A Reestruturação do Capetalismo para o Século XXI
Renato Kress

   O sistema-mundo capitalista degenera em suas constantes renomeações do mesmíssimo processo, o que se denominava modernização, depois flexibilização e agora pomposamente rotulado de "Globalização". Uma série de fatores contribui, de forma uníssona e sistêmica, ou de forma particular e asistêmica, para a contração desse sistema. Não é mais tão simples que se consolem as massas populares com paliativas medidas conjunturais visando diminuir a desigualdade social muitas vezes de maneira eleitoreira ou na expectativa de se impedir inúmeros levantes das massas como o 'panelaço' argentino, ou as constantes e vigorosas manifestações contra ditatoriais determinações da Organização Mundial do Comércio(OMC), ou as reuniões do Grupo dos sete (o G-7) visando a criação e manutenção da exploração sobre economias periféricas para manter a qualidade de vida (ou do lucro?) das potências ao centro do capitalismo.

   A panacéia liberal de que o lucro precisaria ser acumulado para posteriormente ser dividido 'para todos' já não é mais engolida a seco, sequer à base de genéricos, ou da água já hoje escassa em vários países e 'indevidamente apropriada' pela Nestlé não só no sul de Minas Gerais no Brasil, mas em vários outros países pelo Globo. Padrão de vida confortável, direito à saúde, educação, habitação com saneamento básico, qualidade alimentar e educacional sim, mas quando?

   As camadas populares já encontraram o 'limite da mídia'. De que adianta ser bombardeada vinte e quatro horas por dia por luxuriantes ilusionismos, modelos, filmes, novelas, carros, sorrisos, corpos delineados, se alguma hora esse expectador terá que ganhar seu sustento ao menos para pagar as contas de luz (supondo que a TV esteja quitada) e na rua o quadro visto é completamente diverso do teatro digital, se o teatro do cotidiano cospe a miséria na cara do expectador? A população desconfia do Estado, dos políticos eleitos e a mesma televisão que já se mostra inepta para desviar o cidadão do século XXI da sua diária realidade palpitante, num esforço sobre-humano ainda consegue direcionar esse mesmo cidadão contra os poucos avanços conquistados em áreas mais obscuras, seja em relação ao aviltamento de direitos adquiridos, seja demonizando grandes conquistas populares em outras nações.

   De um modo geral caracteriza-se uma ausência de crédito popular às atuais instituições políticas e sociais, já que estas não têm se mostrado capazes de responder satisfatoriamente sobre suas atribuições. Forma-se uma postura mais crítica não pela via da educação estritamente, já que essa verifica-se aviltada e sucateada na maior parte dos países do globo, mas pela simples verificação, por parte do indivíduo, da situação de precariedade, de carência total à sua volta.

   O Estado nacional de sua parte, quando não raramente a mercê dos enormes organismos financeiros internacionais ou das pressões de grandes potências, procura disseminar o medo e a insegurança como equação complexa, precária e perigosamente inflamável para justificar seu despotismo e sua vitaliciedade bem ao estilo hobessiano. Isso em se tratando de Estados Nacionais. Ao mesmo tempo o Estado periférico influencia a iniciativa privada com fins a tornar inócua sua própria existência, já que imprime ao ideário popular que este deve assumir as atribuições do Estado, por exemplo substituindo os professores mal-pagos por pessoas que se proponham a trabalhar de graça para fornecer uma educação normalmente inadequada e desvinculada à evolução gradual dos alunos.

   Como é impossível que cada indivíduo responsabilize-se ao mesmo tempo por cada setor da economia ou da vida em sociedade, e visto que o Estado torna-se uma mera esponja para a sucção de impostos (revertidos em quê? Financiamentos para seus padrinhos eleitorais multinacionais?), a solução parece encontrar na terceirização 'grupos' teoricamente especializados para exercer determinadas tarefas antes atribuídas ao Estado.

   Há quem defenda que o esfacelamento do sistema-mundo esteja sendo fortemente impelido pelo processo de mecanização da produção, com o avanço da tecnologia eliminando empregos ou mesmo que a informática tornará, com seu avanço, obsoleto o papel dos Estados. De qualquer maneira se pode atribuir novas tarefas ainda pouco exploradas à força de trabalho ou mesmo defender que o Estado tem acompanhado a economia-mundo desde o mercantilismo do século XVI.

   Ainda como questões complexas desse século XXI se avolumam a desruralização do mundo, industrialização exigindo urbanização, e a conseqüente crise ecológica. Não havendo populações de baixa renda que sustentem os salários mais altos do proletariado o custo do trabalho elevará em escala global. A crise ecológica também decorre, em grande parte, das empresas não se comprometerem em ressarcir ao ambiente os danos causados pelos seus 'avanços', por não haverem destinado lugar ao lixo tóxico das usinas nucleares, por não haverem reflorestado as florestas devastadas para fins diversos, por promoverem queimadas para a obtenção de pastagens a bovinos, caprinos e outros fornecedores de lactose e carne. Os movimentos verdes surgem como vozes enérgicas pela manutenção do ecossistema contra os avanços inescrupulosos do capitalista ávido por lucro. Por enquanto o que mais se assemelha a uma solução, a curto prazo, seria obrigar diretamente, ou indiretamente - através de impostos -, o capitalista a pagar pelos danos infligidos à biosfera. Mas obviamente essa espécie de medida vai de encontro aos lucros dos capitalistas e, portanto, encontram barreiras enormes em sua execução.

   Seria bom poder crer na visão liberal de que a queda de várias, assim denominadas pelos liberais, 'ditaduras' no mundo tenha entrado em colapso sendo substituídas por 'democracias' ou mesmo dando mais espaço para que essas se manifestassem. Seria mesmo muito agradável crer que está realmente havendo uma maior participação consciente na política internacional, mas isso levaria as pessoas a alcançar um padrão de vida mais digno, e a observância desse fato em especial coloca toda a romantizada visão liberal em xeque. 'Ao fim e ao cabo', a história continua sendo contata pelos sobreviventes, por nossos 'vencedores'.


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