Perfil de João da Cruz Fragoso

Com muita alegria sou filho de Teixeira, PB, lá no alto da Borborema. Meus pais foram agricultores e me transmitiram a seiva da luta pela Justiça e pelo amor ao próximo.

Sobrevivemos com as maiores dificuldades, sem terra, sem emprego, sem dinheiro e com muitas necessidades, inclusive a fome. No meio desse limiar de miséria meus pais me ensinaram o sentido da vida, enquanto se empenha, a qualquer custo, pelo bem comum, entendido aqui como o bem dos mais excluídos.

Ainda muito jovem fiz parte das lutas pela melhoria de minha categoria – os bancários e fui eleito Diretor do Sindicado dos Bancários da Paraíba. Procurei, com todas as minhas possibilidades, articular os diversos segmentos de trabalhadores, especialmente os do campo, onde nasciam as Ligas Camponesas.

De membro da Ação Católica Operária ingressei no Partido Comunista Brasileiro – Partidão, onde fui cada vez, mais estimulado a organizar e articular os diversos sindicatos de trabalhadores.

Quanto o golpe militar de 1964 se instalava procurei, com vários companheiros, resistir de todas as maneiras, recebendo inclusive o oferecimento de vários sargentos do 15º Regimento de Infantaria para a resistência armada, totalmente inviável naquele momento.

Fui destituído do Sindicato dos Bancários, fui demitido do Banco do Nordeste e passei três anos fazendo biscates para sustentar minha família, já que ninguém queria empregar um subversivo.

Nas circunstâncias mais adversas tentamos organizar, como podíamos, a resistência na Paraíba. Reuníamo-nos, com figuras históricas, em quintais de casas, firmas comerciais, à noite na falésia do Cabo do Branco, em fazendas no interior do Estado, onde passávamos mais de um dia sem qualquer alimentação. Mas deu certo, a luta ganhou corpo e quatro anos depois voltei ao Sindicato dos Bancários como Presidente, e percebendo que a parte mais visível da luta contra a ditadura estava no meio estudantil, o apoiei através do Sindicato. Com o crescimento da resistência, veio o segundo golpe – o Ato Institucional nº 5, em que todas as instâncias legislativas foram fechadas, destituídos vários governadores, parlamentares cassados, desterrados, ministros vitalícios dos nossos tribunais foram demitidos, mais de 500 pessoas torturadas até a morte, 30.000 presos políticos, mais de 100.000 demitidos e perseguidos, decidi então, como dirigente de uma categoria de trabalhadores, fazer uma proclamação de resistência. Foi feita através do jornal do Sindicato no dia 23 de Dezembro de 1968.

Fui novamente destituído do Sindicato, preso durante 21 dias pela Polícia Federal. Continuamos com a luta da maneira que podíamos.

Fui preso noutra oportunidade quando um partido radical de esquerda fez uma expropriação da Cia de Cigarros Souza Cruz.

Outra vez, juntamente com meu e pai e minha irmã, acusados de termos espalhado que a Polícia Federal havia me extorquido dinheiro.

A repressão, com a sua violência, neutralizou as atividades dos partidos de esquerda. Eu que ingressara no Partidão, não por convicção ideológica mas por entender que ele era a instituição que mais denunciava as arbitrariedades da ditadura e também articulava o povo para continuar resistindo senti profundamente o degelo, especialmente porque o meu Partido não apoiava a luta armada, enquanto outras organizações enfrentavam de armas na mão as forças do Golpe.

Com o tempo, após a queda do Muro de Berlim, senti o apelo para trabalhar junto aos mais excluídos, agora inspirado no Evangelho. Acompanhei as CEBs durante alguns anos, procurei incentivar a sua formação através de Círculos Bíblicos em vários bairros da Capital.

Pertenço ao grupo de estudos Nós Também Somos Igreja, que procura revitalizar as CEBs e a Teologia da Libertação.
Continuo acreditando na “bondade humana” e convicto de que o Reinado de Deus está próximo.

Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

Seções: Brasil, Opinião.

Artigos assdim auxiliam no perceber que necessario e urgente é, a revitalização das CEBs. Onde moro, tivemos uma iluminada semana social em 2010 , PRIMEIRA SEMANA SOCIAL – SJO – Tema: “Direito à memória e à verdade”, com a presença de Maurice Politi entre outros.

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