita “nuclear”, que predomina no Primeiro Mundo. Trata-se da família grande que sobrevive e mantém um pequeno mundo humano em que as pessoas se reencontram como pessoas. Geralmente os migrantes já sabem aonde vão. Já têm parentes e familiares na cidade para a qual se dirigem. Quase todos os nordestinos já têm parentes no Rio de Janeiro, em São Paulo ou em Brasília. Já têm um ninho que os acolhe, por pobre que seja. Já sabem que são acolhidos, e a família se sacrificará para lhes criar um espaço em que possam viver. De alguma maneira, apesar das migrações, a família se reconstitui: o contato entre os irmãos permanece, e conseguem, dessa maneira, refazer uma “sociedade” humana.

 

b) A solidariedade tradicional continua na família popular. No mundo modernizado, cada núcleo resolve os seus problemas sozinho e não se preocupa pelo problema dos irmãos. Aí supõe-se que, se surge algum problema, o Estado já previu a solução. Não há mais solidariedade. Por sinal, de modo geral, há poucos irmãos, porque quase todos são filhos únicos ou irmãos de uma só pessoa.

Na América Latina, os irmãos trocam servi­ços, ajudam-se em caso de desemprego, de doença, de acidente, ou simplesmente para organizar as festas de batismo, casamento ou os funerais. Às vezes, quando um membro da família consegue subir mais do que os irmãos, ele se esquece e procura somente a sua ascensão pessoal. Porém, em muitos casos, o irmão mais feliz na vida sente que tem uma responsabilidade para com os irmãos menos felizes. Procura emprego para um sobrinho, uma sobrinha, manda ajuda econômica nos momentos difíceis…

Também os migrantes que deixaram os pais no lugar de origem, lembram-se deles. O que seria do Nordeste se não houvesse a ajuda que os filhos que trabalham em São Paulo, ou no Rio, mandam para os seus pais e irmãos menores? Muitas famílias, e sobretudo muitos velhos, sobrevivem graças a esse dinheiro mandado pelo correio.

 

c) O espaço de confiança é a família grande. Quando um casal está em dificuldade, quando há brigas entre pais e filhos, quando vem a doença, quem é que se vai buscar? Quando falta dinheiro ou comida, a quem se vai pedir? À família, quase sempre e quase exclusivamente. Assim o mostraram estudos feitos em ambientes de favelas ou equivalentes.

As famílias nucleares constituem normal­mente pequenas comunidades de 5 ou 6 famílias que sempre se visitam, sempre se comunicam, participam de atividades comuns (recreio, passeios, viagens, romarias, festas). Nesse núcleo é que se dá a ajuda mútua. Ora, no meio dos mais pobres, essas famílias nucleares unidas são geralmente só de uma família grande, ou então de famílias associadas pelo casamento de um ou de vários de seus membros. Esse grupo de famílias que formam uma família grande constitui um pequeno mundo que torna o mundo grande mais humano. A cidade grande isola, porque separa os indivíduos, que somente se unem de modo superficial para atividades específicas. Porém o antigo mundo fraterno não desaparece. A família procura sobreviver.

 

d) O valor da família manifesta-se pelos desastres que se produzem uma vez que ela falha. Quando a família se desintegra por completo, está tudo perdido. Aí aparecem os meninos e meninas de rua, a prostituição infantil, os moradores de rua e todas as formas de delinquência ou de anomia, tão frequentes hoje em dia nas grandes cidades. E, fora da família, não há muita esperança de restaurar a humanidade desses jovens ou adultos tão profundamente destruídos. Não há outra instituição que possa facilmente substituir a família, hoje em dia. Deveria haver outro ambiente que pudesse restituir o que se recebia da família: a confiança, o acolhimento. Por imperfeita que seja, a família desempenha um papel que somente pode ser substituído mediante enormes investimentos materiais, afetivos e educativos.

