Revisitar e aprender (também) do passado

Multiplicam-se os sinais de alerta dos graves riscos que estamos a correr, enquanto sociedade, no contexto atual. Há quem fale em campo minado, do qual pouco ou em nada se toma a devida consciência, e que menos ainda se tem enfrentado como se deve. Seguimos teimosamente, como se nada de atípico estivesse sucedendo. Enquanto isso, carregam-se as nuvens sobre nossa sociedade. Sucedem-se os sinais de crescente descontentamento em relação a pontos axiais:
– vultosos investimentos em megaprojetos (copa, projetos faraônicos, financiamento do hidro-agronegócio…) em clara oposição em relação aos pleitos republicanos (“Res-publica”) essenciais (reforma agrária, demarcação e regularização dos territórios indígenas, quilombolas e povos tradicionais, enfrentamento à altura dos desafios da saúde, da educação, do transporte coletivo;
– investida gananciosa das grandes empresas de mineração com a cumplicidade do Estado;
– desperdício do dinheiro público, em proporções suntuosas, sob distintos aspectos (desenfreados escândalos de corrupção, propaganda perdulária;
– hipertrofia do Executivo, descabidas ingerências entre poderes;
– aumento assustador da violência social, com tendência à banalização, como reflexo também da cultura da impunidade seletiva… Os recentes protestos – desprovidos de iniciativas de negociações de importância tão evidente, sobretudo quando se trata de algo que alcança várias capitais também sinalizam para este quadro. Limitar-se a acusar os protagonistas de “baderneiros”, neles focando apenas os excessos, sem recorrer a espaços democráticos de mediação, além de ineficaz, ofende a inteligência de quem tem olhos para ver…

Nos últimos dias, voltou a circular, nas redes sociais, um texto impactante, correspondendo a uma carta (procurei situar a fonte ou o texto original, mas não consegui) de autoria atribuída a Vespasiano, dirigida a seu filho Tito, nos seguintes termos:

“22 de junho de 79 d.C.”

“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas.”

“De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.”

“Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro.”

“Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma ‘per omnia saecula saeculorum’, e sempre que o olharem dirão: ‘Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’.”

“Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão.”

“Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. ‘Vel caeco appareat’ (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma”.

“Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: ‘Ad captandum vulgus, panem et circenses’ (Para seduzir o povo, pão e circo).”

“Esperarei por ti ao lado de Júpiter.”

(cf. http://anisionogueira.wordpress.com/2013/05/17/carta-de-vespasiano-a-seu-filho-tito/ )

Com efeito, vivemos cercados de uma onda de graves desafios, da esfera econômica, estendendo-se ao campo político e ao terreno cultural: obras faraônicas, agressões sócio-ambientais, violência do Estado e seus aparelhos contra movimentos sociais, ações pouco ou nada republicanas, inclusive na esfera ético-política…

É aí que nos ocorre (re)visitar algumas páginas do passado, seguindo a reiterada intuição de Eduardo Galeano, para quem “Las voces del pasado tienen mucho que decir a los tiempos que vienen.” (cf., por ex.:
http://vos.lavoz.com.ar/libros/eduardo-galeano-estamos-hechos-historias ).

Séculos após, agora já na Idade Média, movimentos sociais da época tratavam de resistir, como pediam, ao clima de corrupção então reinante. Um desses grupos: os Goliardos. Estes o faziam por meio de seus versos satíricos (dos quais são conhecidos os famosos Carmina Burana). Em uma de suas poesias, aparecem versos criticando o poder extremamente corrosivo do dinheiro, da propina:
“Nummus iungit federa
Nummus lenit aspera
Nummus dat consilium
Nummus sedat prelium

Traduzindo:

A propina sela alianças
A propina é conselheira
A propina torna liso o que é áspero
O dinheiro amansa adversários.

Mais alguns séculos depois, já nos tempos modernos, um tal de Maquiavel tratava de desvendar os tortuosos caminhos do poder dos príncipes, cuidando de desmascarar suas estratégias:
– alianças nada éticas;
– estratégias de sedução das massas;
– táticas de perpetuação no poder;
– centralidade dos meios – quaisquer meios! – em função dos fins almejados, etc., etc., etc.

Qualquer semelhança desse passado com situações de hoje não é mera coincidência…

Temos sido demasiado lentos para revisitar o passado, e dele extrair ensinamentos. Mas, sempre há uma oportunidade de despertar do sono profundo, e refazer rumos e caminhos… É a nossa esperança!

João Pessoa, 14 de junho de 2013