Operário da palavra, a serviço da tradição de Jesus: presença de Frei Carlos Mesters em João Pessoa

Nas pegadas de Jesus, que passava pelas Aldeias da Galileia, a fazer o bem, também Frei Carlos Mesters nos tem dado testemunho de sua discipular fidelidade à causa do Reino de Deus e sua justiça. Nestes últimos dias, diversas comunidades de João Pessoa tiveram a graça de contar com a presença de Frei Carlos Mesters, a brindar-nos com sua operosidade e seu encorajamento jovial. Aos 88 anos, Carlos Mesters segue sendo uma das mais preciosas referências de Missionário, junto a tantas comunidades cristãs de base, no Brasil, e mesmo para além das fronteiras deste país. De tal modo tem sido a contribuição de Frei Carlos mesters, na permanente tarefa evangélica de animação das comunidades cristãs, alimentadas pela palavra de Deus, em especial por meio dos círculos bíblicos, que a mera expressão “círculos bíblicos” nos remete espontaneamente a figura deste missionário itinerante.

A convite de uma comunidade que segue alimentada constantemente pela palavra de Deus, mediante o círculo bíblico, já há mais de 10 anos, com animação das Irmãs Carmelitas (congregação a qual está vinculado Frei Carlos mesters – ), Frei Carlos Mesters nos brindou com sua memorável presença. Contribuição valiosa a partir da iniciativa do Círculo bíblico da Comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, do bairro Altiplano João Pessoa. Eis que por alguns dias, as participantes e os participantes deste círculo bíblico, animado pelas Irmãs Carmelitas, tantas outras comunidades cristãs, vizinhos de outros bairros da capital paraibana, tiveram a graça de também compartilhar a reflexão sempre muito animadora, trazida por Frei Carlos Mesters. O tema central que serviu de mote às reflexões feitas pelo reconhecido biblista prendeu-se ao Evangelho de Mateus

Com uma significativa presença (com várias dezenas de pessoas), a comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, pela iniciativa das Irmãs Carmelitas ali atuantes, várias pessoas participantes do referido Círculo bíblico, Frei Carlos Mesters nos brindou com sua instigante reflexão, sempre de modo denso, claro, objetivo, acessível a todos/a todas que o escutam. Nas linhas que seguem, ousamos destacar pontos fortes de sua reflexão.

Em sua fala inicial, Frei Carlos Mesters cuidou de fornecer preciosos elementos, característicos do seu trabalho como biblista, em meio a tantas comunidades cristãs que anima, no Brasil e na América Latina. Destacou como chave principal de seu trabalho hermenêutico 3 aspectos mutuamente conectados: a realidade, a Bíblia e a comunidade. A realidade aparece, em seus estudos e trabalhos de exegeta, como o ponto de partida, bem a semelhança do método aplicado por Jesus de Nazaré. Não é por acaso a lembrança dos traços fundamentais do trabalho itinerante de Jesus, pelas aldeias da Galileia enquanto caminhava com a gente do Povo, com seus discípulos e discípulas, o próprio lhe servia de inspiração: a estrada, as plantas à beira da estrada, os espinhos, as flores do campo, o trabalho do Agricultor, tudo se transformava em matéria prima de sua evangelização. A exemplo de Jesus, também Frei Carlos Mesters trata de focar continuamente sua atenção sobre as muitas particularidades, relativas à natureza, às pessoas, às relações interpessoais, intergrupais, tudo transformando em ponto de partida para o anúncio da Boa Nova. Não se trata, lembrava Frei Carlos Mesters, de um professor a ministrar aulas aos seus alunos e alunas. Jesus se empenhava em provocar, em despertar nas pessoas que os seguiam um interesse na Palavra de Deus, a quem Jesus tratava, em sua intimidade, como pai (“aba”: papai).

O segundo aspecto em que se apoia o jeito de trabalhar de Frei Carlos Mesters – um dos fundadores do Cebi centro ecomenico de estudos bíblicos – tem a ver com a própria sagrada escritura. partindo dos Desafios da realidade, enfrentados pelos discípulos e discípulas de Jesus (mesters fazia alusão ao discipulado exercitado, não apenas pelos 12 apóstolos e pelas 7 Mulheres que o seguiam, que o serviam, e que com eles subiram até ao Calvário, mas também da multidão que Jesus de Nazaré, profeta itinerante da Judeia da Galileia, acompanhava). A Sagrada Escritura constitui a baliza, a referência principal, a partir da qual a realidade, cercada de todo tipo de desafio, passa a constituir no exame consciencioso entre o que se passa na realidade concreta e o quê o espírito do ressuscitado inspira aos caminhantes, mulheres e homens. Outro aspecto complementar é a comunidade, aquela que é chamada pelo Espírito do ressuscitado a tornar presentes, já agora, os sinais do reino de Deus, no mundo.

