A Era da Prepotência Escancarada II..., por Mino Carta
Ideal mesmo é a democracia sem povo. Se não for possível, que, ao menos, mandem os mais fortes. A reação da mídia nativa ao golpe fracassado na Venezuela mostra que o pessoal está afinado com os conceitos acima.

Chávez foi definido como falastrão e aprendiz de feiticeiro, foi comparado a Sharon, um editorial bondosamente informou: "...há casos em que a ruptura institucional serve mais à causa da democracia do que a manutenção de uma ordem que se revela ditatorial, ainda que revestida de formalidades democráticas". (Quatro "quês" são demais para texto tão imponente). Haverá quem diga, ou pense: ainda bem que os Estados Unidos de Bush nos protegem. Mas – que pena! – os strategic advisers de Tio Sam, os agentes da CIA, desta feita não funcionaram. Pela primeira vez na história latino-americana dos últimos cinqüenta anos, malogra um golpe desfechado pelos gendarmes da oligarquia com a ajuda de quem marcha com Deus, Família e Liberdade.

De que Deus, Família e Liberdade se trata não está de todo claro. É indiscutível que esse gênero de piedosas marchas deram certo em outros tempos e rincões. Por exemplo, no nosso querido Brasil, em 1964, quando líamos, estampados e declamados pela mídia, editoriais destinados a sustentar que há rupturas institucionais benéficas para a democracia.

No mundo maniqueísta, imposto pelos donos do poder globalizante com a pronta colaboração da mídia (salvo raras exceções), CartaCapital corre o risco de ser considerada chavista, enquanto apenas respeita a verdade factual e exercita o espírito crítico. E preza o princípio, porque não tem dúvidas quanto à essência da democracia.
Na defesa do princípio, poucas vozes se fazem ouvir. É preocupante, mesmo porque cabe a pergunta: se, porventura, um candidato da chamada oposição levar as próximas eleições presidenciais, o nosso querido Brasil estará exposto, mais cedo ou mais tarde, à ameaça de um novo 64?

...MAS, QUEM SABE, TODAVIA...

Há cerca de cinco anos, CartaCapital apresentou aos seus leitores um personagem importante da política italiana, Sergio Cofferati, líder da maior central sindical da Península, a CGIL, e avisava: falaremos ainda deste senhor. Em longa entrevista, Cofferati dizia, por exemplo: "Os valores ideológicos ainda têm sentido, direita e esquerda são diferentes"; "Reformas são necessárias, não se pode entregar ao processo espontâneo das escolhas econômicas a construção da organização social"; "Os imitadores do modelo americano são perigosos onde quer que estejam".

Na terça-feira 16, Cofferati liderou a primeira greve geral da Itália depois de vinte anos, contra a reforma do artigo da lei trabalhista que trata da despedida sem justa causa. Treze milhões de trabalhadores cruzaram os braços, o país parou por oito horas, e a manifestação acabou assumindo o aspecto de repulsa à política do governo de direita encabeçado pelo empresário Silvio Berlusconi.

Na entrevista a CartaCapital, Cofferati admitia a possibilidade de reformas, em campos diversos, "mas com consenso social". Logo depois da greve geral, Berlusconi e alguns dos seus aliados, embora declarando-se dispostos ao diálogo, anunciaram a determinação de fazer reformas mesmo sem consenso social.

Amplia-se um confronto de conseqüências imprevisíveis. Alia aos trabalhadores, na oposição, os melhores espíritos italianos. Para citar dois, o escritor Antonio Tabucchi e o jornalista Enzo Biagi.

Tabucchi acaba de denunciar: "Existem várias formas de ditadura, na Itália estamos vivendo uma Ditadura da Palavra. Porque a palavra é de ouro, e é possuída somente por uma pessoa que é, ao mesmo tempo, chefe do governo e dono de todos os meios de comunicação".

Biagi, na noite de quinta 18, dirigiu-se do vídeo para o público do seu tradicional programa Il Fatto, recorde de audiência da Raiuno, e avisou: quem sabe seja este meu último desempenho na tevê. Responde a Berlusconi, que pouco antes invectivou contra dois profissionais da televisão estatal, o próprio Biagi e Michele Santoro, e contra o cômico Daniele Luttazzi. "Senhor Berlusconi – disse Biagi – determine o meu destino, porque minha idade (81 anos) e senso de respeito que tenho por mim mesmo me impedem de realizar seus desejos”.

O jogo da direita tem sido facilitado pela confusão reinante no centro-esquerda. A esperança ali se chama Cofferati, 54 anos, orador empolgante, negociador sutil, cidadão culto e refinado. Ele deixa dentro de meses o sindicato, com o fim do seu mandato, e, ao que tudo indica, vai para a política parlamentar. Falaremos mais dele.

Fonte: Carta Capital


Consciência.Net