 

II. Os obstáculos que desafiam a família

1. O problema do pai

Geralmente o grande problema é o pai. Mesmo nos melhores casos, o pai é quase sempre o problema. Hoje em dia fala-se em paternidade responsável, como se se tratasse de algo óbvio. A responsabilidade paterna não é de modo algum óbvia. Considerando a história, tudo sucede como se a humanidade tivesse lutado durante milênios para educar certa responsabilidade do pai. A própria família parece ter sido construída a duras penas para convencer os machos, para estruturá-los e forçá-los, de certo modo, a assumir a sua responsabilidade. Nunca se chegou a isso perfeitamente. Houve épocas em que o casamento chegou a ter tanta força e tanto peso, que os homens não puderam mais fazer outra coisa a não ser assumir, pelo menos parcialmente, a sua responsabilidade. No campo, as mulheres dizem: “Ter um homem é terrível, mas não ter é mais terrível ainda”. É uma coisa terrível porque, para uma mulher, inculcar a um homem um certo sentido de responsabilidade, não é fácil. As mulheres lutam há milênios.

Em muitos casos, o homem simplesmente desaparece. Não assume em nada o filho ou os filhos que procriou. Muitos jovens — ou menos jovens — não chegam sequer a sentir qualquer sentimento de responsabilidade. Uns fogem desde o momento em que a mulher fica grávida. Outros fogem depois de alguns meses ou anos de vida em comum.

Há muitos casos em que as circunstâncias exteriores tornam a responsabilidade paterna heroica e, portanto, pouco comum. Muitos homens têm de ir muito longe para encontrar trabalho e ficam semanas, meses ou anos longe de casa. Alguns mandam dinheiro regularmente durante anos, mas outros vão relaxando pouco a pouco e acabam procurando outra mulher com a qual têm outros filhos. Outros recebem salários tão baixos, que com isso não podem sustentar a sua família. Fogem de puro desespero, porque têm vergonha. Claro que, fugindo, deixam a família numa situação ainda mais desesperadora, mas isso é o que podem ver pessoas ainda capazes de raciocinar friamente.

Uma vez que o pai desapareceu, muitas vezes as mulheres procuram outro homem e, com certa frequência, conseguem-no. Às vezes, uma segunda união revela-se mais feliz e mais durável do que a primeira: questão de sorte!

Se o pai fica em casa, está assegurada uma primeira condição da responsabilidade. Com isso, todavia, não se pode dizer que tudo esteja em ordem. Sobretudo nas classes altas, e também nas classes médias ou nas classes populares, desde o momento em que aumentam as possibilidades econômicas (motorista, por exemplo), o homem cria uma segunda família. Muitas vezes as mulheres se acomodam, porque é a melhor alternativa que lhes resta.

Mesmo se o pai tem uma família só, muitas vezes ele não entrega à mulher tudo o que ganha. Frequentemente entrega 70% ou menos. Nas classes altas, a mulher nunca chega a saber o que o marido tem. Além disso, de modo geral, o pai aceita colaborar bem pouco na educação dos filhos, em todos os sentidos. Geralmente deixa toda a educação a cargo da mulher. Acha que cumpriu sua obrigação ao entregar dinheiro para as necessidades materiais.

Nas classes médias, em que os conflitos entre gerações alcançam formas mais agudas, o pai abdica facilmente de qualquer autoridade. Não sabe mandar e logo se declara incapaz. Em muitos casos, quando os filhos crescem, para conseguir a paz, o pai submete-se aos desejos dos filhos, e às vezes torna-se escravo deles, o que também não é uma forma de assumir a responsabilidade paterna.

Se o pai falta, a família ainda não está perdida. Inúmeras são as famílias dirigidas só pela mãe, e inúmeras mães conseguem assumir sozinhas todas as responsabilidades com bons resultados.

