Queremos a preguiça de Deus

“A raça humana é uma semana do trabalho de Deus”, diz a canção de Gilberto Gil. Depois disso ele descansou, conta a Bíblia. Não quis mais saber de trabalhar.

Então, por que suas criaturas desenvolveram tanto apego ao trabalho? Como diz Paul Lafargue, em seu livro “O direito à preguiça”, de 1883:

Homens cegos e limitados quiseram ser mais sábios do que o seu Deus. Homens fracos e desprezíveis quiseram reabilitar aquilo que o seu Deus amaldiçoara.

Até Cristo, continua Lafargue:

… pregou a preguiça no seu sermão na montanha: “Contemplai o crescimento dos lírios dos campos, eles não trabalham nem fiam e, todavia, digo-vos, Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu com maior brilho.”

O autor marxista diz que o problema começou com a “civilização capitalista”. Nela:

… o trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica (…). Olhem para o nobre selvagem, que os missionários do comércio e os comerciantes da religião ainda não corromperam com o cristianismo, com a sífilis e o dogma do trabalho, e olhem em seguida para os nossos miseráveis criados de máquinas.

Para ele, o culto ao trabalho é uma vitória ideológica da burguesia. Os patrões conseguiram impor aos operários não apenas um trabalho torturante, explorador e alienante. Mas o entusiasmo por ele.

Muitos poderiam alegar que isso já não é verdade. Afinal, lazer, viagens, diversão e esportes ganham cada vez mais nossa atenção. O tempo livre teria conquistado terreno em relação ao ganha-pão chato e cansativo?

Infelizmente, não. O tempo livre é que entrou para o circuito das mercadorias sob domínio da indústria cultural. Foi tomado por atividades que proporcionam pouco prazer e geram muitos lucros. É um aprofundamento do que Lafargue denunciou.

Verdadeiro tempo livre só quando transformarmos avanços tecnológicos em avanços sociais. Quando dermos um fim à busca do lucro como motor social. Deus fez o que fez e entregou-se à preguiça. Queremos o mesmo.

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