PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN OU A BANALIDADE DO MAL DE H. ARENDT. NOTAS PARA UM PROJETO DE ESTUDO E DE VIDA

Acabo de ver pela terceira vez o filme: “Precisamos falar sobre Kevin” (Lynne Ransay, 2011) e cada vez mais me vem aquele sentimento de estranhamento e arrebatamento a partir das imagens construidas propositalmente para uma reflexão profunda e ao mesmo tempo tão banal nos dias atuais. dias estes em que se tornou quase comum se queimar indio, mendigo, pobre de toda sorte e sempre em situação de abandono e risco de uma maneira fria e calculista num País como o Brasil… neste sentido o filme parece não nos trazer grandes novidades. Ledo engano. Burilando alguma coisa na história da filosofia Ocidental (Platão, Agostinho e Kant, pelo menos) vemos que o tema do Mal esteve presente nestes gigantes do pensamento Ocidental e q ue eles deram aquela conceituação quase definitiva para o conceito de Mal e seu significado na cultura.

Para esta geração de pensadores e seus discipulos, o mal, o feio, o injusto, o vicio, etc. sempre foram tratados como “ausência de realidade”, e, na medida em que o Ser/Real sempre foi considerado como sinônimo de prefeição, o Mal seria ausência de perfeição. Só o Ser , ou a perfeição, seria dotado de estatuto positivo, qualquer afastamento em relação a esse parâmetro é “mal defectivo”. Assim, o Mal e todas as modalidades do negativo poderiam ser interpretados como “Não-Ser”, como carência de positividade e perfeição, vacuidade pela qual ninguém (muito menos Deus) poderia ser considerado agente responsável, a modo de causa eficiente. Estava armado o durável modelo metafísico de tratar temas graves e existenciais como numa longa noite na tradição Ocidental. Foi preciso Marx e Nietzsche para desconfiar e se distanciar desta leitura tradicional, f azendo uma crítica radical a inoperância de conceitos metafísicos no mundo contemporâneo (mundo do Capital, sendo mais preciso). Porém, destaco a tese de Hannah Arendt (misturada com algumas ideias de Th. Adorno) em que é possivel uma “banalidade do Mal” a ponto de questionar a ideia de Mal como ausência de bem ou coisas do gênero.

Ela prercebeu uma espécie de “Mal sem raiz”, superficial e que se alastra como um fungo. Como ela mesma afirma num ensaio genial: “O maior Mal não é radical, não tem raizes, e, por não ter raizes, não tem limitações, pode chegar a extremos impensáveis e dominar o mundo todo” (Questões de filosofia moral, P. 160). Sem poder me aprofundar nesta frase e nas suas consequências num estudo rigoroso e de mais fôlego (pretendo fazer isto depois de um curso de extensão sobre o tema na universidade e fora dela, principalmente), indico de cara que esta leitura da pensadora alemã define extraordinariamente o filme “Precisa mos falar sobre Kevin” (definido de maneira inteligente e lacônica de “espinhoso” pela estudante de filosofia Márcia Fontes, como é peculiar em pessoas inteligentes). O filme trata de um “Mal sem explicações” mais profundas ou metafisicas. O personagem Kevin se constrói maldosamente sem explicação de ordem metafisica ou psicanalitica. Ele é maldade fria, calculista desde criança sem precisar justificar ou dar alguma razão natural ou sobrenatual. A mãe vai se desfigurando no filme como uma vela que vai se gastando a ponto de existir como um zumbi.

Sofre todas as consequências cotidianas de uma maldade sem razão aparente ou profunda até o desfecho final, que já esta no inicio sem o espectador ainda saber. Genial o recurso de idas e vindas até o desfecho trágico e banal (bem ao modo Hanna Arendt e sua análise de “Eichmann em Jerusalém”). O filme “espinhento”, nos fere, nos incomoda e nos faz pensar na nossa impotência diante de todas as “vidas frà ¡geis” marcadas por um sistemas que produz socialmente a crueldade e ao mesmo tempo propala ideias éticas e tolas, auto-ajuda boboca e a entronização da irrelevância cotidiana (televisão e os jornais que o digam). Os mais pobres estão eternamente expostos na sua fragilidade a sanha dos burguese pequenos e grandes, nos postos de trabalho, nas ruas, na casas e em todo lugar em que impera a lógica terrificante do mundo tornado mercadoria. Kevin é alegoria de uma “banalidade do Mal” que se enraiza (mesmo sem ter raizes) na nossa indiferença perante o sofrimento alheio e tornado quase natural. O filme é um desafio ao pensamento e à práxis (cada vez mais volatilizada em discursos faceis de governos, ONG,s Igrejas, Universidades, Politicos, etc…).