Feita esta introdução de caráter metodológico, Frei Carlos Mesters conduz sua reflexão a situar o evangelista Mateus em seu contexto histórico “Quem era Mateus?” A partir daí, ele passa a situar o processo de registro do primeiro Evangelho canônico. Lembra que se trata de uma tarefa, assumida por Mateus (chamado Levi, o animador), registrar aspectos do que ele pôde escolher de outros apóstolos e de várias comunidades, ditos e feitos de Jesus de Nazaré, Quase meio século após a crucifixão do mestre no início da década de 80 do primeiro século, Mateus apresenta o que ele pode escolher e sistematizar, acerca de Jesus, em sua missão itinerante pelas Aldeias de Galileia, tendo como objetivo principal animar os judeus convertidos ao cristianismo, em uma organização fragilizada pela perseguição movida pelos judeus não convertidos ao cristianismo, após sua expulsão das sinagogas. Por que, para Mateus, era importante destacar a narrativa evangélica como uma apresentação de Jesus como o Messias, como aquele que fora predito pelos profetas da antiga aliança? Com efeito, o Evangelho de Mateus, por meio de temas candentes, trata de fortalecer a convicção e a disposição missionária daqueles judeus convertidos ao cristianismo, presentes em Israel e na Síria.

Ainda na parte introdutória de sua frutuosa reflexão sobre o Evangelho de Mateus, e recorrendo também a outros evangelistas, Frei Carlos Mesters, entre tantos outros aspectos, abordou o jeito característico de Jesus Evangelizar, em especial a importância que ele dava ao próprio caminhar. Ao caminho vive a peregrinação de tal modo que o rico episódio acerca dos discípulos de Emaús destaca bem este jeito de Jesus exercitar sua missão. Põe-se a caminho. Observa que discípulos vão à frente, e Jesus apressa o passo até alcançá-los. Não se empenha em falar, antes, em escutar o que diziam aqueles caminhantes, perguntando-lhes sobre o assunto que estavam a destacar, em seu caminho. Respondem ele que estavam a lamentar o quê, havia bem pouco, tinha sucedido em Jerusalém, envolvendo a figura de Jesus de Nazaré, que eles acreditavam ser o Messias poderoso, que enfrentaria e venceria seus adversários. Mas, lamentavam profundamente pelo que sucederá . e estranhavam da parte daquele que os acompanhava sua ignorância em relação àquela ocorrência. Jesus, por sua vez, pretendia mesmo escutar aquele profundo lamento, e pacientemente aguardar o momento oportuno de despertar-lhes a consciência enquanto caminhavam. Jesus também compartilhava elementos fundantes da Sagrada Escritura, de modo a fazer arder o coração dos discípulos de Emaús. Dizia Frei Carlos Mesters: a Palavra de Deus faz arder o coração dos que a escutam, mas o despertar mais forte da consciência e do compromisso se dá mesmo é pela força dos gestos, da prática. Aludia ao jeito de Jesus, quando convidado pelos discípulos de Emaús a pernoitar com eles, e enquanto ceavam, observaram o modo como Jesus partiu o pão, fazendo assim despertar sua consciência da força da Sagrada Escritura e, sobretudo, despertar o seu compromisso com a causa do Evangelho, razão por quê cuidaram de retornar, sem medo, a Jerusalém, a pregar o que é compartilhado, na Companhia de Jesus.

Recorrendo ao Evangelho de Lucas, Frei Carlos Mesters empenhou-se em focar passagens mais fortes da narrativa de Lucas, tais como: a passagem relativa à parábola do samaritano; o modo contundente de Jesus de mostrar as diferenças entre as lições da antiga aliança e as da nova Aliança, para o quê recorreu ao conhecido Sermão da Montanha ( Mt. capítulos 5 a 7), sublinhando certos ditos de Jesus “na antiga aliança se dizia assim: olho por olho e dente por dente, mas eu lhe digo, amem seus inimigos e rezem por eles.” É desconcertante a mensagem revolucionária de Jesus. Ao mesmo tempo, faz menção a passagens em que Jesus faz compor o seu grupo de pessoas com características bastante diversas: de um lado, chama para o seu grupo um cobrador de impostos (caso de Mateus), enquanto de outro chama alguém marcado por uma resistência política mais ativa ao regime de então.

E assim, Frei Carlos Mesters, sempre de forma contundente, acessível jovial, aos seus 88 anos, mostrando-se bastante disposto e com saúde, para compartilhar sua reflexão por cerca de 2 horas, encheu de alegria os corações das pessoas ali presentes.

Eis, em breve um testemunho do que dele ouvimos, observamos e sentimos: um missionário itinerante a serviço da tradição de Jesus, do Reino de Deus e sua justiça.

Acerca da vasta obra da lavra de Frei Carlos Mesters, destacamos e recomendamos, de memória, os seguintes: “Canto na Fogueira (Cartas de Frei Betto, Frei Ivo e Frei Fernando, quando prisioneiros da Ditadura Civil-Militar)”, “Por trás das palavras,” “Seis dias nos Porões da Humanidade”, “Flor sem Defesa, Deus, onde está você?”, “Bíblia livro feito em mutirão”, “Como ler o livro de Rute, Pão Família Terra”, “Apocalipse, Esperança de um povo que luta O Apocalipse de São João: Uma chave de leitura”., “Paulo Apóstolo: um trabalhador que anuncia o Evangelho”.

 

João Pessoa 13 de março de 2020.