Mensagem do Papa Francisco

Missa celebrada em 15-10-2017

A parábola que escutamos fala-nos do Reino de Deus como uma festa de casamento. O protagonista é o filho do rei, o esposo, no qual é fácil perceber Jesus.

Porém, na parábola nunca se fala na esposa, mas nos muitos convidados, desejados, esperados: são os que vestem a roupa nupcial.

Os convidados somos nós, todos nós, poque com cada um de nós o Senhor deseja celebrar as núpcias. As núpcias inauguram a comunhão de toda a vida: é o que Deus deseja a cada um de nós. Então, a relação com Ele já não pode ser como a devotos súditos do rei, a de servos fiéis em relação ao patrão, ou de alunos aplicados em relação ao seu mestre, mas é, antes de tudo, a da esposa amada com o esposo. Em outras palavras, o Senhor nos deseja, nos procura e nos convida. E não contenta em que cumpramos bem as tarefas e em que observemos suas leis, mas Ele quer conosco uma verdadeira comunhão de vida, uma relação feita de diálogo, confiança e perdão. Esta é a vida cristã: uma história de amor com Deus, em que o Senhor, gratuitamente, toma a iniciativa, e em que nenhum de nós pode arrogar-se a exclusividade do convite. Ninguém é privilegiado em relação aos outros, mas cada um é privilegiado diante de Deus. Por meio deste amor gratuito, terno e privilegiado de Deus, nasce e renasce sempre a vida eterna. Podemos perguntar-nos se, pelo menos uma vez por dia, confessamos ao Senhor o nosso amor por Ele; se nos lembramos, entre muitas palavras de Lhe dizer todo dia: “Eu Te amo Senhor. Tu És minha vida!”. Porque se o amor esmorecer, a vida cristã torna-se estéril, se torna um corpo sem alma, uma moral impossível, um conjunto de princípios e leis a cumprir, sem um porquê. Ao contrário, o Deus da vida espera uma resposta de vida. O Senhor do amor espera uma de amor. Dirigindo-se a uma Igreja, no Livro o Apocalipse, Ele faz uma repreensão preciosa: “Abandonaste teu primeiro amor” (2,4). Eis o perigo: uma vida cristã monótono, Onde se contenta com a “normalidade“, sem animo, sem entusiasmo, e com memória curta. Reavivemos, ao contrário, a memória do primeiro amor: nós somos os amados, os convidados às nupcias, e a nossa vida é um dom, porque, cada dia é uma oportunidade magnifica de responder ao convite.

Mas, o Evangelho nos faz vigilantes: o convite, porém pode ser recusado. Muitos convidados disseram: não, porque estavam tomados por seus interesses: – “não fizeram caso disto, e foram trabalhar no seu próprio campo, que é seu próprio negócio” -, disse o texto (Mt 22,5). Uma palavra retorna “próprio”; é a chave para compreender o motivo da recusa. Os convidados na verdade, não pensavam quem as núpcias fossem tristes ou enjoadas, mas simplesmente “não se preocuparam com elas”: estavam fora do seu interesse, preferiram ter algo mais a entrar no jogo, como pede o amo. Eis como se toma distância do amor, não por maldade, mas porque se preferem os próprios interesses: as seguranças, a auto-afirmação, as comodidades… Então como nos rendemos aos atrativos dos ganhos, dos prazeres, de qualquer hobby que faz ficar um pouco alegre, mas assim, logo se converte em mal, porque se envelhece por dentro: quando o coração não se dilata, se fecha, envelhece. E quando tudo depende do “eu” – daquilo que me é conveniente, daquilo que me serve, daquilo q eu quero – torna-se rígido e ruim, se reage de modo equivocado por nada, como os convidados do Evangelho, que chegaram a insultar e até a matar, quantos daqueles acataram o convite, somente porque os incomodava, quantos recusaram o convite só porque os incomodava.

Então, o Evangelho nos pergunta sobre de que lado evemos estar: do lado do “eu” ou do lado de Deus? Porque Deus é o contrário do egoísmo, da auto-referencialidade. Ele – diz-nos o Evangelho – diante das contínuas recusas recebidas, diante do fechamento do olhar dos seus convidados, segue adiante, Não adia a festa, não se resigna, mas continua a convidar. Diante das injustiças sofridas, Deus responde com um amor ainda maior. Diante dos “não”, Deus não fecha a porta, mas inclui ainda mais. Nós, quando feridos por erros e recusas, guardamos insatisfação e rancor. Deus, ao contrário de nós, ao sofrer por nossos “não”, continua a animar, segue adiante preparando o bem, inclusive para quem faz o mal. Porque assim é o amor, porque assim faz o amor; porque só assim se vence o mal. Hoje, este Deus que nunca perde a esperança, nos convoca a fazer como Ele, a vivermos conforme o verdadeiro amor, a superarmos o conformismo e os caprichos do noso “eu” renitente e preguiçoso.

Há um último aspecto que o Evangelho ressalta: a vestimenta dos convidados, que é indispensável. Com efeito, não basta responder uma vez por todas ao convite, dizer sim e basta, mas é preciso vestir o hábito, é preciso criar o hábito a viver o amor todos os dias. Porque não se pode dizer: “Senhor, Senhor” sem viver e pôr em prática a vontade de Deus. Temos necessidade. Temos necessidade de nos revestir todos os dias do Seu amor, de renovar, a cada dia, a escolha de Deus. Os Santos hoje canonizados, e sobretudo muitos Mártires, apontam para este caminho.

Eles não disseram “sim” ao amor por palavras e por pouco tempo, mas a vida e até o fim,. Sua roupa de cada dia foi o amor de Jesus, aquele amor louco, que nos amou até o fim, que nos deixou Seu perdão e Sua veste a quem o crucificava. Também nós recebemos, no Batismo, a veste branca, a veste nupcial para Deus. Peçamos-Lhe, pela intercessão desses nossos irmãos e irmãs santos, a graça de escolher e vestir a cada dia esse hábito e de mantê-lo puro. Como fazer? Antes de mais nada, indo receber sem medo o perdão do Senhor: é o passo decisivo para entrar na sala nupcial, para celebrar a festa do amor com Ele.