Montagem

cortázarSão tantas as coisas que acontecem e que a gente gostaria de registrar para que não se percam! Necessariamente, temos que escolher algumas, uma vez que não se pode escrever sobre todas as coisas. Como que não se pode escrever sobre todas as coisas? Pode-se escrever sobre todas as coisas, sim.

O que queria registrar agora, afora este fato fundamental da escolha, das escolhas, das decisões, é que quando quero relatar o que ocorreu ontem, tenho que fazer uma seleção. Se quiser relatar a reunião em família num barzinho no Bessa, por exemplo, vou ter que dizer algumas coisas e calar outras.

Toda escolha faz parte de um processo de decisão, não é verdade? Bom, até aqui, nada de novo. Todos estes arrodeios, como se diz aqui na Paraíba, para dizer que no meio a uma conversa na ponta da mesa, com um dos meus concunhados e um outro parente um pouco distante, reparei de repente, em uma bela jovem sentada na mesa ao lado, também na ponta da mesa.

Pernas cruzadas, ar displicente, envolvida também em alguma conversa. A atração que esta contemplação despertou em mim, ativou as minhas energias. Não pude deixar de reparar como o belo é sempre o que me conecta. Passei a olhar para a jovem mulher várias vezes, sem deixar de prestar atenção também às outras conversas na minha mesa, ao ambiente ao redor, à noite enluarada, aos pensamentos que inevitavelmente ocorrem o tempo todo.

Ri muito com as palhaçadas deste meu concunhado que estava bem na minha frente, a conversar com o outro parente à minha direita. Lembrava (ou lembro agora, não sei) das coincidências de ter lido um livro ate há pouco desconhecido para mim, de Julio Cortázar: Diario de Andrés Fava, publicado em 1986, após a morte do escritor argentino, e as ocorrências do dia a dia.

Lia no livro de Cortázar, sobre as lembranças dele quando menino, de se esconder embaixo dos lençóis. E sobre o que nos ocorre quando viajamos, que mergulhamos em ambientes e espaços desconhecidos ou pouco ou nada familiares. As coincidências iam criando para mim um espaço de acolhimento. O livro de Cortázar e a minha vida, entrelaçados.

Esse livro está me mostrando um Cortázar ainda mais próximo, ainda mais íntimo, se se pode dizer assim. O livro está aqui do meu lado, bem pertinho. Não deixo de me admirar profundamente como alguém que não conheci, me seja tão idêntico.

Temos que libertar a linguagem, chegar até ela, diz Cortázar neste livro que trouxe de uma viagem recente a Brasília, a visitar a minha família de lá. E neste domingo chuvoso em que tudo parece estar te trazendo mais para dentro, parece ser uma boa opção, a de retomar essa viagem.