O vídeo da reunião ministerial é catastrófico para Bolsonaro, não o contrário

Por Gustavo Conde

Muita gente do campo democrático está dizendo que a divulgação do vídeo da reunião ministerial foi excelente para Bolsonaro, que ele não se comprometeu e que pode, inclusive, crescer em popularidade.

Daqui do ‘chão da fábrica do sentido’ (e não da ‘diretoria acadêmica’ do ‘eu sei’), o que me resta seria tentar explicar por que isso acontece.

Vamos por itens, para ficar mais fácil:

1) Há um tom charmoso de ceticismo nesses enunciados. Quem os ostenta, portanto, promove um efeito de ‘inteligência’ no tom de seu discurso. É uma percepção embolorada de velha, mas o ceticismo ainda causa boa impressão nas rodas intelectuais;

2) Ser contraintuitivo também é bom marketing. Dá a impressão de que ‘você’ rema contra a maré ingênua de seus pares. Os céticos, no entanto, só esqueceram de que eles é que se tornaram hegemônicos ‘nessa’ (portanto, contraituitivos seriam os que realizaram a proeza de se espantarem com o vídeo da reunião e de entenderem que ele poderia ser prejudicial a Bolsonaro);

3) O trauma nos setores democráticos é tão grande que há manifestações cíclicas de carência e negação. É como no amor: eu não posso ‘me apaixonar de novo porque já fui enganado uma vez e sofri muito’. É mais simples se proteger atrás da muralha do derrotismo;

4) Há também razões técnicas para o gesto, por incrível que pareça. A sequência macabra de falas de Bolsonaro que “não dão em nada” levaria a crer que continuarão ‘não dando’. Razões técnicas, no entanto, também podem estar erradas (senão não seriam técnicas mas, sim, dogmáticas). Contra estas, em específico, perguntaria: não estão ‘dando em nada’? E Celso de Mello? E o STF? E as ameaças múltiplas? E as pesquisas acusando queda de popularidade do governo?

5) Claro, o trauma é grande (releia o item 3). Ser obrigado a apostar no STF mais uma vez é quase proibitivo. Mas o que os céticos da esquerda ‘inteligente’ e premonitória não sabem é que não é preciso ‘apostar’: basta ‘interpretar’. Sobre essa ‘amarra’ cognitiva da necessidade da crença ou da aposta, eu aconselharia humildemente: não é preciso idolatrar nada nem ninguém para formular boas hipóteses sobre conjuntura política (não é preciso gostar de Felipe Neto para aproveitar alguns enunciados interessantes que ele venha ter a felicidade e a sorte de produzir);

6) O risco de se propagar aos quatro ventos com indefectível gozo que o vídeo da reunião ministerial vai ajudar Bolsonaro a se fortalecer politicamente é bastante alto (e eticamente, um desastre): a visão cética ‘normaliza’ a estratégia de comunicação do presidente genocida. Uma coisa é entender sua estratégia de comunicação, outra coisa é incorporá-la aos pressupostos técnicos de leitura politica. Em outras palavras: quem acha que Bolsonaro se deu bem com a reunião e ostenta essa percepção em textos autorais como um alerta heroico à sociedade ‘inocente’ e ‘burra’, está cometendo um erro crasso de leitura e um desvio grave de conduta intelectual. Seria preciso ler Hannah Arendt novamente.

O país prossegue confuso em meio ao maior conjunto de catástrofes conjugadas da história. É compreensível que todos estejam ‘perdidos’. O colapso é semântico – e quando o colapso é semântico, não há muito o que fazer, senão esperar a história agir, quem sabe tentando acelerar um pouquinho o fechamento do ciclo de horror.

Mergulhamos nesse ciclo gradativamente. Sairemos dele na mesma proporção tensiva (semiótica e histórica).

Lembrando que: sem líder, fica difícil – e desejar uma liderança não é carência (como a carência de se autoproclamar cético para não amar a democracia de novo): é apenas a constatação de como se dão os deslocamentos políticos ao longo da história.

O líder, obviamente, é Lula. Mas para que ele lidere, é preciso fazer o trabalho braçal de lutar contra o antipetismo endêmico que nos bloqueia a todo o momento – e nos embota o pensamento, mesmo os que dele não participam.

O vídeo da reunião ministerial de Bolsonaro é catastrófico para Bolsonaro. É falso que ele sirva de atiçamento das hostes milicianas. É falso que ele represente a autenticidade ideológica do bolsonarismo.

É falso que ele reverbere fundo no coração do brasileiro comum, tão afeito ao “genocídio estrutural e conceitual que nos caracteriza”.

Dizer isso é de um prepotência sem limites.

Deixo a sugestão para que se leia mais história e menos ‘análises’ geniais de progressistas céticos.

Também deixo a sugestão para se conhecer melhor a semiótica tensiva, essa teoria que contempla as acelerações e desacelerações do sentido criada na França, mas adaptada com imensa felicidade por um linguista brasileiro chamado Luiz Tatit.

Essa dimensão teórica explica o processos de “acúmulos políticos” que estamos experimentando. Ela explicaria bastante bem o fato de Bolsonaro estar afundando de maneira acelerada, em meio ao caos político-sanitário em curso.

Ela explicaria, inclusive, a função estrutural do ceticismo progressista (porque este também tem uma função para o desenlace histórico no horizonte, embora não pareça).

Vamos ler um pouquinho mais.

Faz bem e não engorda.

Fonte: Brasil 247