Notinha de jornal

Celso Lungaretti

Quando eu era criança brincava sempre na rua Curupace, onde meu avô morava e trabalhava (tinha uma fabriqueta de móveis no fundo da casa).

Hoje um bairro residencial para pessoas com médio ou alto poder aquisitivo, a Mooca da década de 1950 era fabril, com muitas indústrias, um enorme cotonifício (o Crespi) e residências para famílias de trabalhadores, incluindo muitas vilas.

Jogávamos bola em plena rua. Os raros carros passavam lentamente, respeitando nosso direito de ser crianças ( ahora, no más! ).

Logo no quarteirão seguinte havia uma enorme favela, ocupando o terreno baldio estreito e alongado existente entre a rua Padre Raposo e a rua Oratório. Dependendo de aonde fôssemos, era um ótimo atalho.

Não hesitávamos em cortar caminho por dentro da favela, sem sermos hostilizados, mas chocando-nos com a miséria escancarada, o esgoto a céu aberto, as criancinhas peladas brincando na lama.

Também disputávamos empolgantes desafios futebolísticos, nós da rua contra os da favela. As forças eram parelhas.

Nunca esqueci o dia em que um casal de favelados, ambos embriagados, trocou tapas na esquina da Curupace com a Padre Raposo. O homem era baixinho, fraco. A mulher, robusta, o encarava de igual para igual.

Estavam ensanguentados, mas não paravam de intercalar agressões físicas e verbais. Uma cena grotesca, terrível.

O pior de tudo era a multidão assistindo, uns cem desocupados que nada faziam para apaziguá-los, antes os açulando.

O contato precoce com a degradação causada pela miséria me marcou. Aprendi a olhar esses coitadezas da vida não como bestas-feras a serem temidas, mas como seres humanos a serem lamentados, por terem sucumbido a circunstâncias adversas (e, compreenderia mais tarde, terrivelmente injustas, pois consequência de uma forma de organização econômica que estimula a ganância exacerbada e a competição obsessiva pelo privilégio, em detrimento da solidariedade e da felicidade humanas).

Na década seguinte, fiquei conhecendo também a enorme favela da Vila Prudente, talvez a maior de São Paulo na época. Os tempos eram outros e nada me levava a atravessá-la, apenas a via de longe. Mesmo assim era uma imagem chocante, felliniana.

Hoje, uma notinha na Folha de S. Paulo, informa que “um incêndio de grandes proporções destruiu pelo menos 50 barracos da favela da Vila Prudente”. Inexistindo vítimas fatais, o assunto foi relegado a meia-dúzia de linhas.

Questão de sensibilidade. A perda da paupérrima morada por parte de um favelado despertou interesse bem maior em Sérgio Ricardo, inspirando um dos seus principais sucessos: “Zelão”.

Vale a pena fechar esta divagação com a belíssima letra de “Zelão”, clássico de uma MPB compassiva e solidária que não existe mais:

“Todo morro entendeu quando o Zelão chorou
Ninguém riu, ninguém brincou, e era Carnaval

“No fogo de um barracão
Só se cozinha ilusão
Restos que a feira deixou
E ainda é pouco só

“Mas assim mesmo o Zelão
Dizia sempre a sorrir
Que um pobre ajuda outro pobre
até melhorar

“Choveu, choveu
A chuva jogou seu barraco no chão
Nem foi possível salvar violão
Que acompanhou morro abaixo a canção
Das coisas todas que a chuva levou
Pedaços tristes do seu coração”