Temperamental, com muito gosto, por Carlos Chagas
Da Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - Virou moda, de muito tempo para cá, acusar Itamar Franco de temperamental, ranzinza, dado a chiliques e a bater o pé quando contrariado. Tentam ridicularizá-lo por uma de suas virtudes, que é a de não levar desaforo para casa e defender os interesses do cargo que exerce, mesmo à custa de relacionamentos protocolares.

O mais recente episódio explicita bem essa tendência de certa imprensa, de agradar governos, tanto os que saem quanto os que entram, à custa da personalidade do governador mineiro. Depois de anos de rompimento formal, cujas causas analisaremos abaixo, Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco voltaram às boas, por obra e graça do deputado Aécio Neves. O presidente passou quatro anos sem comparecer ao Palácio da Liberdade e o governador eximiu-se de subir a rampa do Palácio do Planalto, do qual foi inquilino antes de FHC, que, aliás, elegeu.

FHC se comprometeu a ressarcir Minas

O tijolo de sustentação da reaproximação foi o compromisso assumido pelo presidente de ressarcir Minas dos recursos estaduais utilizados na recuperação de obras federais, em especial as rodovias. Era essencial para a economia do País e do Estado que se tapassem os buracos abertos pelo modelo econômico neoliberal do governo que agora finda. Minas investiu e a União prometeu pagar o que devia.

Seguiram-se protelações e promessas entremeadas, até que esta semana Itamar Franco perdeu a paciência. Em notas oficiais e declarações, deixou claro que se não houver uma solução entrará na Justiça, depois de relatar para a imprensa os bastidores das negociações. Afinal, está sem recursos para honrar o 13º salário dos servidores estaduais.

Foi o que bastou para ser apresentado como ciclotímico, temperamental, sem a maturidade necessária ao exercício da vida pública. Ainda mais porque também sobrou para o PT, na explosão do governador. O coordenador da transição, Antônio Palocci, tentou tirar o corpo fora, dizendo que o novo governo nada tem a ver com os entendimentos do atual, e que não pretende devolver a Minas o que é de Minas. Também acabou criticado.

O estranho nessa versão de que Itamar Franco é sempre o culpado das crises tem raízes no sabujismo de certa imprensa, a mesma que não parou de bajulá-lo e de elogiar seus desabafos quando ocupava a Presidência da República. Depois de eleger o sucessor e de ter se afastado da primeira linha dos embates políticos, embaixador em Portugal e na Organização dos Estados Americanos, Itamar teve seu nome apresentado para concorrer à Presidência da República em 1998 contra Fernando Henrique, que tentava a reeleição.

Armaram-se contra ele as maiores tempestades, inclusive com a mobilização das emendas individuais ao orçamento, para cooptar convencionais do PMDB. Chegaram a tirar da jaula gorilas de Goiás e de Brasília, para tumultuar o conclave, onde o ex-presidente entrou desarmado e saiu magoado.

Ainda este ano, quando o partido examinou outra vez a hipótese de apresentar o governador, caiu o céu. A direção nacional do PMDB, ávida de participar dos restos do festim do poder, adotou todo o tipo de iniciativas para afastá-lo.

Até aderir à natimorta candidatura de José Serra, numa campanha que soou como o réquiem do outrora maior partido nacional. Itamar agüentou calado, não se desincompatibilizou e deixou de concorrer à reeleição em Minas. Apesar disso, continua sendo apresentado como causador de crises, emocionalmente instável e eterno criador de casos. Na realidade, vale repetir, tem toda razão de estrilar e cobrar de Fernando Henrique o cumprimento da promessa feita menos de dois meses atrás.

Muitos os chamados, poucos os escolhidos

O dia chegou, afinal. É hoje que o presidente eleito, Luiz Inácio da Silva, anunciará ao menos parte de seu ministério. Isso se não deixar para amanhã, é claro. O que mais interessa, não ao chamado mercado, mas aos 52 milhões de brasileiros que o elegeram, é saber se a equipe de Lula manterá as promessas de campanha, de mudar radicalmente o modelo econômico, ou se terá características amorfas, insossas e inodoras. Se o ministro da Fazenda será Antônio Palocci, sobram dúvidas a respeito de quem presidirá o Banco Central e quem exercerá o Ministério do Planejamento.

Carlos Chagas

Fonte: Tribuna da Imprensa


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