No país da servidão

Fernando Henrique era presidente, José Serra ministro. No dia 21 de abril, quando Minas realiza uma das mais bonitas e comoventes festas cívicas deste enorme país com uma memória tão pequena, Ouro Preto, a capital do ideal libertário, recebia as autoridades nacionais para a festa de Tiradentes. Um grupo de intelectuais mineiros, nacionalistas e herdeiros dos sonhos de Tiradentes, diante do deplorável governo entreguista de FHC, resolveu homenagear Fernando Henrique entregando-lhe a medalha Joaquim Silvério dos Reis, com toda certeza, um dos ídolos de FHC. Por Petrônio Souza Gonçalves.

O escolhido para receber a medalha foi José Serra, o mais destacado ministro naqueles anos de submissão e entreguismo. Ao ser comunicado que receberia a medalha em nome do governo, José Serra agradeceu aos novos inconfidentes mineiros dizendo que receberia a medalha Joaquim Silvério dos Reis com muita honra e orgulho. Minutos depois, sua assessoria matou a charada e acabou com a festa dos mineiros, que sentiram o vento inconfidente soprar-lhes o rosto nas ladeiras históricas de Ouro Preto.

Anos depois, José Serra, governador de São Paulo, a primeira cidade do Brasil, foi entregar o troféu ao segundo colocado no Prêmio Brasileiro de Fórmula I, que foi o piloto brasileiro Felipe Massa. Serra, não acreditando na capacidade do brasileiro, desconhecendo totalmente o nosso representante na Fórmula I, caminhou em direção de Fernando Alonso, piloto espanhol, que havia chegado em terceiro lugar. Ao ver a patética cena, o piloto espanhol apontou para o piloto brasileiro dizendo ao governador Serra: – Ele é que ganhou o segundo lugar, eu cheguei em terceiro, o troféu pertence a ele!

Não é exagero, mas assim tem sido a nossa cultura e mentalidade brasileiras desde muito. Sempre entregando o ouro para o bandido, sempre desacreditando que somos merecedores desta terra de milhões de km/2 e bilhões de riquezas por m/2.

No Brasil colônia, sempre fomos vencidos e traídos pelos apátridas. No Brasil império, idem. No Brasil República, os Joaquins Silvérios se multiplicaram, sempre entregando o nosso patrimônio aos desconhecidos. Construímos nossas estradas financiadas pelos nossos impostos e depois as doamos para as multinacionais nos cobrar os pedágios, nos roubando duas vezes, em nome do mesmo fim.

Tudo tem sido assim, desde os bandeirantes. Abrimos estradas, pavimentamos caminhos e depois vem outro para nos levar a paisagem e a riqueza das conquistas. Assim foi com a Vale do Rio Doce assim será com a Petrobras.

A grande verdade é que padecemos de um colonialismo ideológico, de imperialismo retrogrado, de uma imbecilidade servil e covarde. Não formamos uma nação, somos apenas recortes de um povo. Um povo que planta para outros comerem, infelizmente!

Escritor e jornalista, Petrônio Souza Gonçalves mantém uma coluna semanal sobre política e cultura em mais de 40 jornais Brasil afora. Têm dois livros publicados e prepara o lançamento do terceiro: “Adormecendo os girassóis”, de poemas. Em 2005 ganhou o Prêmio Nacional de Literatura “Vivaldi Moreira”, da Academia Mineira de Letras, como segundo colocado. Visite o blog http://petroniosouzagoncalves.blogspot.com