 

2. Os filhos

O conflito de gerações manifesta-se, sobretudo, nas classes média e alta que sofrem mais o impacto da modernidade e das grandes transformações ocorridas, nos anos 60 e 70, sobretudo quanto à liberalização do sexo. No mundo popular os problemas não são exatamente os mesmos. O problema fundamental é que a sociedade oferece poucas perspectivas de promoção para os jovens. Os adultos que migram do campo para a cidade acharam uma finalidade para sua vida e têm uma tarefa para cumprir: fundar uma casa na cidade, plantar raízes e criar condições de sobrevivência. Para os jovens, essa tarefa já está cumprida. Eles nasceram na cidade e percebem que a cidade não foi feita para eles. Daí surge profunda crise de identidade. Muitos não suportam isso, caindo vítimas das drogas e dos grupos antissociais de diversos tipos. No entanto há os que lutam, mesmo sem saber o que os espera. A maioria busca trabalho, serviço ou biscate para ajudar a família. Muitos meninos procuram uma maneira de ajudar a família. Dentre esses, existem os que sustentam a família porque o pai falhou. Ajudam na feira, carregam pacotes, catam lixo ou papelão, pedem esmola; procuram, enfim, uma maneira de levar dinheiro para casa. As meninas começam cedo a trabalhar de empregadas domésticas. Em certos ambientes do Sul, as empregadas são relativamente bem tratadas. No Nordeste, elas são muitas vezes escravizadas, sobretudo quando são jovens. Recomenda-se, com insistência, por nenhum motivo mandar meninas para serem empregadas domésticas em casas de grã-finos, porque sempre saem de lá estragadas; psicologicamente destroçadas e fisicamente “perdidas”. Acontece que, frequentemente, a família acha que precisa do salário delas para sobreviver. Depois choram amargamente, mas é tarde demais.

 

3. As mulheres

Quando a insegurança e a miséria crescem, todo o peso recai finalmente sobre os ombros das mulheres. Observadores dizem que, na África, atual­mente, a sociedade mantém-se por milagre, porque as mulheres acham modos de sobrevivência nas situações mais desesperadoras. O mesmo acontece, no Nordeste, nas famílias pobres — e provavelmente também em outras regiões do país. Não sem dificuldade! Conheço mães — lutadoras e perseverantes para salvar a família, animadoras de comunidades — que, nos finais de semana, têm de se prostituir para poder dar comida à sua família. Para salvar a família as mulheres aceitam as piores humilhações. Lutam e conseguem. Mas o preço é alto.

 

4. A casa

Na cidade, o grande desafio é a casa. Muitas vezes o refúgio que as famílias conseguem mal merece o nome de casa: um quarto num cortiço, um casebre numa favela, um quarto numa velha casa, com todos os problemas de água, energia, falta de salubridade… A casa é a grande meta. Uma vez construída, às vezes depois de muitos anos de sacrifício, a casa é o motivo do maior orgulho. A casa dá segurança à família. Ter de pagar aluguel é “a morte” para as famílias. Morte lenta que esgota pouco a pouco todas as energias da família. Por isso a CNBB fez muito bem em propor primeiro a casa para a Campanha da Fraternidade e, depois, a família. De fato, o que é uma família sem casa?

A grande maioria das casas populares foram construídas quase sem ajuda dos poderes públicos, em mutirão, ou por pedreiros amigos do bairro, com os cruzeiros tirados da comida e das coisas mais necessárias para a vida. Porém, tudo se sacrifica para poder construir a casa. No decorrer dos anos, os habitantes vão construindo mais um quarto e mais um… Vão embelezando a casa, plantando uma árvore ou flores… A casa é realmente a raiz da família.

