Malan é só felicidade, por Carlos Chagas
BRASÍLIA - Devem cuidar-se Luiz Inácio da Silva e o PT. Pedro Malan, responsável pelo modelo econômico que nos assola há oito anos, acaba de elogiar o novo governo em formação, afirmando estarem sendo dados os sinais corretos a respeito do que fazer depois da posse. Não contente com a afirmação, ousou o ainda ministro da Fazenda avançar conselhos: "Se sinalizações apropriadas forem dadas, agora de maneira consistente e coerente quanto ao curso futuro das políticas na nova administração (...)".

Teve mais. O segundo responsável (o primeiro é o presidente FHC) pela existência de 60 milhões de indigentes, 13 milhões de desempregados e 6 milhões de famintos reconhece um grau de coerência na seqüência de declarações, comentários e entrevistas que indicam claros compromissos do novo governo.

Elogios devem ser vistos com suspeita

Compromissos com quem, cara-pálida? Com o modelo que em seu primeiro pronunciamento como presidente-eleito Lula prometeu mudar por completo? Com a prevalência das atividades especulativas sobre a produção? Com a dependência cada vez maior de capital externo para continuarmos atrás da vaca, indo para o brejo?

É extremamente perigoso assistir a esse festival de elogios, que não poupam sequer Antônio Palocci, chamado de "extremamente habilidoso". No fundo, o que pretendem Malan e companhia? Engessar o novo governo?

Na verdade, parece já estarem conseguindo, na medida em que, à exceção do Plano Contra a Fome, os cardeais do PT nada anunciam em matéria de mudanças profundas. Vamos cumprir os acordos celebrados externamente, é o que prometem, esquecendo-se de acrescentar que cumprir, o que parece óbvio, não significa aceitar, e que não aceitando, o imediato a fazer será renegociar. Disso ninguém fala, parecendo até que ninguém cuida, quando se sabe que continuando como vamos, além do brejo da acima referida vaca, nos arriscamos a ganhar as profundezas.

Foi exatamente como protesto diante dessa aviltante política de Malan que mais de 53 milhões votaram no candidato do PT. É por isso que Lula, tantos dias depois da eleição, não consegue andar na rua, esmagado pelas esperanças populares.

Sustenta o ministro que só se combate a miséria seguindo os ditames de sua política macroeconômica de subordinação aos interesses do capital internacional. Pode ser que tenha razão se o resultado for a eliminação física dos pobres. A receita é a mesma, além do cumprimento dos acordos internacionais: compromisso com a responsabilidade fiscal, geração de superávit primário para o pagamento dos juros das dívidas externa e pública, preservação do regime de metas de combate à inflação.

Dólar dobrou e arruinou o povo

Esses enunciados podem ser aparentemente corretos, mas atrás da teoria de cada um revela-se a prática cruel da nossa transformação em colônia dos países ricos.

Porque compromisso com a responsabilidade fiscal significa, para o atual governo, a paralisação de investimentos e obras públicas, quando apenas eles seriam capazes de criar empregos e retomar o desenvolvimento. Da mesma forma, gerar superávit primário à custa da estagnação econômica equivale a abdicar explicitamente até das esperanças de um dia sairmos do sufoco em que Malan e seus companheiros nos entalaram.

Se um cidadão ganha meio salário mínimo por mês e tenta sobreviver só com isso, a conseqüência será sua morte por inanição, mas se ainda conseguir poupar alguns reais terá, conforme os ditames da equipe econômica, conseguido superávit fiscal. Sobretudo se usou a mísera poupança para pagar dívidas.

Claro que a inflação é um germe capaz de demolir o que resta das estruturas econômicas nacionais, mas se em nome de combatê-la o governo gera recessão, fome e doença, como evitar o argumento do ex-presidente José Sarney, de que no tempo dele havia uma inflação galopante mas o número de miseráveis era muito menor?

Câmbio flutuante é a regra natural, mas quando a flutuação permite que o dólar dobre em poucas semanas, favorecendo especuladores e cortando pela metade o patrimônio e a renda de todos nós, não estaria na hora de um controle cirúrgico, ao menos para evitar o escoamento de bilhões para além de nossas fronteiras? Bilhões que serviriam para cuidar da massa abandonada, em vez de engordarem as burras de predadores que, ao menos os nacionais, deveriam mesmo é estar na cadeia.

A receita de Malan pode estar influenciando a equipe escolhida precisamente para mudá-la. Vamos fazer votos de que tudo não passe de tática emergencial adotada para garantir a mudança de estratégia, depois do 1º de janeiro.

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Fonte: Tribuna da Imprensa


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