Que espécie de louco você quer ser?

Não é fácil definir como se dá exatamente a formação de opinião das pessoas. Trata-se de algo que, no final das contas, transcende qualquer análise mais objetiva por envolver aspectos fundamentalmente subjetivos. Não por acaso , desde os estudos mais básicos sobre emissão e recepção de mensagens – como a Teoria Hipodérmica, no contexto da Alemanha Nazista – até hoje, pairam mais dúvidas do que certezas sobre o assunto.

Não é possível afirmar com segurança que um público que se informa basicamente por meio de veículos com perfil ideológico de extrema direita terá majoritariamente uma conduta fascista, ultraconservadora e reacionária ao longo de sua vida.  Da mesma forma, não dá para dizer que os estudantes universitários de uma mesma faculdade, alinhada com pensadores de esquerda, serão revolucionários ou se negarão a atuar no mercado de trabalho dominado por grandes empresas. Afinal, há muitas variáveis, inclusive de ordem psicológica, que atravessam o processo cognitivo de homens e mulheres.

Os exemplos citados, entretanto, são casos tão radicais que pode ser mais fácil prever como está sendo moldado o pensamento da audiência em questão. Difícil mesmo é fazer a mesma análise em contextos mais próximos da realidade, envolvendo sociedades multiculturais, com distintas classes sociais em interação permanente, consumindo informações oriundas de fontes diversas – oficiais ou não – e em ritmo acelerado.

Em verdade, não é sequer preciso olhar para o outro para perceber como é complicado entender de que forma a opinião é formada e, mais ainda, como se deve, idealmente, abastecer-se de informações a ponto de se obter uma visão o mais acurada possível da realidade. Basta questionar a si mesmo, à forma como o próprio sujeito cria uma visão particular da realidade, para notar esse problema – geralmente adotando pontos de vista que lhe são convenientes e deem suporte ou um “chão” à forma como se relaciona com o mundo.

Como saber, por exemplo, se os massacres que vêm ocorrendo na Síria configuram de fato um genocídio cometido pelo governo a fim de manter seu regime autoritário ou se são, na realidade, ataques a milicianos que buscam desestabilizar o governo – atendendo a interesses ocidentais ou sabe-se lá de quem? E a preocupação dos EUA quanto ao possível desenvolvimento de armamentos nucleares por parte do Irã? Deve-se levar a sério o risco que isso representa para Israel e “ao mundo” ou trata-se de mais uma desculpa dos norte-americanos para invadir um país riquíssimo em reservas de petróleo e gás natural?

Mesmo para um jornalista profissional (e que procura, na medida do possível, ter uma visão de mundo desinteressada), que vive “por dentro das notícias”, acessando não só os veículos de comunicação da Grande Mídia como da Mídia Alternativa, é complicado ter certeza absoluta sobre o que está de fato ocorrendo nesses casos.

Claro que, por se tratarem de questões internacionais, há uma dificuldade ainda maior. Mas mesmo aqui no Brasil, é possível frustrar-se ao não chegar a uma robusta conclusão quanto a certos temas pautados constantemente por articulistas da mídia.

Quais sejam: o governo Lula não passou de um governo assistencialista e populista, que teve sorte devido à conjuntura econômica e, por isso, saiu com alto grau de aprovação, ou simplesmente teve mais competência administrativa que a gestão anterior? Os casos de corrupção que vêm se deflagrando aos montes nos últimos nove anos de governo petista realmente denotam uma gestão calcada no fisiologismo, peleguismo e apropriação indiscriminada do patrimônio público para atender aos interesses partidários ou essas acusações não passam de uma ação da mídia mais agressiva do que em outros tempos? E, se isso está acontecendo, é somente porque a mídia é burguesa e não suporta o PT ou porque o jornalismo e a população estão mais atentos aos casos de corrupção?

São tantas dúvidas, que acaba sendo uma operação angustiante estar sempre em busca da tal “verdade das entrelinhas”. A tendência é que quanto mais se apure, mais dúvidas apareçam, de modo que a única solução que parece possível é não formar uma opinião 100% certa a respeito de nada; enfim, manter sempre um pé atrás em relação a assuntos que, sabidamente, envolvem interesses políticos, comerciais, etc.

O problema é que, ao assumir tal posição, o indivíduo certamente será criticado por se limitar a ficar “em cima do muro”. Será acusado de relativista e até covarde pelos mais exaltados. Mas será que, apesar de tais críticos terem certa razão, assumir um ponto de vista menos dogmático e, acima de tudo, cuidadoso e aberto à discussão e novas versões, não é melhor do que se tornar um dono-da-verdade, com quem é impossível discutir sobre qualquer tema sem ter de submeter-se à rigidez de seu discurso?

É lógico que chega um momento em que se faz necessário posicionar-se de alguma forma, assumindo um ângulo específico de compreensão da realidade e deixando-se, assim, levar por certas verdades. Do contrário, o mundo não anda. Mas vale ressaltar: a desconfiança e a abertura ao diálogo, e a aceitação de visões diametralmente opostas às suas, bem como a humildade, são requisitos básicos para buscar o que, no fundo, é praticamente inatingível, isto é, a verdade.

Não, não é preciso cair no platonismo puro. Porém, importa lembrar o que, segundo Platão, era o lema de Sócrates, um dos maiores ícones da filosofia: “Só sei que nada sei”.

Destarte, o desafio remete a uma escolha fundamental: enlouquecer, acomodando-se sobre verdades convenientes ou enfrentar a angústia relativa à busca pela verdade que nunca aparece – o que também não deixa de ser uma loucura.