Mensagem do Papa Francisco

“Ângelus” – dia 22.03.2020

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

No centro da liturgia deste quarto domingo da Quaresma, está o tema da luz. O Evangelho narra o episódio do cego de nascença, a quem Jesus faz enxergar. Este sinal milagroso é a confirmação da afirmação de Jesus, que diz: “Eu sou a luz do mundo”, a luz que dissipa nossas trevas. Assim é Jesus. Ele opera a iluminação em dois níveis: um físico e um espiritual: o cego, primeiro, recebe a luz dos olhos; em seguida, é levado à fé no “Filho do homem”, isto é, em Jesus. Trata-se de todo um percurso. Hoje, seria bom que vocês todos tomassem o Evangelho de João, no capítulo nono, e lessem esta passagem: é muito bonita e nos faria bem ler outra vez ou outras vezes. Os milagres que Jesus opera não são de tipo espetaculoso, mas têm o objetivo de levar à fé por meio de um caminho de transformação interior.

Os doutores da lei, que ali se encontravam, um grupo, teimam em não aceitar o milagre, e dirigem ao homem curado perguntas insidiosas. Mas ele então lhes responde com a força da realidade: “Eu só sei de uma coisa: eu era cego e agora vejo”. Entre a desconfiança e hostilidade daqueles que o cercam e o questionam com incredulidade, ele percorre um itinerário que o leva gradualmente a descobrir a identidade dAquele que lhe abriu os olhos e em Quem confessou sua fé. Primeiro ele o tem como profeta; depois O reconhece como alguém vindo de Deus; finalmente, ele O acolhe como o Messias, prostrando-se diante dEle. Compreendeu que Jesus, ao dar-lhe a visão, manifestou as obras de Deus.

Que também nós possamos fazer tal experiência! Com a luz da fé, aquele que era cego realiza sua nova identidade., passando a ser, desde então, uma nova criatura, a ponto de ver em uma nova luz a sua vida e o mundo que o rodeia, porque entrou em comunhão com Cristo, entrou noutra dimensão. Não é mais um mendigo marginalizado pela comunidade; não é mais escavo da cegueira ou do preconceito. Seu caminho de iluminação é uma metáfora do caminho de libertação do pecado, ao qual somos chamados. O pecado é como um véu escuro que cobre o nosso rosto, impedindo-nos de ver claramente a nós mesmos e o mundo. O perdão do Senhor retira esta coberta de sombra e de trevas e nos dá nova luz. Que a Quaresma que estamos a vivenciar, seja tempo oportuno e precioso para nos aproximarmos do Senhor, pedindo Sua misericórdia, mediante as várias formas que a Mãe Igreja nos propõe.

O cego curado, que vê desde então seja com os olhos do corpo, seja com os da alma, é a imagem de todo batizado, que, uma vez imerso na Graça foi arrancado das trevas e posto na luz da fé. Mas não basta recebermos a luz divina. É preciso que nos tornemos luz. Cada um de nós é chamado a acolher a luz divina para manifestá-la por meio de toda a sua vida. Os primeiros cristãos, os teólogos dos primeiros séculos, diziam que a comunidade dos cristãos, isto é, a Igreja, é o “mistério da lua”, porque dava a luz, mas não tinha luz própria, era a luz que recebia de Cristo. Nós também devemos ser mistério da lua: dar a luz recebida do Sol, que é Cristo, o Senhor. Hoje, São Paulo nos lembra: “Comportem-se, por isto, como filhos da luz, Ora, o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade”. A semente de vida nova posta em nós no Batismo é como centelha de um fogo, que nos purifica, antes de tudo, queimando o mal que temos no coração, e que nos permite brilhar e iluminar, com a luz de Jesus.

Que Maria Santíssima nos ajude a imitar o cego do Evangelho, de modo que possamos ser inundados pela luz de Cristo e caminhar com Ele no caminho da salvação.

Trad: AJFC

Digitação: EAFC