Pior que a expulsão do país, a exclusão da memória da sua Igreja, por Reginaldo Veloso

Se me pedissem um título para o evento a que assisti ontem, 19.09, à noitinha, na Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco eu daria o que você acaba de ler.

Convidado pelo Padre Vito Miracapillo, que, injustamente expulso do Brasil, há 32 anos, naquela tarde, finalmente, recebera o “visto de permanência”, dirigi-me para lá, a fim de presenciar a homenagem que a Diocese de Palmares iria receber do Legislativo estadual por ocasião do seu Cinquentenário.

O cenário já nos colocava, de cara, diante de gritantes contradições: um plenário repleto, predominantemente, de parlamentares e de clérigos, entre os padres presentes, todos da diocese homenageada, na primeira fila, o Padre Vito. Havia também uma discreta presença de leigos e leigas da diocese, entre os quais, grandes amigos e amigas, colaboradores do Pe. Vito, quando de sua atuação pastoral na paróquia de Ribeirão.

De frente para todos, uma mesa presidencial composta, entre outros ilustres personagens, pelo bispo diocesano de Palmares, ladeado por um fornecedor de cana, aquele mesmo que 32 anos atrás liderara a invasão da Igreja Matriz de Sant’Ana do Ribeirão por um grupo de raivosos comparsas, quando de uma missa celebrada como expressão de comunhão e solidariedade na fé com o presbítero ameaçado de expulsão… Aquele mesmo que rasgara cartazes e derrubara faixas, empurrando quem os portava, camponeses e padres… Sentado, ao lado do Pe. Vito, um jovem deputado, filho, nada menos que, de um ex-deputado federal por Pernambuco, muito conhecido, por ter sido o testa de ferro de fornecedores de cana e usineiros, no imbróglio que resultou na expulsão do Pe. Vito, a 30 de outubro de 1980, hoje impedido de eleger-se prefeito de João Alfredo, por ter sido declarado “ficha suja”.

Nas falas dos Deputados Coutinho e Lessa, Pe. Vito teve sua presença destacada e saudada, com aplauso dos presentes. Mas aí, foi anunciado e projetado um “vídeo institucional” da Diocese de Palmares: tendo como fundo musical o “Hino do Cinquentenário”, o vídeo procurou mostrar o contexto socioeconômico em que transcorreram os 50 anos de ação pastoral da diocese, sendo muito generoso em apresentar as figuras do clero, bispos e padres que marcaram a história da cinquentenária diocese… Cadê o Pe. Vito?… Esperamos até o final da projeção, mas não apareceu. Os que montaram o vídeo resgataram fotos remotas, por exemplo, do Mons. Abílio, lá dos anos 50… Dois padres italianos, pelo menos, eu pude ver, o Pe. Giuliani e o Pe. Luigi…

Será que não encontraram nenhuma foto do Pe. Vito, que, ao longo de cinco anos se havia notabilizado regional, nacional e internacionalmente, por uma ação pastoral centrada na evangelização e na defesa de camponeses pobres, explorados e desprotegidos, sobretudo, os da Usina Caxangá, desapropriada para ser entregue a eles, mas surripiada pela cobiça voraz dos poderosos da cana de açúcar e seus apaniguados?… Pois é, quem sabe por que razões ou conveniências, certamente não as do Evangelho do Reino de Deus, excluíram a imagem do Pe. Vito do “vídeo institucional” comemorativo dos 50 Anos da Diocese de Palmares… Foi humilhante para o Pe. Vito, ser pública e solenemente excluído da memória oficial da diocese a quem generosa e desprendidamente servira e pela qual padecera perseguição, amargando mais de 30 anos de expulsão do território brasileiro. Foi aberrante, no contexto daquela homenagem. Foi uma indignidade, motivo de estarrecimento e indignação de várias pessoas presentes.

Eu, prontamente, me retirei daquele recinto que, de repente, se me tornou insuportável. Soube, com pesar e vergonha, que nem na fala do bispo, a presença do Pe. Vito merecera qualquer sinal de atenção e carinho.

De resto, do discurso que ouvi, do vídeo que vi e das notícias que recebi, tudo aquilo me soube a insípida, incolor e inodora comemoração de um Cinquentenário que poderia ter-se inspirado num Cinquentenário ainda mais significativo, o do Concílio Vaticano II, que veio, sobretudo, resgatar o caráter profético da Igreja, diante de um mundo carente de justiça, de solidariedade e de paz.

Uma oportunidade perdida, mas reveladora daquilo a que estão reduzindo a Igreja neste país: massa manipulada e alienada, tão ágil quanto irresponsavelmente, pelos capitães de certa mídia religiosa, bem ao gosto do mercado e da onda consumista.

Ocorre-me com tristeza o que sentenciava o único Mestre, do alto da montanha: Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perde o seu sabor, com que se salgará? Não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e pisado pelas pessoas (Mt 5,13).

Reginaldo Veloso, servidor das CEBs