O fio existencial da perseverança no cotidiano do processo de humanização

Breves notas, desde uma experiência de busca

Diante do ascenso e expansão extraordinários de graves ocorrências de barbárie, que nos acometem, sentimo-nos interpelados historicamente a repensar mais detidamente nossas práticas cotidianas, no horizonte do processo de humanização. Um primeiro aspecto que nos ajuda e nos mantém autovigiliantes, quanto a isto, é que devemos ter presente que processo de humanização não constitui uma fatalidade, um determinismo. Apresenta-se, antes, como uma possibilidade que somos impulsionados a ir assegurando, dia após dia, face a outra possibilidade (esta de feição tenebrosa): a possiblidade de desumanização. Sempre que a isto se referem, autores como Paulo Freire, João Francisco de Souza e outros e outras, fazem questão de assinalar este risco. É o que hoje andamos a experimentar, no Brasil e no mundo. Optar pelo processo de humanização requer de nós, dia após dia, que nos ponhamos a assegurar, a partir de nós mesmos, de nós mesmas, as condições adequadas para a sua realização, sem o que seria inútil esperarmos que o processo de humanização aconteça como num passe de mágica. Tudo vai depender de como e do que nos alimentamos, no chão do dia-a-dia: de nutrientes humanizadores ou de substâncias necrófilas, do que dão testemunho nossas práticas diárias. Pensar a prática, portanto, resulta fundamental. Eis o propósito dessas linhas.

Ocorre-nos refletir, (também) hoje! e compartilhar o desafio do processo de humanização – sempre atentos ao seu inverso: os riscos de desumanização -, desde o fio existencial da perseverança. O processo de humanização – que não é um determinismo, pois onde há o livre arbítrio, nossas escolhas acabam tornando-se uma possibilidade, a ser reafirmada ou contrariada, a cada momento – se dá no chão do dia-a-dia, a depender de nossas múltiplas escolhas, ou melhor: dos critérios que adotamos, e da perseverança com que a ele nos consagramos (ou não).

Pela nossa própria biografia, podemos atestar isto. Se não bastasse, tomemos biografias de figuras que consideramos referências paradigmáticas. Sem pensar nossas práticas, a vida se torna uma sucessão de momentos fragmentados e desprovidos de sentido libertário. Pensar a prática resulta, pois, uma escolha de quem aposta na vida, em busca de plenitude.

Podemos fazer este exercício, por vários caminhos, tomando diversos fios existenciais. Aqui escolhemos, hoje, fazê-lo por meio da perseverança, fio existencial que nos permite consolidar nossas boas escolhas, grávidas de vida libertária, enquanto seres biófilos que queremos ser, que queremos ir sendo. E como encarar a perseverança: Vou começar a fazê-lo, em termos de uma tentativa, pelos critérios do Movimento de Jesus que tanto prezamos.

A perseverança exercitada como um dom

Sem desconhecermos a força do protagonismo pessoal e comunitário na produção e cultivo dos fios existenciais, característicos do processo de humanização, para as pessoas e comunidades que se querem seguidoras ou discípulas do Movimento de Jesus, os fios existenciais – todos e cada um-, no horizonte do processo de humanização sem deixarem de ser expressão de busca permanente, graças também ao nosso protagonismo pessoal e comunitário, são tratados, antes de tudo, como dons da Graça divina. Fonte de todo bem e de todo dom. Tal entendimento se acha assentado em diversas passagens evangélicas e no conjunto das Sagradas Escrituras. Atenhamo-nos aqui, de passagem, apenas a algumas situações, episódios e indicações extraídos dos Evangelhos.

Um dos episódios emblemáticos atinente ao dom da perseverança, se acha na parábola do semeador. Suas primeiras tentativas resultaram frustradas, mas sua persistência em continuar buscando a boa terra, ao final lhe sorri, assim também, na vida, os discípulos e discípulas do movimento de Jesus, não devem desistir de semear o bem, a justiça, a paz, a solidariedade, ainda quando as situações se achem as mais improváveis: há de se seguir lutando, semeando, “pois quem procura, encontra. ”.

Importa atentar para o sentido da parábola do semeador, tal como o próprio Jesus a explica aos Seus discípulos e discípulas, em especial ao sentido da qualidade do terreno, ou seja, da preparação ou não preparação de quem houve essa Palavra. Ao nos colocarmos também, enquanto protagonistas de relações sociais alternativas à barbárie que nos circunda, também nos sentimos implicados, nesse episódio, à medida que descuidando-nos de nosso processo formativo contínuo, por vezes, sucumbimos à superficialidade de nossa compreensão e de nossa ação de agentes transformadores; outras vezes, por descumprirmos condições mínimas de práticas organizativas fundamentais, deixamo-nos seduzir por atalhos…

Outro episódio ilustrativo do dom da perseverança se acha na figura do pai, a esperar, contra toda esperança, o retorno do filho mais jovem, de seus caminhos de aventuras fracassadas. Mais do que esperou, “esperançou”, e, portanto, não foi decepcionado. Neste episódio, também podemos sentir-nos implicados, à medida que examinamos nossa “paciência histórica”, isto é, buscando vencer nossa avidez de realizações imediatistas, de tal modo que, quando as coisas não se dão no ritmo acelerado de nossa avidez, sedemos ao desanimo, sucumbindo ao sentimento de impotência, ou seja, desistindo da luta…

Associado à oração vem também aconselhada a necessidade de vigilância que não deixa de ser também uma forma de perseverança. Aqui, sentimo-nos remetidos a permanente necessidade de autovigilância ou, de modo mais expressivo, do contínuo exercício da mística revolucionária, que nos permite uma constante auto avaliação e a renovação contínua de nossos compromissos com o processo de libertação dos condenados da “terra”.

Seja no âmbito pessoal, seja no âmbito comunitário, o exercício da perseverança se apresenta como condição indispensável ao sucesso de nossas iniciativas. Não basta apenas semear, importa também cultivar a terra que abriga a semente, para que esta germine, floresça e frutifique.

No tenebroso período da Ditadura Civil-Militar, no Brasil, a resistência foi protagonizada por diversos segmentos de nossa sociedade, entre os quais os artistas. Lembremo-nos, a este respeito o exemplo das composições de autores como Chico Buarque. Em uma de suas músicas – “Roda Viva” – ele nos alerta: “A gente vai contra a corrente _ até não poder resistir _ na volta do barco é que sente _ o quanto deixou de cumprir”. Nestes versos, também se faz presente a consciência sobre a importância da perseverança. Nos desatinos e nos reverses históricos, dificilmente a gente escapa de uma parcela de responsabilidade social. Mas, não se trata de um convite à autoflagelação, inútil e estéreo, mas de renovarmos, em novo estilo, nossos compromissos de coerência com o horizonte, os caminhos e a postura com que nos entregamos a esta causa.

João Pessoa, 16 de Outubro de 2018.