A casa é o lugar do repouso. Depois de um dia nervoso e tenso, a casa é o lugar da “distensão”. Mu itas vezes ela se torna também o lugar em que as pessoas soltam toda a raiva acumulada durante o dia. São casos extremos. Em geral, mesmo com os conflitos, a casa de família é o lugar em que a saúde psicológica se recompõe. A pessoa chega esgotada em sua casa e ali recupera o ânimo para as lutas do dia seguinte. Por isso, a casa sempre constitui o primeiro problema social. Ajudando o povo a construir sua casa, ajuda-se a família a sobreviver. As pessoas podem aguentar muitas privações, mas não aguentam a falta de uma casa. Casa e família são tão estreitamente associadas, que até a linguagem as associa: casar é fundar uma família, e “quem casa, quer casa”.

 

III. As respostas

1. A família e a comunidade

Entre a família e a comunidade de base as relações são estreitas. Nos melhores casos a comunidade é feita menos de indivíduos do que de famílias. É como uma família de famílias e, em certo sentido, uma grande família.

Esse estreito relacionamento manifesta-se, sobretudo, nas festas. A população pobre não pode viver sem festas, ainda que muitas vezes nas festas somente se possa oferecer um bolo e alguns refrigerantes. Ora, as festas são em primeiro lugar festas de família: aniversários, batismos, casamentos, viagem para longe ou chegada de longe de um membro da família… As famílias da comunidade participam. É também verdade que a comunidade se encontra no culto, na audição à Palavra de Deus, ou então nos serviços do bairro ou do sítio. Os encontros mais frequentes têm por motivo as festas.

À medida que se vai subindo na escala social, as festas tornam-se mais sofisticadas, e as pessoas convidadas são mais selecionadas. Nas festas populares, a porta está aberta para todos.

É verdade que, nas famílias mais pobres, não se celebra os aniversários porque não se tem nada para oferecer. As festas de família são muito mais distanciadas. Muitas vezes o batismo ou o casamento ficam adiados até o dia em que se possa oferecer uma festa. É por isso que as comunidades podem se tornar facilmente elitistas, quando não cuidam de evitar tudo o que poderia afastar os mais pobres. Esses não podem pagar festas de aniversário e, por não poderem devolver, têm medo de participar das festas de família. Às vezes as comunidades inconscientemente adotam determinado nível econômico que ultrapassa a capacidade dos mais pobres: desse modo estes se sentem excluídos.

Vimos que, nos melhores casos, família e comunidade se fortalecem mutuamente. Às vezes a comunidade pode prejudicar a família. Em certos casos — que não são poucos no Nordeste — as pessoas que dedicam mais tempo e mais energia à comunidade são as que encontram menos satisfação na família. Isso acontece, sobretudo, com as mulheres, já que os homens encontram muito mais facilmente outros ambientes para compensar as frustrações familiares. Certas mulheres proclamam abertamente que a participação na comunidade é, para elas, uma emancipação do jugo do marido, até mesmo uma maneira de forçar o marido a se virar por si mesmo para fazer o almoço ou tomar conta dos filhos. Outras, sem dizer nada, manifestam claramente que a comunidade é para elas um substituto da família que buscaram e não acharam; sua família resultou num fracasso e a comunidade funciona como nova família, fonte de muitas satisfações. Encontram na comunidade a autorrealização que não encontram na família. Isso acontece, sobretudo, às mulheres que não exercem profissão fora de casa. A comunidade é como um ambiente profissional que permite uma promoção da personalidade que o ambiente da família restringe demais.

De certa forma, a comunidade cumpre, assim, uma função de promoção das mulheres donas de casa, que não trabalham fora de casa. Por outro lado, essa função pode contribuir para a dissolução da própria família. Uma vez que a mulher vive mais fora de casa, sempre “metida na comunidade”, o marido sente-se mais estimulado para fugir de casa e abandonar a família. É problema de equilíbrio, por certo.

