Um país não é um banco

Por Emir Sader

Quando a política tradicional começou a entrar em decadência, surgiu a moda de lançar a empresários como candidatos a governos. Seu sucesso na empresa privada supostamente os capacitaria para dirigir o Estado. Seriam bons executivos, não gastariam em excesso, cuidariam do equilíbrio das contas públicas, teriam ótimas relações com os empresários do país e do exterior, etc. etc.

Berlusconi foi o caso mais conhecido e deu no que deu. Foi mais um episódio obsceno da política, quando nunca como em seus governos a corrupção campeou mais, nunca os escândalos foram mais escrachados, nunca a política foi tão degradada.

Pela América Latina, Sebastien Piñera, do grupo que possui, entre outras tantas empresas, a Latam, foi outro representante dessa tentativa de privatizar o Estado. Tampouco deu certo. Os estudantes lhe recordaram que a educação pública não poder ser paga, o que o líder de Piñera, Pinochet, havia violado no Chile, e rapidamente Piñera perdeu prestígio e fracassou.

No Equador, pela segunda vez consecutiva, o maior banqueiro do pais, Guillermo Lasso, é o principal candidato opositor à lista encabeçada por Lenin Moreno e apoiado por Aliança País e por Rafael Correa. Sua campanha eleitoral, ao estilo de Mauricio Macri na Argentina, se centra na necessidade de “mudança”, como se o país não tivesse vivido a década de maiores avanços da sua história justamente com o governo de Rafael Correa. Seu diagnóstico, como o de todos os candidatos da oposição, é o de que o país se endividou demasiado, que precisa de mais competitividade e que o governo se excedeu nos gastos públicos. Como todo candidato da direita, diz que “vai manter o que deu certo”, como se fosse manter as políticas sociais, por exemplo. A mesma promessa feita e não cumprida em nada na Argentina e no Brasil.

É como se se considerasse que um país pudesse ser dirigido como um banco, como se os cidadãos fossem algo como os correntistas, como se se tratasse de administrar o governo buscando maiores rendas, favorecendo o capital especulativo.

A ameaça de ser governado pelo banqueiro mais rico do Equador pesa sobre o país como um pesadelo. Depois das maiores transformações que o país viveu na década de governo de Rafael Correa, cumprindo o que ele havia prometido, de que se trataria de uma mudança de época para o Equador, a disputa é acirrada para as eleições presidenciais que terá em 19 de fevereiro seu primeiro turno.

Se quiserem saber o que poderia estar esperando os equatorianos, bastariam que olhassem para a Argentina e o Brasil onde, apesar de que os presidentes não são banqueiros, existem governos dirigidos por representantes diretos do capital especulativo e que governam em função dos interesses desse capital. A única política segura e firma desses governos é o ajuste fiscal, que volta a promover a exclusão social, a concentração de renda, o desemprego, a depressão econômica.

Porque um país não é uma empresa, menos ainda um banco. Uma empresa privada, seja ela industrial, comercial, agrária ou bancária, age para maximizar seus lucros, atua para beneficiar seus proprietários privados e seus acionistas, às expensas do resto da sociedade. Um governo deveria agir em função dos interesses de todos, das necessidades e aspirações de toda a população. São comportamentos frontalmente contraditórios entre si.

“O que é bom para a General Motors é bom para os EUA” dizia a máxima mais conhecida da visão que privatiza o Estado, que identifica o interessa privado das grandes corporações empresariais com os do país. Governos como os de Macri na Argentina e de Temer no Brasil promovem os interesses dos grandes bancos privados e das empresas estrangeiras, como se defendessem os interesses dos países dos quais são presidentes.

Um governo democrático se pauta pelos interesses públicos, pela promoção de todos os indivíduos a cidadãos, pela garantia e extensão dos seus direitos. O contrario das visões privatizantes que tratam o Estado como instrumento da acumulação privada contra os interesses do pais.

Fonte: Brasil 247
http://www.brasil247.com/pt/blog/emirsader/275855/Um-pa%C3%ADs-n%C3%A3o-%C3%A9-um-banco.htm