Práticas e teses equivocadas sobre o momento conjuntural e seus desdobramentos: ponderações e questionamentos

Importa situar os desafios-chave em curso, no Brasil e na América Latina, no panorama mundial, em especial conectados ao complexo cenário de crise na Europa, onde tem lugar uma potente onda de reacionarismo (por ex., de intensificação do racismo contra migrantes e refugiados). Fenômeno que costuma produzir-se sobretudo em momentos de crises mais agudas do Capitalismo. Supérfluo, lembrar suas conexões com o que se passa também no Brasil.

Como em casos pretéritos semelhantes – recentes e menos recentes -, também o atual momento de extraordinária efervescência das distintas forças sociais em confronto acaba tornando-se um privilegiado cenário, onde vicejam práticas e teses equivocadas. Terreno fértil para a irrupção de paixões (coletivas e individuais), que reduzem drasticamente as condições favoráveis ao exercício do discernimento. Prosperam, nesse cenário, práticas e teses pouco ou nada razoáveis. Nas linhas que se seguem, buscamos, desde o compromisso com as classes populares, submeter ao debate em curso algumas considerações críticas e vários questionamentos, a este respeito.

Se, em momentos menos tensos e de relativa calmaria, a realidade social não se nos dá a conhecer satisfatoriamente, muito menos se dá em épocas de profundo e crescente acirramento de interesses sociais, econômicos e políticos conflitantes. Clima que, se não tolhe de todo, pelo menos reduz consideravelmente as chances de uma qualidade da observação dos distintos fios da realidade (tende-se, aí, mais à observação dos fios que são simpáticos ao observador, enquanto se tende a tornar-se menor a atenção devida aos fios que soam equivocados ao observador). Daí resultam ainda menores chances de uma costura qualitativa dos diferentes fios, necessária a uma compreensão menos imprecisa da mesma realidade, comprometendo, por consequência, a qualidade de uma intervenção sobre a mesma. A mera apreensão de fios isolados afeta negativamente a qualidade de uma análise e de uma intervenção menos imprecisa sobre a realidade concreta.

Mesmo assim, podemos – e devemos, como cidadã(o)s corresponsáveis e protagonistas da “Pólis”, comprometidos com a construção de uma sociabilidade alternativa ao modelo capitalista – dela acercar-nos, no que está ao nosso alcance. É o que aqui buscamos exercitar, chamando a refletir menos apaixonadamente sobre algumas práticas e teses questionáveis.

– As graves ocorrências ético-políticas, que se vêm sucedendo, emergem de repente (por ex.: desde os resultados eleitorais de 2014) ou precisam ser entendidas em suas raízes mais fundas, no seio das opções ético-políticas fundamentais, tomadas e em curso, há algumas décadas?
– Em que medida a própria opção por privilegiar os embates eleitorais como o meio quase exclusivo do que fazer ético-político das forças de transformação social não está (também e principalmente) por trás do que vem sucedendo, hoje, como epifenômeno ou como a ponta do “iceberg”?
– Em qualquer tempo e em qualquer parte onde prevaleça esse caminho, quais têm sido os frutos: de favorecimento saudável (isto é: abrangendo o conjunto articulado dos interesses das classes populares (econômicos, políticos, culturais, organizativos, formativos, socioambientais, etc., etc., etc.) ou, com eventuais e passageiros ganhos estritamente econômicos (sendo estes incomparavelmente inferiores aos obtidos pelos “de cima”)?

