Perspectivas

A leitura de alguns textos, a escuta de algumas observações e frases, têm a virtude de mobilizar vários sentimentos e percepções*

A sensação de consolo e alívio diante de um panorama que tende a ser mostrado como sem saída, numa perspectiva catastrofista, desde as esferas do poder e desde a mídia venal.

A certeza de que há leituras da realidade em profundidade, com fundamentação histórica e científica e (o que me parece crucial nos dias de hoje e sempre) com impecabilidade ética.

Em circunstâncias de crise (e em algum sentido toda circunstância é crítica) a pressão para encontrar uma saída pode levar a esquecer caminhos imprescindíveis. O recurso à história. A visão integradora. A necessária interseção de pontos de vista e perspectivas superadoras de megalomanias salvacionistas. A projeção de horizontes positivos que dependem, no entanto, de árdua e laboriosa ação pessoal e coletiva.

A perspectiva do vivido aconselha paciência tanto quanto ação integrada e integradora. Isto é: trabalhar para se construir a cada instante como sujeito com as feições que a trajetória pessoal configura. Preservação da memória como reservatório seguro daquilo que não morre. Consciência de que a identidade é a única fortaleza segura que habilita o jogo da sobrevivência com o tom da esperança. Ou seja: como coexistir com as situações adversas potenciando ao nosso favor a pressão desumanizadora.

Isto exige uma humildade que nos aproxima da totalidade. Diferentemente do atual cenário em que se tritura a individualidade tanto quanto a comunidade para conformar massas amorfas manipuláveis, a ação libertadora demanda uma atenção contínua a esmerada para as esferas mais sutis da existência.

O cuidado tanto conosco mesmos/as como com relação às outras pessoas, vistas como criação de Deus e merecedoras de todo respeito. O cultivo cotidiano do olhar artístico e poético nas suas diversas manifestações, como maneira de nos resguardarmos da despersonalização que tentam nos impor. Refiro-me aqui a essa capacidade humana de ver e ir além do imediato. Projetar a vida para um além feito por nós mesmos/as, o lugar dos sonhos pessoais e coletivos.

*Refiro-me aqui e agora ao texto de Alder Calado publicado na edição de hoje. Mas a minha observação recolhe também algumas outras leituras da realidade que tenho tido a oportunidade de conhecer (Ramón P. Muñoz Soler, Graciela Maturo, Fritjof Capra, Karel Kosik, Anais Nin, Herbert Read)

 

  • Caro Rolando
    Muito boa sua reflexão. Precisamos muito no tempo atual. Cultivar o olhar e ainda mais, o afeto que une as pessoas. Viver o hoje, mas sentindo a efemeridade da vida. Amar sempre quem nos rodeia. Presença constante para o bem querer
    Um abraço em Maria

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