Maré debate segurança, apesar do tráfico ter tentado impedir

A socióloga Sílvia Ramos, expertise em Segurança Pública, e ex-sub-secretaria daquela secretaria, no Rio de Janeiro, gestão Luís Eduardo Soares, integrante do Cesec (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), da Universidade Cândido Mendes,Rio, membro também do no Fórum Brasileiro de Segurança Pública,foi ao debate que houve, domingo agora, dia 30, na Favela da maré, e escreveu um relato digno de publicação e louvor, que reproduzimos aqui:

“”Escrevo para fazer um relato de um dia fora do comum. Acabo de chegar da Conferência Livre da Maré, a primeira conferência livre de um bairro do Rio de Janeiro no contexto da Conseg (Conferência Nacional de Segurança Pública).

Para minha surpresa, verifiquei que estavam presentes nada menos que 185 pessoas formalmente inscritas, entre moradores da Maré, lideranças comunitárias, ativistas de direitos humanos, pesquisadores, além do comandante do 22o BPM (Maré), coronel Seixas; a capitã Priscilla, que comanda o policiamento comunitário do Santa Marta; e o coronel Seabra, que chefia as comunicações da PMERJ. Além desses, muitos amigos da Redes da Maré e das outras entidades que convocaram a conferência livre passaram por lá o dia todo. Inclusive um grupo de franceses vindos do município da periferia de Paris, Virth-Sur-Seine, que anotavam cada frase entre boquiabertos e incrédulos.

Tudo ocorreu no Centro de Artes da Maré, o belo e grandioso espaço que Lia Rodrigues e seu grupo de dança e arte, juntamente com a Redes, ergueram dos escombros de uma velho galpão, numa das entradas da Nova Holanda, no Complexo da Maré.

As fortes emoções começaram pela manhã bem cedo, quando traficantes reagiram à presença de veículos e do forte efetivo da PM com tiros dirigidos ao local onde se realizaria a conferência. Tudo se acalmou rapidamente, quando os traficantes perceberam que não se tratava de uma invasão, mas de um debate. A tensão, contudo, perdurou por um tempo até a abertura.

Eliana Silva, da Redes, abriu os trabalhos com uma explicação da importância histórica da participação da Maré na Conferência Nacional de Segurança Pública:

“A Maré vai levar suas propostas, nós queremos ter voz em Brasília”.

“Por isso, estamos cumprindo os procedimentos de uma conferência livre”, como explicou Raquel Willadino, do Observatório de Favelas. Miriam Guindani e Julita Lemgruber fizeram ótimas exposições sobre o sistema de justiça criminal, o controle externo da polícia e sublinharam a importância do encontro. O tom da abertura e a ênfase no diálogo deram o mote do dia: “Todos que estão aqui são bem-vindos. Não queremos preconceitos, queremos o diálogo e vamos debater tranquilamente nossas opiniões sobre segurança pública, que é um tema que nos afeta diretamente”, disse Eliana.

Ao longo do dia o que se viu foi quase um milagre: grupos de 30 a 40 pessoas discutiam organizadissimamente pontos dos eixos temáticos e anotavam suas concliusões em grandes cartolinas. Os grupos tinham a cara da diversidade total, gente de favela, do asfalto, da cultura, da militância, da polícia, da academia.

O almoço, preparado pela famosa “Galega”, da Maré, arrasou, com cinco opções, que iam da carne de sol ao estrogonofe, vários tipos de feijão, cuscus, farofa e fartura nordestina total. Bira, o fotógrafo da Escola Popular de Fotografia da Maré, me mostrava em sua câmera uma das centenas de fotos que bateu ao longo do dia: o cel. Seabra inclinado se servindo no balcão da Galega ao lado do Robson, da Rocinha/Viva Rio e de outras liderança da Maré. Bira me disse: “Vem ver: democracia é isso”.

Na mesa de almoço em que estava o coronel Seabra se sentaram Marcia Jacinto, que teve seu filho assassinado em 2002 e que investigou o crime por contra própria e provou que ele fora assassinado por policiais, que hoje estão presos (Marcia ganhou o prêmio Faz a Diferença do Jornal O GLOBO de 2009), Patrícia Oliveira, irmã do Wagner, da Candelária, da Rede Movimento Contra a Violência nas Comunidades e outras ativistas que eu não conhecia. Seabra, Seixas e Priscilla, os policiais, tinham participado do mesmo grupo de debates que Márcia, Patrícia e outras 30 pessoas antes do almoço e a despeito das diferenças, o que se viu naquele e nos outros grupos ali na Maré é que o diálogo – milagre – é possível.

O mais incrível do Rio é que essas coisas, essas cenas inesperadas, essas viradas de página se dêem exatamente na Maré, ali onde t-o-d-a-s as dificuldades, barreiras, tabus, preconceitos teriam tudo para ser maiores do que são em qualquer lugar. Ali onde é mais difícil reunir pessoas para “discutir segurança pública” do que em Copacabana, Barra ou Botafogo, com suas mil opções de locais seguros e tranquilos. Ali na Maré, onde a Conferência Livre começa com tiros e acaba com diálogos imprevisíveis e inusitados… isso também é o Rio. E isso é histórico.

Graças à coragem da Eliana e do monte de gente corajosa, criativa e ousada que ela lidera hoje no Rio de Janeiro.

Um abraço,
Silvia” Maré.complexoda.ArleyRamos.2004