UFRJ: O estranho moralismo do jornal O Dia

Por Gustavo Barreto

Leio com curiosidade matéria do jornal O Dia do último domingo (02/12/2007), com o título “Reitor da UFRJ emprega parentes e contrata até firma da família” (Citação na capa e páginas 5, 6 e 7), em que um jornalista acusa o reitor da UFRJ Aloísio Teixeira “e seus amigos” de “montaram teia de favorecimentos que engloba filhos, ex-mulher, sobrinho, prima e outras pessoas próximas”.

Logo que li a reportagem, tive acesso também ao posicionamento da reitoria da UFRJ (aqui) em que destaca: “Há elementos (…) para supor que a abordagem denuncista da matéria tenha sido motivada não pelas boas práticas do jornalismo investigativo, mas, ao contrário, que tenha origem e vinculações internas à universidade”. E estão certíssimos quanto ao “tom denuncista”, identificável diante de uma análise mais apurada.

Pressupostos estranhos

Uma das denúncias consiste no gasto que o reitor fez com serviços prestados por uma empresa em que trabalham parentes do próprio reitor. Pela baixa quantia, me parece normal gastar dinheiro sem licitação (e a lei também entende assim). Poderiam argumentar que a empresa não era boa e foi contratada pelo fato de ter parentes do reitor. Contudo, o próprio repórter gasta várias linhas explicando que a empresa citada ganhou diversos prêmios. Além disso, o produto (uma agenda e outros pequenos produtos) é excelente e não se trata, ao meu ver, de gasto desnecessário. E, pelo serviço prestado para a UFRJ, foi cobrado um preço justo, de mercado. Não tinha nada superfaturado ou um serviço prestado parcialmente. É normal fazer um julgamento moral, mas não há nenhum crime constituído.

O problema dos parentes – o jornalista acusa o reitor de entregar diversos cargos a parentes, a esmo – me parece muito comum no serviço público: o Ministério do Planejamento não libera as vagas para realização de concurso público – esta é uma negociação dura e difícil junto ao governo federal -, daí os gestores, que precisam e querem mostrar trabalho, precisam contratar de acordo com métodos próprios, quase sempre referendados pela qualidade. Não me parece uma opção desta reitoria ficar paralisada por uma decisão do Governo Federal de não aumentar drasticamente as verbas da universidade.

A matéria, que me parece tendenciosa e com alguns recursos de manipulação para que vença uma determinada tese, poderia ter sido explorada um pouco mais pelo repórter, perguntando, por exemplo, às pessoas na UFRJ o seguinte: o princípio que rege a concepção da agenda é importante? A equipe de comunicação da UFRJ (outro alvo dos ataques) é competente e tem mudado a cara da comunicação interna e externa da UFRJ? Mais: qual é, na sua opinião, o principal problema da universidade? Teríamos milhares e, acredite se quiser, estes apontados pelo repórter não chegariam nem entre os 100 primeiros (novamente, na minha humilde opinião). O foco é equivocado e politicamente direcionado para a figura do reitor, quando deveria minimamente pensar a estrutura da universidade.

Não é defesa, mas não poderia ser ignorado o seguinte. São muitas as ações em pouco tempo: a criação de uma assessoria de imprensa eficiente; a criação de uma WebTV, tendência de mercado e que poucas instituições públicas se prestam a fazer; a dinamização do site da UFRJ e o aumento do número de reportagens próprias; a reestruturação da Agência de Notícias da UFRJ; a reestruturação do Jornal da UFRJ, cuja qualidade é visível tanto no conteúdo quanto na forma; entre outros diversos aspectos que podemos comprovar dentro da comunidade acadêmica da UFRJ.

Que o repórter do jornal O Dia tenha o direito de fazer tais julgamentos morais, não tenho a menor dúvida. No entanto, é estranho que o posicionamento do reitor que mais me chamou a atenção dentro da própria matéria, e que gostaria de discutir com mais profundidade (por entender que colabora para avançarmos com soluções para a nossa universidade, apontando problemas e alternativas) tenha sido jogado nas últimas quatro linhas da matéria.

O jornalista Aloysio Biondi escreveu em 1999: “Os editores escondem a verdade, isto é, os problemas, nas últimas quatro linhas – o que lhes permite fingir que não estão deixando de noticiar nada, uma atitude hipócrita, pois eles sabem muitíssimo bem que a informação que impressiona o leitor é aquela estampada no título e no lide”. [Caros Amigos, agosto de 2000]

E nas últimas quatro linhas o reitor registra, ao que me parece, em tom de desabafo: “Não tenho a pretensão de ter feito tudo certinho. Quando cheguei tive que corrigir um monte de coisas. Foram sendo dadas boas soluções, com boas intenções, mas não canônicas. Porém, não acho que tenhamos cometido nenhuma irregularidade”.

Sob esta base, poderíamos discutir, argumentar, questionar, abrir processos administrativos ou o que for preciso. Tudo isso é possível, internamente, por aqueles que fazem a universidade, ou externamente, caso haja algum caso grave de improbidade administrativa.

Publicidade nos gastos. Esta é uma verdade para a UFRJ, mas infelizmente não para muitos jornais, bem como emissoras de TV e rádio. Talvez por isso seja possível uma CPI sobre qualquer recurso público mal gasto, mas não sobre a negociata que rola na mídia privada – afinal, todos devem lembrar do mensalão, cujos recursos passaram em grande parte por agências publicitárias, que por sua vez destinam mais de 80% de suas verbas para… meios de comunicação.

A crítica externa também é muito bem vinda, desde que contextualizada. Sempre é útil apontar falhas no processo e do processo. Por isso também parabenizo o repórter, apesar do julgamento que faço acima. No entanto, é preciso entender que, neste momento de tensão entre os grupos internos, precisamos de uma saída com aqueles que trabalham, no cotidiano, pela universidade pública e de qualidade.

Gustavo Barreto é estudante da Escola de Comunicação da UFRJ e se forma em julho de 2008.

Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

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