De mãos dadas: Passos da sociedade organizada para a presidência Lula
Renato Kress

  Segundo Pierre Bourdieu em seu livro Contrafogos 1, o Estado têm duas mãos. A mão esquerda do Estado são os assistentes sociais, educadores, magistrados, docentes e professores primários, constituindo o resultado das reivindicações, das lutas e das vitórias sociais do passado. São considerados pelos ministérios neoliberais como os agentes "gastadores", ao contrário da mão direita do Estado, representada pelos burocratas financistas dos bancos públicos ou privados e dos ministérios que estão sempre em busca de empréstimos, ou seja, teoricamente "gerando" capital. É óbvio que esse "capital" não será empregado na aquisição de mais capital (sem aspas), e sim desviado para os interesses privados dos membros da mão direita do Estado, por isso não se deve considerar empréstimos realizados pelo FMI e outras instituições financeiras internacionais como empréstimos de capital, mas de dinheiro, o que é bem diferente.

  A mão esquerda do Estado brasileiro tem chegado à conclusão de que a mão direita não quer mais saber o que faz a mão esquerda. Seja como for, se importando ou não com o andamento de seu lado canhoto, é claro que a mão direita não tem se mostrado interessada em pagar o preço. De nenhuma forma. O Estado neoliberal está se retirando vagarosa e desastrosamente de vários setores da vida social que são de sua incumbência constitucional. Criminosamente se afastam da habitação pública, do saneamento básico, do sistema educacional, das redes hospitalares públicas, da observância sobre as emissões de rádio e televisão tendenciosas e criminosas.

  Não é de surpreender o atual sucateamento da coisa pública por todo tipo de políticas e medidas visando a liquidação das conquistas dos trabalhadores tanto nos países periféricos, como na liquidação das leis trabalhistas votadas no Brasil, ou mesmo o discurso público de elogio à empresa e à iniciativa privada que vem desmantelando o "Well-fare state" (estado do bem estar social) nos países de primeiro mundo. Os políticos que estão sendo treinados para ocupar os cargos mais importantes dos poderes mundiais saem do FMI, do Banco Mundial, do quadro de assessores do George Soros, do Cato Institute, da Heritage Foundation e cia. Não poderiam dar em coisa diferente.

  Isso leva a crer que a margem de ação dos dirigentes políticos é muito restrita. Sem dúvida essa margem é bastante reduzida, mas não tanto quanto pensam os teóricos da conspiração (galera do PSTU), nem tão ampla como os bon-vivants (galera do PFL, PSDB). Enfim, resta um campo em que os governantes dispõem completamente: o campo do simbólico. Fosse a conduta exemplar o alicerce da ação de ambas as mãos do Estado, por exemplo incentivando a ação do Ministério Público, e talvez não precisássemos duvidar tanto por que não ouviríamos tantos exemplos de corrupção, traição à mão esquerda do Estado ou as mais diversas formas de desvio, para fins privados, de bens, benefícios e serviços públicos. Ou as suas CPI's poderiam chegar até o fim, quem sabe.

  Quanto ao poder da mídia, é claro que a televisão contribuiu para a degradação das virtudes civis, colocando em evidência no cenário político e intelectual indivíduos vaidosos, preocupados em exibir-se e valorizar-se, viajando o mundo para ganharem prêmios de fachada entregues por uma elite academicista vendida e escrava do pensamento único. Espero que a obscuridade dedicada pelas emissoras de televisão aos que se devotaram em prol do interesse coletivo, como o funcionário público e o militante, não tenha envenenado por completo a mente dos brasileiros contra os que lutam pela democracia e pelo restabelecimento da soberania da pátria brasileira.

  Me desculpem se meu texto parece um tanto quanto demodê com esses termos aí em cima, mas me parece que a impressão que a grande mídia tenta nos forçar é essa sensação de estranhamento geral a qualquer demonstração de patriotismo. Hoje o cidadão brasileiro está sendo vítima do Estado que o repele para fora do seu sistema. Sem contar o voto, de dois em dois anos, e os impostos desmedidos só justificados como mais uma forma de pagar a dívida externa com o suor do povo o Estado brasileiro não pede nada a seus cidadãos, nem devotamento, nem entusiasmo. Em troca o povo brasileiro, assim como a mão esquerda do Estado, repele este último, tratando-o como uma potência estrangeira que só deve ser utilizada do melhor modo para se atingir alguns interesses do povo, ou seja, burlar as leis tem sido a forma pela qual o povo brasileiro tem aprendido a lidar com o Estado.

  Não que ele esteja "errado" dentro das parcas perspectivas que lhe são oferecidas diariamente nem muito menos dentro do caos político em que estamos envolvidos, mas lanço aqui um apelo: por favor povo brasileiro, caso o candidato do Partido dos Trabalhadores, Luís Inácio Lula da Silva, seja eleito (o que eu espero e luto para que isso ocorra), tenham a percepção de que devemos unir as mãos do Estado e dar todo o apoio para que possamos sair do fundo do poço sem fundo, que é onde o governo Fernando Henrique Cardoso nos deixou. Afinal, teremos sempre as emissoras de televisão para demonizar qualquer ação política, econômica ou social que o possível presidente Lula possa efetuar em prol do povo brasileiro. Tenham muito cuidado com nossa predisposição em julgar os eventuais portadores da faixa presidencial e mais cuidado ainda quando se tratar de dar qualquer forma de crédito às emissoras de televisão.

  A partir do dia 27 de outubro de 2002, galgados na confiança, na esperança e na nova perspectiva de real mudança do atual estado caótico da política brasileira, compreendendo que todos os processos pelos quais necessitamos passar são lentos e não milagrosos, por isso mesmo estruturados por uma equipe de intelectuais preocupados com o desenvolvimento sustentável do bem-estar do brasileiro, que possamos dar as mãos e lutar para reerguer esse país maravilhoso e estratégico para o futuro da humanidade.


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