Por que ler

Uma das coisas que mais me agrada na literatura, é a sua “inaplicabilidade”, e já me sinto obrigado a tentar dizer o que seja isto. Quer dizer: inutilidade.

Não creio que se leia para tentar obter algum benefício, no sentido de prestígio, notoriedade, fama, lucro de algum tipo. Lê-se por prazer, ou deveria se ler por prazer, acima de tudo.

A gente se permite, quando lê (refiro-me, sempre à leitura de romances, contos, ficção, poemas,) se subtrair das expectativas de utilidade, e isto já é um grande alívio.

A pessoa deixa por alguns momentos, de estar para os demais, e está para si. Isto estabelece uma reversão da intencionalidade, muito boa. Vivemos em uma sociedade e em uma cultura onde o outro é enaltecido, e o eu menosprezado.

Quando lemos, somos os reis do universo. Tudo gira em volta de nós mesmos. Outra coisa que me parece muito importante a respeito da literatura, é que ela nos dissolve na trama da realidade.

A realidade é que somos estruturas de linguagem, feixes de significados, palavras que admitimos em nós e a nosso respeito, e a respeito do mundo, dos demais, de tudo que existe.

Quando lemos, isto se subverte, se modifica por completo. Somos mais do que o admitido até então. Nos expandimos, somos outras temporalidades, outras identidades e memórias.