Presença

floresTalvez seja uma das coisas que mais esteja a nos custar, nos tempos atuais: estar presente. Parece que o presente ficou esvaziado. Costumamos estar mais no passado ou em algum futuro projetado, mas não aqui, não agora.

Não há nada de errado em alguém estar no passado ou no futuro. Somos seres itinerantes, estamos sempre a nos deslocar, a projetar. Mas este estar aqui, este agora, não são nada? São uma mera estação de passagem? Um lugar tão fugidio que quase não o percebemos.

A cultura em que vivemos, nos torna cumpridores e cumpridoras de metas. A gente está sempre tentando alcançar algo que aqui não está. Repito que não há nada de errado em estarmos a nos projetar.

Mas será que tudo deve ser uma projeção? Tudo é um estar me preparando para o que farei amanhã ou depois, mas tarde, hoje à tarde ou hoje à noite, daqui a alguns dias ou no mês que vem ou mais adiante, não sei quando?

E tem mais: será que essas metas que quero alcançar são metas minhas? Ou seriam metas que alguém me incutiu para que eu alcançasse? Metas que aprendi a querer como minhas, a pensar que são minhas, mas que na verdade podem ter pouco a ver com o que quero de verdade, com o que sou como pessoa.

E se eu me dispusesse a habitar o presente, como seria? Será que me permito isto? Permito-me respirar e sentir a minha respiração? Sou consciente, estou em contato, com o fato de estar vivo? Isto me conecta com a totalidade de que faço parte?

O que é para mim, estar presente? Posso ver as cores das flores, os brotos novos nas plantas da sacada, a cor do céu, as formas das nuvens? Ouço os cantos dos pássaros e o canto do grilo?

Estes dias passados tenho começado a pintar e desenhar de novo, depois de bastante tempo de não o fazer. O mundo do desenho e da pintura é para mim um mundo silencioso. Sobre tudo agora, em que vou para a cor e para o papel, para os lápis e os pincéis, sem muita expectativa de resultados, sem demasiada ideia do que irei fazer.

Sei que quero estar. Sei que me faz bem me subtrair das expectativas de utilidade, resultados e projeção, e sumir, desaparecer nesse espaço mágico em que mergulho quando estou diante de uma folha de papel, rodeado de cores.

Partilho isto como uma forma de estabelecer pontes, de criar espaços de diálogo. Creio que a todos nos faz bem poder nos recolher por alguns instantes, ou por muitos momentos, à pressão do desempenho e dos resultados. Deixar um espaço para a gratuidade, para o mero estar. Estar presente.