Os donos da verdade

Em entrevista coletiva realizada durante a FLIP – 2009 (Festa Literária Internacional de Paraty – RJ), Richard Dawkins, o polêmico biólogo autor de “Deus, um delírio”, fez uma declaração que, em outros tempos, poderia render-lhe uma execução por blasfêmia:

“Não existem crianças católicas. Existem crianças com pais católicos”.

A frase proferida pelo cientista concluía o argumento de que crianças não têm o discernimento necessário para decidir ou optar por seguir determinada religião ou doutrina. Para complementar, Dawkins ainda afirmou que jamais diria para seus filhos não acreditarem em Deus – o que, no mínimo, iria de encontro a suas próprias ideias.

Trata-se de um argumento pertinente, muito embora tal linha de raciocínio o tenha levado, na mesma entrevista, a cair, de certa maneira, no dogmatismo que ele mesmo combate em sua crítica às religiões. Pois, logo em seguida, o cientista afirmou que, se fosse ensinar algo a seus filhos, lhes diria que “a evidência é a única boa razão para se acreditar em algo”. Ora, o conceito de evidência remete à verdade científica; àquilo que é comprovado cientificamente. Portanto, ainda que seja compreensível o fato de Dawkins procurar tomar uma posição perante seus filhos, ele não deixa de estar doutrinando-os de acordo com o que acredita, segundo um padrão determinado de apreensão da realidade.

A ciência também doutrina

Pode parecer estranho dizer isso em pleno século 21, quando grande parte do “desenvolvimento” da humanidade se deve à evolução da ciência e tecnologia, mas é preciso ter em mente que a Ciência (sic) é também uma espécie de doutrina. Ela não escapa ao âmbito da linguagem e está, portanto, inserida na cultura, sendo produto das idéias de homens e mulheres com base em conceitos e princípios construídos dentro de seus próprios limites disciplinares.

Está certo que o método científico foi capaz de provar diversas teorias e, por meio de experimentos controlados, permitir à humanidade compreender fenômenos naturais e desapegar-se, desse modo, das visões míticas a respeito das misteriosas dinâmicas do planeta. No entanto, ainda assim, tais comprovações não partem de um princípio ulterior, isto é, de uma verdade absoluta e indiscutível que vem de cima ou de caráter ahistórico, mas de princípios baseados nos próprios conceitos e metodologias científicas.

Dito isso, vale fazer dois comentários acerca da Ciência: primeiro, é preciso dizer que a Ciência não é mais que um paradigma; um modo específico de compreensão da realidade que gera modelos analíticos para apreendê-la, procurando reduzir seus enunciados à linguagem matemática, como fazem a física e mesmo a biologia. Sendo assim, a Ciência consiste numa ordem discursiva específica, na qual há momentos, lugares, contextos e formas determinadas para se falar ou discutir a respeito de certos assuntos. Michel Foucault possivelmente concordaria com o fato de que Ciência é um grande “sistema de exclusão”, assim como o são as disciplinas, que não aceitam uma ou outra premissa e fazem uso de certas expressões e princípios, recusando outros que não se enquadram em seu modus operandi.

O segundo comentário ressalta um aspecto positivo da Ciência e é um tanto crítico à Religião: embora possa ser tachada de doutrina, a Ciência, ao contrário das religiões, costuma estar aberta a discutir aquilo mesmo que já foi provado no passado, situando-se, por isso, num patamar mais “democrático” que as religiões. A Ciência procura fugir dos dogmas e da própria verdade absoluta, embora seu objetivo seja sempre chegar a essa verdade. Sua virtude, portanto, reside na capacidade de contestar suas próprias afirmações.

Religiões são menos flexíveis

Já as religiões, embora tenham também certo grau de abertura para discutir certas questões – chegando a reformular, por vezes, algumas de suas visões –, são mais engessadas do que Ciência, pois buscam a verdade pela revelação e fé, ao passo que a filosofia, o faz pela razão e argumentação, e a ciência, pelo método científico (ou “racionalidade compactada”). É impossível prosseguir com qualquer discussão quando um padre ou seguidor qualquer argumentam que “isso é verdade e deve ser respeitado porque Deus assim determinou”. E é exatamente esse aspecto que motivou a fala de Dawkins no que se refere ao trato com as crianças, uma vez que a Religião doutrina com muito menos flexibilidade e abertura do que a Ciência.

O remédio para esse impasse – “Religião ou Ciência como detentores da verdade?” – não é necessariamente recorrer ao fundamento iluminista, que associa a primeira à escuridão e, a última, à luz. Ambos os paradigmas podem levar a concepções equivocadas e limitadoras, bem como a revelações úteis e salutares à humanidade. O que se mostra fundamental é que tanto a Ciência quanto a Religião devem ser entendidas como produto da intervenção humana no mundo e não como recintos da verdade universal, advinda de um princípio apriorístico, metalingüístico ou metafísico.

O argumento de Dawkins é, sem dúvida, válido e digno de reflexão. No entanto, além de tê-lo conduzido para o mesmo buraco de onde pretende tirar boa parte da humanidade (a porção não-ateia, pelo menos), sua fala parece desconsiderar que qualquer um de nós, desde o nascimento, já é impregnado cultural e socialmente. E nem por isso deixamos de ter nossa própria singularidade. Tampouco somos impedidos de fazer nossas próprias escolhas e, muito menos, vemos mitigado nosso potencial subjetivo.