A Argentina é o Brasil de amanhã, por Carlos Chagas
    A Argentina ocupou a pole position. Saiu primeiro. Privatizou os seus serviços públicos, inclusive vendendo o seu sistema estatal de telecomunicações para duas empresas estrangeiras, uma espanhola, outra francesa. Com um detalhe: as duas compradoras são estatais...

    Depois foi a abertura ao capital especulativo e predador vindo de fora que ocupou a Bolsa de Valores de Buenos Aires, exigiu e conseguiu benesses e privilégios de toda espécie, até não pagar imposto de renda. A conseqüência que demorou pouco: internacionalizaram-se os bancos nacionais.
    Como se a nova moeda, o astral, tivesse sido acoplada ao dólar, a inflação acabou contida, mas, no reverso da medalha, empresas nacionais foram sendo vendidas ou levadas inexoravelmente à falência.
    A produção, antes orgulho dos argentinos, caiu pela metade, tanto a industrial quanto a agrícola e, em especial, a pecuária. As dívidas externa e pública, que eram para ser abatidas e para diminuir com as privatizações, cresceram mais de cinco vezes.
    O desemprego multiplicou-se e atinge bem mais do que os 20% reconhecidos pela Casa Rosada. A miséria e a exclusão social vieram do interior e atingiram a capital Argentina, hoje um dos mais explosivos barris de pólvora do planeta.
    Já se voltou ao escambo de tempos imemoriais. A população troca mercadorias, desde comida até roupas velhas. De La Rúa continuou a derrocada. Esse quadro deveu-se ao governo de Carlos Menen, oriundo das esquerdas e do peronismo, mas que estranhamente vestiu a fantasia do neoliberalismo e da globalização. E conseguiu ser reeleito através de métodos pouco claros de convencimento do Congresso.
    Quando ficou claro que o homem havia esquecido tudo o que pregara antes, veio a reação democrática: nas últimas eleições presidenciais elegeu-se Fernando de La Rúa, bem mais à esquerda, ou melhor, levantando a bandeira da revisão do modelo que só havia servido para miserabilizar aquele outrora país do primeiro mundo incrustado na América do Sul.
    A emenda saiu pior do que o soneto. Faltou coragem ao novo presidente para aplicar o que havia prometido nos palanques. O resultado encontra-se à vista de todos: optou o dr. De La Rúa por bater às portas da estrebaria globalizante para buscar um cavalo, que ironicamente não monta, mas é montado por ele.
    Encontra-se a Argentina próxima da explosão. Qualquer coincidência será mera semelhança, ainda que nos faltem etapas para chegar onde eles chegaram. Nosso Menen elegeu-se por seu passado, sua luta contra a ditadura e suas promessas de modernizar o estado e melhorar a vida da população. Desafortunadamente, o resultado aqui está sendo o mesmo de lá, a partir do momento em que, instalado no governo, Fernando Henrique fez tudo ao contrário do que prometera. Privatizou o patrimônio estratégico nacional, entregando nossa soberania aos estrangeiros.
    Tanto aqui como lá, sem abater um centavo das dívidas externa e pública, apenas multiplicando-as. Entregou o sistema financeiro aos especuladores-predadores internacionais, gerou o desemprego em massa e ampliou a exclusão social. Abateu a produção nacional como se abatem reses. Está acabando de fazer o que Menen completou. Brasil tem o exemplo vizinho.
    Só que tem pior. Será repudiado nas urnas de 2002, certamente por alguém à esquerda. Por um candidato, entre os três ou quatro que já se colocam, capaz de prometer a mudança do modelo e a rejeição dessa política que nos assola. É aqui, porém, que mora o perigo. Será eleita a nossa versão do Fernando De La Rúa caboclo? Poderão Lula, Itamar, Ciro Gomes e até Garotinho sofrer a mesma metamorfose do indigitado presidente argentino?
    Pelo efeito Orloff, é bem possível. Na bola de cristal que é o passado (nos diz o que evitar, jamais o que fazer) surgem sintomas de o próximo presidente, eleito para mudar, vir a se transformar num mero videoteipe da tragédia portenha.
    Temos, contudo, uma vantagem: a tragédia, a comédia, a pantomima ou o que seja acabam de ser encenadas lá embaixo. Repeti-las, só por burrice, conivência ou má-fé. Seria bom que a nação obtivesse de seu futuro presidente mais do que simples promessas capazes de serem desfeitas ao vento. E, acima de tudo, que o eleitorado soubesse escolher alguém em condições de mudar de verdade. Fora daí, será aguardar para ver o candidato eleito no próximo ano convocando Pedro Malan para continuar a dar coices na dignidade nacional...

Fonte: Tribuna da Imprensa


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