O amor segundo Pedro Bial

De olho no BBB

O caso de estupro mais famoso do Brasil já começa a dar sinais de cansaço na média mídia e, de pouco a pouco, a sociedade vai esquecendo que durante certa noite, nas dependências de uma das maiores empresas de mídia do mundo, ocorreu um dos crimes mais bárbaros que um homem pode cometer contra uma mulher. O violentador foi acobertado pela organização a que por ora pertence e os jornalistas de dita organização, liderados pelo apresentador Pedro Bial, se reuniram para mijar sobre o juramento que fizeram quando assumiram tal profissão. Diz esse:

“[…] Buscarei o aprimoramento das relações humanas e sociais, através da crítica e análise da sociedade, visando um futuro mais digno e mais justo para todos os cidadãos brasileiros. […] Assim eu juro.”

Ante um flagrante caso de estupro, analisaram minuciosa e criticamente as imagens transmitidas (e, claro, as não transmitidas) e decidiram que, no sentido de aprimorar as relações humanas e sociais, de garantir aos cidadãos brasileiros – e, em especial às cidadãs – um futuro mais digno e justo, o correto a fazer seria ignorar o que ocorreu, manipular as imagens para amenizar o caso, imputar a auto-censura à sua própria imprensa e no final, com um sorriso lindo no rosto, ratificar: o amor é lindo!

Não deveria nos espantar esta predileção do apresentador e seus empregados. A organização para que trabalham é, em si, a encarnação do amor ao adverso, ao corrupto, ao opressor. O próprio indivíduo afirmou, dias antes, sua predileção pelo que há de pior na televisão brasileira, onde supostamente pode aprender mais. Mas a lição desta vez não veio do lixo emitido por sua própria casa, mas sim da enfurecida população que obrigou, com o auxílio das redes sociais, a emissora a rever seus conceitos sobre amor, relações humanas e dignidade. Não que seus pressupostos tenham se modificado, mas diante da opinião pública e da justiça, instituições que muito raramente fogem ao seu controle, a Rede Globo precisou dar o braço a torcer.

O estuprador esteve preso em um hotel, e não em um cárcere, onde, segundo a lei, deveria estar. Diz o artigo 217 do código penal, que versa sobre o crime de estupro, que é crime ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém que, por qualquer motivo, não possa oferecer resistência. Isso lança por terra as desesperadas tentativas dos produtores, diretores e apreciadores do programa de tentarem desqualificar o estupro com a justificativa de que não houve penetração. Tal argumentação, aliás, só demonstra o atraso medieval de nossa sociedade no entendimento da questão de gêneros. Outros, mais senis e menos despudorados, dizem que a mulher havia ingerido uma quantidade cavalar de álcool, e portanto, não poderia reclamar. São, em geral, os mesmos inquisidores que culpam as mini-saias, os decotes e a sensualidade feminina pelos crimes dos injustiçados santos tentados pela maçã do pecado.

A justificativa dos produtores, proferida por Pedro Bial, para a retirada do participante do programa também é digna de nota. Segundo estes, o rapaz teria infringido o regulamento do programa e portanto foi eliminado da competição. Ainda que seja costume da Rede Globo de Televisão se postar acima da lei e manejá-la como lhe convém, é preciso dizer que o tal Daniel, antes de ferir o contrato que fez com os Marinho, cometeu um crime, aliás um crime muito grave. Bialzinho “esqueceu” de comentar.

Mas o que significa tudo isso? Na prática, os produtores do programa BBB 12 não fizeram nada mais nada menos que acobertar um crime, praticado sob sua responsablidade, com sua permanente vigilância e seu total conhecimento. E isto também não é crime? Se a internet já estivesse, como querem alguns desesperados, censurada e limitada, teria a Rede Globo agido da mesma forma? Se não existisse o tal pay-per-view, teria colocado ao conhecimento da sociedade o que acabava de ocorrer? A se julgar pela sua tradição, certamente que não. Pois se ela cotidianamente esconde crimes bárbaros praticados por “terceiros” – sustentam, por exemplo, que a operação militar na ocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, foi pacífica – o que seria esconder mais um estuprozinho de que a vítima, muito alcoolizada, nem lembraria? É a rotina…

Bialzinho e seu comparsa Boninho são, na prática, criminosos. São co-responsáveis pela ocultação de um crime bárbaro e deveriam, assim como o estuprador, estar presos. Mas isso, amigo, já é de uma inocência canino-pueril, pois o dia em que jornalista-estrela da Globo for preso, vai chover tanta coisa estranha que é melhor não pagar pra ver. Ao Pedro Bial, que o julgue e puna sua própria consciência, se é que restou alguma.