Não há vencedores na luta do Bem contra o Mal

Tendo nascido e/ou vivendo no Rio de Janeiro, eu e outras milhões de pessoas somos os maiores interessados no tema da violência urbana. E me assusta a lógica simplista com que se trata as possibilidades de solução.

Quando um jovem é morto, há uma comoção.

Se o(a) jovem é negro, pobre e da periferia/favela, um tipo de comoção. Branco, rico de bairro nobre, outra.

Parece uma premissa óbvia, evidente, mesmo para o mais desavisado dos desavisados brasileiros (ou cariocas, nesse caso).

Mesmo assim, quando morre um(a) jovem, vitimado pela violência urbana, o fenômeno totalizante do Bem contra o Mal toma o lugar, sem pena. E o Mal tem rosto (negro, pobre, da periferia, que matou e deve morrer), assim como o Bem (branco, rico de bairro nobre, que é a vítima).

A turma do mata-esfola entra em cena, mas com um amplo e massivo apoio popular. Um apoio de assustar.

Por que matou-se? Qual foi o caminho até aí? Porque jovens, negros e da periferia morrem e matam mais? Por que a diferenciação no tratamento? Qual é a lógica que faz com que esse jovem, negro e da periferia considere que a vida de outro jovem não vale a pena, a partir de seu desejo por bens de consumo que possivelmente nunca alcançaria por meios pacíficos?

As respostas, que não são facilmente dadas, não possuem um rosto pra mostrar no jornal. Não cabem no “post” da rede social (e se cabem parcialmente, estão sufocadas pela velocidade da rede). A violência que o Estado ou as milícias praticam possui tantas particularidades, tantos aspectos multifacetados, que mal conseguem ser percebidos, até que ela chegue a você.

Mas, no fim das contas, a ideologia totalitária das grandes narrativas (Estado, Poder, Povo, Dinheiro) apresentam, à direita e à esquerda, uma solução única: a fatal batalha do Bem contra o Mal, formulada pela mídia dominante (em sua época) ou pela direção política dos distintos grupos sociais.

No fim das contas, portanto, pouco sobra para se discutir. Sobra o olho por olho, a vontade de eliminação do Mal pelas forças vingadoras do Bem (definido a esmo pelos embates ideológicos de cima pra baixo).

Poucos (e existem, claro) querem contar, pra valer, onde foi que nos perdemos. Onde teve início, por exemplo, a desintegração de uma família, de uma comunidade, de uma cidade. A vingança não planta sementes, apenas rancor e destruição.

PS. Importante ressaltar que considero essencial a responsabilização judicial de criminosos, uma das medidas imediatas sem a qual as vítimas não terão acesso à Justiça e tampouco à reparação.

“Onde foi que nos perdemos.” Lembro de um outro escrito seu, em que li esta pergunta. Esta pergunta tem a virtude de voltar o olhar sobre nós mesmos. “Onde teve início, por exemplo, a desintegração de uma família, de uma comunidade, de uma cidade.” A Terapia Comunitária Integartiva age sobre a fragilizacáo dos vínculos, típica da sociedade atual. Vários sociólogos tem apontado esta fragilizacao dos vínculos como uma aracterística da sociedade atual. Quando digo “sociedade atual”, estou me referindo á sociedade estruturada com base na producao de mercadorias, a sociedade capitalista. Vocë coloca interrogacoes fundamentais sobre a porblemática social atual, sem a pretensao de estar dando respostas, mas, sim, suscitando a interrogacao dos seus leitores, como acontece comigo.

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