Esquerda: tarefa decisiva e benéfica, por Mino Carta
Há quem diga que é obsoleta. Em países como o Brasil ela é indispensável, certamente

Ser de esquerda significa buscar a igualdade entre os homens. Algo assim o pensador italiano Norberto Bobbio escreveu em um ensaio de alguns anos atrás, e Fernando Henrique Cardoso o conservou sobre a mesa de trabalho por bom tempo antes de se eleger presidente pela primeira vez. Bobbio constatava uma verdade histórica.

Os caminhos da esquerda foram e são diversos, entre a reforma e a revolução, sempre e sempre em luta pela igualdade. Agora não falta quem sustente que, depois do fracasso do chamado socialismo real e da queda do Muro, a ideologia é coisa do passado. Mas a igualdade entre os homens continua sendo quimera em larga parte do mundo, e mesmo nos países ricos e democráticos não atingiu a forma perfeita.

Ainda assim, uma das razões do avanço da direita na Europa é a boa distribuição de renda. Até ex-proletários, alcançado o status burguês, votam do lado oposto àquele freqüentado no passado, em benefício da tranqüilidade, da segurança, do bem-bom ou do quase-bom, que supõem ameaçados pelos retirantes magrebinos, albaneses, curdos, etc., etc.

Às vezes convém apagar da memória o passado árduo. Nem por isso a esquerda perdeu a razão de ser, embora tenha perdido a coesão e os melhores argumentos. Tem ótimas chances de recuperá-los, mais cedo ou mais tarde, por obra e graça das prepotências que a direita já pratica onde tomou o poder, e vai praticar onde o tomará.

O que não se entende é como e por que a esquerda seria obsoleta também em um país como o Brasil, um dos mais desiguais do mundo, ancorado a uma democracia formal. Temos a quarta pior distribuição de renda do planeta, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, divulgado no ano passado. Na América Latina, somos penúltimos. Pior do que nos Suazilândia, Nicarágua e África do Sul (sabem, aquela nação acometida pelo preconceito racial inexistente por aqui).

Segundo o mesmo estudo da ONU, os 10% mais pobres do Brasil detêm 1% da renda e os 10% mais ricos, 46,7%. Outro trabalho, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, intitulado Mapa do Fim da Fome, dá conta que no Brasil há 50 milhões de indigentes, cerca de 30% da população.

Considera-se indigente aquele que tem renda mensal inferior a R$ 80, valor necessário para garantir o consumo mínimo de alimentos recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Para quem procura explicações, vale anotar que a miséria é o caldo de cultura da criminalidade, conquanto inúmeros brasileiros graúdos sejam adeptos das teorias de Cesare Lombroso.

Não é por acaso que, nos últimos três anos, ocorreram em média 40 mil homicídios/ano. E não é por acaso, também, que no final de 2001, em teste promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, com a participação de 4.800 alunos de 15 anos de 32 países, a representação brasileira tirou o último lugar. "Foi até audácia nossa participar", disse na época o ministro da Educação com deliciosa candura, enquanto a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais comentava: "Fomos além da expectativa".

E não é por acaso que temos milhões e milhões de enfermos e epidemias típicas do subdesenvolvimento. Até se registram casos de malária, doença oficialmente erradicada. Anote-se que ao cabo de oito anos de governo FHC, os indicadores sociais pioraram e a nação empobreceu. Um dos mistérios do momento é a força do candidato governista à Presidência da República, declamada quase à unanimidade pela mídia.

Mas o ponto é outro. Trata-se de perceber que a busca da igualdade, neste Brasil distante da contemporaneidade, de alguma forma medieval, é tarefa prioritária. A bem do próprio capitalismo. E não poderá ser realizada sem a contribuição decisiva da esquerda. Uma esquerda consistente representou, e representaria no Brasil, uma pressão benéfica a favor do progresso.

Mino Carta, diretor de redação

Fonte: Carta Capital


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