 

2. A família na defensiva

No Primeiro Mundo, a revolta contra a família é uma constante da cultura moderna. As elites culturais da literatura, das artes, do cinema, dos meios de comunicação pregaram a revolta contra a família durante 200 anos. Essa mensagem atingiu primeiro um círculo restrito da alta burguesia, mas pouco a pouco foi descendo e, depois da Segunda Guerra Mundial, atingiu as grandes massas. A família passou a ser vista como uma prisão e o maior obstáculo (juntamente com a Igreja) à emancipação do indivíduo. Pregaram a luta do indivíduo para reivindicar todos os seus direitos: a família era obstáculo às iniciativas econômicas, à participação na política e na cultura. No século XX, a família apareceu antes de mais nada como o obstáculo à emancipação da sexualidade individual. Os indivíduos desligaram o sexo da família e o trataram como novo direito individual, primeiro para os homens, depois para as mulheres, e, finalmente, até para os adolescentes. Com tudo isso, a família chegou a ser muito abalada.

No Primeiro Mundo, muitos jovens recusam o casamento e se negam a ter filhos. Quase metade dos casais não querem ter filhos, ou apenas um. Querem suprimir a família das suas expectativas de vida. Querem a prática do sexo sem incluir família. Essa negação da família suscitou recentemente uma reação nas classes mais altas ou cultas, mas as massas populares são aquelas que mais se mantêm afastadas da ideia de família e mais se negam a formar famílias; são as que mais tardiamente chegaram à modernidade e ainda não experimentaram suas frustrações e problemas.

Na América Latina, parte da população urbana, sobretudo, as classes médias, sofre um impacto semelhante. A revolta contra a família é um fenômeno muito mais recente e muito menos geral. No entanto, a reivindicação do direito individual à prática do sexo espalhou-se bastante na classe média e vai descendo graças ao efeito de demonstração (consciente ou inconsciente) dos meios de comunicação. Existe o perigo de que a difusão da mesma mensagem de revolta contra a família venha a reforçar os problemas da juventude popular e justificar o abandono da família já provocado pela precariedade das condições de vida.

A modernidade foi uma etapa de afirmação dos direitos individuais. Nessa afirmação não sobrou espaço para a família. A Igreja confiou muito na estabilidade e na continuidade da família, apesar de tantos assaltos. No entanto, há décadas que já se percebe que a “tradicional família” está ameaçada e vai perdendo terreno. Nasceu uma pastoral da família. No entanto, até o presente, esta se situa essencialmente na classe média e, mesmo entre esta, atinge um reduzido número. Para o mundo popular, há pouco de realizado.

Acontece que os movimentos populares seguem prioritariamente as inspirações da modernidade. As ideologias populares — socialismo, comunismo, marxismo, anarquismo — não conferem nenhum lugar à família, por serem modernas. Ora, essas ideologias forneceram os quadros de referência para a organização dos movimentos populares. Movimentos mais recentes, como os movimentos das mulheres, dos negros, dos indígenas, também não consideram a família. São de estrutura “moderna”, pois se concentram ao redor da afirmação dos direitos individuais: da mulher, do negro, do indígena etc. No melhor dos casos, a família é considerada como uma realidade pressuposta, óbvia.

Ora, a família deixou de ser óbvia. Se não for reforçada, pode reduzir-se pouco a pouco a uma pequena parcela da Nação. Pode acontecer que a maioria somente tenha interesse em defender “o direito ao sexo” e dê pouco valor à família, ou simplesmente valor nenhum, e somente uma minoria ainda se interesse pela família.

Uma pastoral familiar não pode limitar-se a alguns encontros antes do casamento. Por outro lado, está claro que é impossível imaginar que uma pastoral possa abranger todos os batizados. Uma pastoral ficará sempre restrita a uma elite. Porém, o princípio de seleção não pode ser uma opção pelas classes mais favorecidas socialmente. Deve haver também uma pastoral popular da família. Essa poderá colocar na sociedade um fermento diferente e agir como novo fator para compensar as forças de dissolução da família, que agem sem constrangimento.

Fonte: Vida Pastoral

(Março-Abril de 1994, pp. 2-8)