O confronto na visão de um estudante palestino

Durante o horror que nos espreita diariamente na Faixa de Gaza, o que vem a seguir são trechos de algumas entrevistas transmitidas pela televisão. Um colono israelense respondeu o seguinte ao ser perguntado sobre a morte de um garoto palestino de 12 anos em Gaza: “Nossos filhos são filhos de Deus, os deles são os filhos de Satã”. Outra colona judia disse, pensando sobre a morte do garoto: “Eles (os palestinos) não são humanos. Eles são animais. De certa forma, não são nem mesmo animais. Animais cuidam de sua prole, palestinos mandam seus filhos para matar ou serem mortos”.
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Evidentemente, ela não sabe que o pai do garoto tentou afastá-lo o mais longe possível da violência e da guerra. E foram os israelenses que apontavam suas armas para pai e filho, nenhum dos dois carregava pedras ou armas. Talvez essa colona não tenha ouvido que o motorista da ambulância, que foi socorrer o ferido, também foi morto. Esses médicos não tinham pedras para jogar, mas todos tinham mães, como os soldados de Israel e cada homem, mulher ou criança morta nesta catástrofe sem fim.
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“Palestinos são fatalistas. Eles são pobres e têm muitos filhos. Eles não têm uma democracia ou educação sobre paz. Eles desejam enviar seus filhos para a guerra apenas para conseguir a atenção internacional e pressionar o governo de Israel. É triste o fato deles serem mortos, mas isso é o que acontece quando se tenta parar a violência contra israelenses”, disse um judeu moderado na televisão.
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Você pode imaginar como o povo judeu em Nova York reagiria se alguém dissesse tais coisas em público ou até mesmo particularmente? Até mesmo os não-judeus nos EUA, que simpatizam com a fé judia, mas não concordam com os princípios do Sionismo, são taxados como anti-semitas. Um americano não-judeu deveria falar abertamente contra o comportamento dos judeus de Israel, a contradição do Judaísmo é rápida e áspera. Empregos podem ser perdidos, posições em uma comunidade podem ser degradadas, carreiras políticas demolidas, tudo isso por uma palavra, ou uma história que implique algo negativo sobre um israelense ou sobre o Estado de Israel. Então, a maioria dos americanos escolhe não ver como Israel trata os palestinos.
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A maioria dos americanos sabe pouco sobre a fé muçulmana. É mais fácil rejeitar os árabes do que procurar pela verdade e enfrentar a reação judaica. Muitos americanos nem mesmo sabem que existem árabes cristãos ou que o Jihad significa o esforço entre si mesmos e que ambos judeus e árabes são pessoas semitas. Deveria ser deixado claro que como palestinos, nós não enviamos nossos filhos para a morte. Como cada pai em todo o mundo, palestinos querem o melhor para suas crianças.
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Eu fui uma criança durante a Intifada (1987-1994). Me lembro o quão romântico era pra mim, a idéia de sair correndo e atirando pedras. Quando eu via meus amigos juntos, tinha vontade de me unir à eles. Crianças em todo lugar pensam que são imortais. As crianças palestinas pensavam assim também naquele tempo. Ninguém acreditava que alguma coisa pudesse acontecer conosco. Mas nossos pais sabem. Meus pais fizeram de tudo para me manter dentro de casa. Eles me mantinham ocupado com estudos, então não podia ir lá fora e jogar pedras.
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Às vezes a situação escapa do controle dos pais. Os israelenses proibiam uma vida decente para a maioria das crianças assentadas em Gaza após 1978. Várias cresceram na pobreza sem esperança de uma vida melhor. A maioria dos pais de crianças “acampadas” engolia o orgulho e ia trabalhar por um salário de fome, pago por israelenses. As pessoas precisam saber agora que o povo mais perigoso que existe neste mundo é aquele que não tem motivo para viver. Muitos jovens palestinos se adequam a esta categoria.
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Para este jovens, enfrentar soldados israelenses garante um sentimento de liberdade e poder. Se não podemos ser iguais na vida, alguém me disse, seremos na morte. “Seja nós ou eles, a morte deixa para trás uma concha e então nossa fé nos traz uma nova vida”. Pessoas da região mediterrânea, particularmente árabes, são famosas pelo seu senso de paixão e emoção. Nós somos românticos com muito sentimentalismo poético para provar. Nós preferimos agir ao ter que esperar, mas não somos idiotas ou violentos. Temos uma forte apreciação pela democracia e paz.
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Maturidade traz consigo hesitação e sentimentos estranhos. Esperamos desde 1948 pelos israelenses e para que o mundo veja o que eles têm de bom a oferecer. Infelizmente, nações parecem cegas para o que aconteceu e facilmente fogem da realidade de nossa situação. Nossos filhos estão com raiva. Intelectualmente e emocionalmente eles sabem muito do que é a opressão. Eles cresceram em campos de refugiados, suas casas foram destruídas e eles assistem seus pais e irmãos mais velhos serem presos e voltando da cadeia espancados, sem poder falar e andar.
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Recentemente, me aproximei de pessoas feridas no hospital e tentei ouvir suas histórias. Eu perguntei uma mulher de meia idade que levou um tiro no estômago:
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“Como aconteceu? Você estava na rua?”
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“Eu estava protegendo meu filho”, ela respondeu
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“Então você deu a luz ao seu filho duas vezes”, eu disse, “porque ele vai viver”
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Eu sou palestino e acreditamos em tudo. Acreditamos em nosso direito de viver em nossa terra. Queremos viver e deixar viver, mas não ficaremos de braços cruzados e nem na linha de fogo para sermos mortos. Já esperamos muito. E agora, eu sei que israelenses matam nossas crianças deliberadamente apenas para nos ferir e trazer nossa nação aos seus pés.
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Eu não quero chorar sobre o corpo de mais um jovem palestino. Mas, se eu tiver que fazer isso, farei. Sei que estas crianças se unirão ao solo da Palestina, produzindo hidrocarbonos e nutrindo nosso solo vermelho. Nossos limoeiros crescerão, nossas oliveiras se curvarão como as mães sobre a nossa morte e o nosso vinculo com a nossa terra natal viverá para sempre.
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(Samah Jaber é um escritor freelancer e estudante de medicina em Jerusalém. Texto extraído do Palestine Times. Tradução de Eduardo Gregori, do Cosmo On Line)

Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

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