– Até que ponto o esforço de apreensão dos fios da realidade social, caso se restrinja apenas às intempéries e incidências do imediato, sem vinculação orgânica com cenários precedentes, de maior potencial explicativo, interfere negativamente na qualidade da análise da complexa realidade?
– Até que ponto não se tem revelado eticamente comprometedora a atitude de denunciarmos práticas nefastas das forças adversárias, sem que apliquemos a nós próprios as mesmas balizas ético-políticas de julgamento? Exemplo disto pode ser ilustrado, quando, a justo título, acusamos as forças dominantes do Capitalismo, em especial sua mídia comercial, sua contumaz adoção das medidas atribuídas a Goebbels?
– Em que medida uma análise dos fatos e versões limitada ao imediatismo tende a desfocar os conflitos de interesses de classes, substitituindo-os pelo protagonismo de figuras de heróis e salvadores – prática tão combatida nas origens dessas mesmas forças? E, assim sendo, até que ponto tal prática fortalece certa cultura do caudilhismo, de triste memória, na América Latina e no Brasil?

– Nessa mesma linha de argumentação, qual a responsabilidade específica das forças socais de transformação (partidárias, sindicais, populares, eclesiais, etc.) neste desfecho sombrio, à medida que, de modo não desprezível, abdicaram objetivamente de seu horizonte utópico, tornando-se reféns da lógica personalista ou de pequenos grupos dirigentes, em vez de seguirem apostando na força protagonista de suas bases, seja nos processos organizativos, seja no processo formativo de bases e coordenadores?
– Sem desconsiderar as lutas de resistência, inclusive no âmbito do imediato, será mesmo suficiente jogarmos todas as cartas na defesa desvairada de um “fica” ou de um “sai” como se fosse “a” saídados graves impasses éticos, políticos, econômicos, socioambientais e outros?

– Que tal voltarmos a investir no que dá certo, isto é, por exemplo, na luta por uma pauta econômica alternativa, que inclua medidas tais como: auditoria da dívida pública, tributação progressiva, taxação das grandes fortunas e das grandes heranças, rigoroso combate à evasão de divisas (via paraísos fiscais), combate à sonegação, em especial das grandes empresas, revisão das renúncias fiscais, dentre outras?
– Que tal apostarmos num tempo necessário de autocrítica, em nossas organizações de base, tomando como parâmetro, não a régua do PSDB e cia., mas partindo de nossas práticas e concepções, características nas origens de nossas organizações?

Eis algumas indagações que ouso propor ao debate. Correspondem ao sentimento de que podemos e devemos dialogar, a partir de estas e de outras provocações, buscando responder aos desafios múltiplos que enfrentamos, um dos quais avalio como crise de identidade de classe. Já tivemos mais clareza sobre este conceito e sobre esta experiência. Não confundíamos, como hoje sói ocorrer, categoria com classe social. Nem classes populares com camadas populares. Nem origem de classe com posição de classe. Tínhamos especial apreço pelos bons clássicos. Um deles, a mais viva expressão da Filosofia da Práxis, tinha uma incidência capital nas organizações de base, a partir mesmo de teses como a que consta daquela série das onze teses lançadas em contraposição a Feuerbach. Mais precisamente, a Tese II, segundo a qual é a prática, não o discurso, o critério da verdade.

Esta passa a ser tomada tão a sério, que, não importa de quem parta, se for verdade, nossa atitude só há de ser uma: a de acolhê-la. Do mesmo modo, a mentira: não importa de onde venha, mesmo que seja de figura mitológica, se daí procede mentira, não é sua negativa em discurso, mas é sua prática que há de confirma-la. Neste ponto, somos reportados a um conhecido dito medieval, expresso em Latim: “Veritas a quocumque dicatur, a Spiritu est.” (“A verdade, seja ela dita por quem quer que seja, vem do Espírito.”). Identidade de classe não se comprova necessariamente, com símbolos, com crachás, com gorros, com camisas vermelhas ou com fichas de filiação. Comprova-se com gestos, com atitudes, com práticas efetivas. Trata-se da primazia da práxis sobre a verborragia nominalista. Nesse sentido, a tal ponto de degeneração chegamos, que sentimos necessidade de reexaminar se tanta gente a quem chamamos de “companheiro/companheira” corresponde mesmo a tal designativo, ou, em razão de seus graves desvios, mostrados por suas práticas, não os/nos situam, antes, nas fileiras das forças adversárias, conquanto persista um discurso vazio de pertença à mesma classe…