Um dia de Feng Shui no Viveiro dos Guarus

Guaiúba… vê que o mar aquieta sonolento
E o pôr do sol encanta a mim e aos manguezais.
Areado em brisa, zanza em volta zonzo o vento:
Um dia em curvas, farto em formas divinais.

Nas Pitangueiras, Tombo, o mar se entrega ao tempo
E quedo em vãos da areia, abreja e imersa em ais;
No Pernambuco – a praia, é só quebrantamento:
Choveu sereias, creiam… bem continentais.

Do Éden à Enseada onde é remanso deita,
Enfim, São Pedro à vista, a lida ele abstrai;
Outrora insone, bebe ao ócio e se deleita.

Mas meu prazer além, Nordeste, não te trai;
Meu fuso… meu! somente em teu solo se azeita,
Em outro prado o besta entrava e se retrai.

Extraordinário!

  • Esse texto quebra completamente aquela angulação dura que o soneto herdou do parnasianismo é que vem sendo mais e mais enrijecida por uma espécie abundante de cordelismo glorificador de façanhas e bravatas! Aqui a paisagem hesita e os passos ondulam na areia semimovel, aqui convivem os grandes arruados fictícios da aventura humana, como o Estado de Pernambuco, por ex, com o brejo vivo regurgitado de pântano na alma do poeta. A forma dúctil dos versos ressoam da própria paisagem. O verso ondula ao longo de si mesmo e quase que dispensa o emprego de rima em seu final. Me prendeu a atenção desde o início, daquela forma que um rato consegue capturar um gato.

  • Poesias que muito me agradam são estas de onde brotam imagens, as quais estão impregnadas de cheiros, emanam bafejos, proporcionando ao leitor uma experiência singular da leitura de cada verso à concretude abstrata das sensações. Maravilha de soneto Alexandrino!

  • O belo soneto de Assueros traz a flor do lácio renascida, palavras tecidas, bem definidas, em uma arquitetura semântica suave e afinada como as costas do guaiúba, no deslize imprevisível em seu balé com as ondas do mar. Altera cores e bafejos literários como a transpirar sentimentos. saudades, louvações entorpecidas pela lembrança da alma que tudo guarda e liberta na presença do mar.
    Força inspiradora que aglutinam o encantamento dos sons, paisagens, natureza, confronto vento, terra e mar, assim como a nossa mente embalada por sentimentos tão dispares mas que formam no aflorar das nossas raízes sonhos lembrados e o doce repouso da alma saciada.

  • Esse poema me pegou! E, por ele levado, o percebi me percebendo renovado a cada leitura. É que lê-lo, apenas, pareceu-me, desde o primeiro momento, algo cartesianamente limitado. Com suas imagens, ele opera milagre rítmico de beleza numa relação espaco/tempo própria. E tudo converge em delicada suavidade, quase caleidoscópica: o mangue, a praia, o areal… O mar ao por do sol que avança e o prazer que se relança, nordestino, a sua essência.
    Esse é um olhar poético de grande simplicidade e beleza! Cada palavra viva tem, em sua profusão semântica, o poder imagético que a restabelece telúrica no ser flutuante sobre a terra. E reinaugura o mundo a partir do seu próprio mundo.
    Guaiúba…
    Nesse momento tão desértico, o amigo e poeta Assueros nos traz esse oásis! E eu só tenho que agradecê-lo.

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