O sacrifício dos inocentes

Há coisas sobre as quais gostaria de nunca ter escrito nem lido uma linha, nem ter sabido que existiam. Infelizmente, a vida me fez saber que os jovens são mortos pelas forças policiais e militares, pela bandidagem, pelas patotas sindicais, fascistas, neofascistas, nazistas, e ponha istas na lista. Quando jovem, eram os estudantes e os operários assassinados pela repressão na Argentina, as pessoas dos bairros populares que resistiam às forças de ocupação na Argentina ocupada, sim, não sabias, a Argentina foi ocupada pelas forças da repressão, mais de uma vez, anos a fio, e nesta tarefa, os nossos caiam como moscas. Foram Santiago Pampillón, Cabral, Bello, os mortos pela ditadura de Ongania. Depois viriam os outros mortos, os mortos da ditadura devastadora de Videla, o genocídio, que não poupava jovens nem crianças, mulheres nem velhos.

O tempo passou, e a Argentina voltou à democracia, mas os jovens continuaram morrendo, continuam morrendo, sendo assassinados pela polícia de gatilho fácil e por patotas sindicais, por bandos clandestinos, como do lado de cá: no Brasil, na Paraíba, em Pernambuco, a morte continua ceifando vidas jovens, supostamente por acerto de contas entre traficantes; na verdade, há grupos de extermínio, cuja ação tem sido combatida, entre outros, pelo deputado Luiz Couto. No Rio de Janeiro, um jovem baleado numa parada gay. Gay ou o que for, a morte não pode ser permitida como argumento dos que não tem argumento.

Senão, será como naquele escrito de Bertolt Brecht: primeiro, levaram os comunistas e eu não protestei, não sou comunista; depois, vieram pelos judeus e eu não protestei, não sou judeu, e quando vieram por mim, era tarde. É tempo ainda de deter a barbárie, essa indiferença, essa passividade cúmplice que banaliza a morte dos jovens, sob o manto da indiferença: não é comigo, algo terá feito. Isto diziam quando os alvos éramos nós, a massa dos que algo tinham feito para merecer a perseguição da ditadura. Não se pode cair na indiferença sob o argumento indefensável, de que o morto era gay ou era comunista ou era o que era. Era uma pessoa, como você e eu, e tinha o direito de existir, como nós temos. É tempo de evitar o pior. É tempo de parar a morte. É tempo de parar com o sacrifício dos inocentes.