Um escrito

Escreveria um texto que não tivesse a pretensão de ensinar nada a ninguém, e nem, tampouco, a de ser despretensioso ao ponto de não querer dizer coisa alguma. Um texto assim, devem já ter compreendido, já existe, é este aqui, são estas linhas que desenham arabescos nos teus olhos, linhas desenhadas ao cair da tarde deste dia de junho. Venho de ler umas páginas de uma história ocorrida há muitos anos. De manhã, a surpresa repetida de estar vivo, de perceber que respiro, que é de noite e o dia começa a clarear.

Andar pela praia e ver as pessoas andando ou correndo, conversando ou em silêncio, e o sol aparecendo aos poucos entre as nuvens sobre o mar. O mar balançando, silencioso ou barulhento como a gente. As ondas batendo nas pedras e a espuma aparecendo nas idas e voltas desse movimento rítmico. Flores azuis na beira da calçada. Os coqueiros subindo para o céu, a mureta onde fazes exercícios como que te esperando. Muretas não esperam, sabes, estão ali, apenas.

Uma árvore de espirradeira na esquina de um jardim, as casas antigas ainda não alcançadas pela especulação imobiliária. A casa da senhora que pendurava frases nos troncos dos coqueiros. A areia guardando as pegadas dos pescadores e dos caminhantes dessa manhã que começa, a estas horas, tão cedo, e um céu de chuva dizendo que é hora de voltar para casa.

Agora ouves o som dos grilos como um mantram contínuo a embalar a noite que vai chegar. As cigarras anunciam chuva. Terminas este escrito despretensioso, que tenta não ensinar nada para ninguém, que apenas partilha coisas vividas num dia de junho que aos poucos vai entrando na noite.

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