Mancha, marca, chaga, estigma 2
Cumprindo o seu papel
Renato Kress

  O que já se chamou romanticamente de "exército de reserva da mão de obra" hoje em dia não passa da sobra, dejetos da sociedade, transformados em uma classe sem lugar na perspectiva da sociedade sedutora incapaz de absorvê-los que passa a demonizá-los, delegando a eles a culpa por toda insatisfação e pela crescente angústia associada à neurótica incompletude (aceita como "Destino Manifesto") do homem pós-moderno.

   Graças ao pobre, o cidadão pós-moderno, consumidor do Estado, não pode desfrutar, por exemplo, do seu carro. Em primeiro lugar ele não pode ir de 0 a 100km/h em 4 segundos simplesmente porque há também outros carros, muitos dos quais antigos, lentos e em mau estado de conservação; em segundo lugar sair à rua é estar sujeito a uma "redistribuição de renda" forçada.

  O que há, e deve-se atentar ao fato, é uma crescente e sutil (à boa maneira das profecias auto-realizadoras) incriminação da pobreza. Medidas autoritárias com vias intimidatórias ou repressoras tendem a desencadear respostas-relâmpago tão intensas, violentas e arbitrárias quanto às quais a classe pauperizada estava sujeita e a alimentar o círculo vicioso dos que pretendem reassumir teorias e posturas do século retrasado sobre a "natureza devassa" das "classes inferiores". Uma boa retórica pode transformar qualquer insanidade na mais aristotélica e cartesiana das verdades lógicas.

  O fato de que não ocorra, sob todas essas condições, o crescimento da noção de injustiça com o potencial de se condensar em um grande movimento de protesto ou até uma rebelião contra o sistema vigente atesta a eficácia da combinação estratégica de: exclusão, incriminação e brutalização dos estratos "problemáticos" da sociedade. Os caras são eficientes.

  O avanço desses estratagemas transforma a possibilidade do Eu-cidadão pós-moderno (aquele, o consumidor do Estado) de endossar efetivamente princípios de justiça que só poderiam ser satisfeitos concedendo aos Outros não cidadãos (impossibilitados de consumir o Estado) o mesmo grau de liberdade real e positiva, numa possibilidade ridiculamente risível.

   Talvez estar disposto a transpor do campo "micro" da atividade moral para o campo "macro" da equanimidade jurídica seja uma proposição deveras filosófica. Concordo com quem me argumentar isso. Mas se a maioria da sociedade, por sua própria conta, é capaz de fazê-lo, ou mesmo de manifestar sua vontade nesse sentido, mesmo que perceba-se, nesse ponto, completamente desamparada e à mercê dos mais variados interesses e poderes agora manifestos, se mesmo diante desse quadro a sociedade, em sua maioria, posta-se contra, torna-se uma questão política e sociológica. Com respostas políticas e sociológicas, mais pragmáticas do que as filosóficas.

  Não será pela acadêmica ou amadora sobreposição de análises filosóficas acerca dos temas acima mencionados que resolveremos as questões na prática. Todas as visões honestas acerca da contemporaneidade das mais às menos geniais apontam francamente para duas constatações: nada há mais de genial ou ácido, sequer chocante a dizer, escrever, fotografar, relatar ou noticiar (mesmo porque todas essas técnicas de certa forma distanciam da realidade do ser carne e entranhas transmoldando-o no passivo expectador do cotidiano) e também para a percepção de que toda nova obra flutua no limbo entre o preciosismo intelectual dos vaidosos ou o desespero da frenética repetição dos humanos, demasiado humanos.

Renato Kress
18-12-2002

Leia ainda: Mancha, marca, chaga, estigma (14/12/02)


Consciência.Net