Mais do mesmo

Enquanto você lê este parágrafo, um terço da humanidade passa fome. No mundo inteiro, 67 pessoas morrem e 204 nascem. Ao mesmo tempo, 33 mil toneladas de gás carbônico estão sendo emitidos na atmosfera. Só no YouTube, 24 horas de vídeos são colocados no ar e milhões de operações bancárias estão sendo realizadas por todos os cantos do globo.

Há dezesseis anos começamos a viver uma nova era. Em 1994, pessoas, governos e empresas, ainda que em quantidade pouco expressiva, começam a fazer uso de uma ferramenta recente mas de grande potencial – a Internet. Hoje, a Grande Rede se instaurou em nossas vidas e é impossível não perceber sua presença constante em nossa sociedade e, especialmente, suas profundas marcas em nossas formas de nos comunicamos, nos informarmos e nos relacionarmos.

Os antigos jornais caíram: redações fecham, equipes são reduzidas e surge uma nova forma de se fazer jornalismo, o chamado new jornalism. O simples leitor de outras épocas passou também a ser produtor e replicador de conteúdos. As redes sociais explodem – milhões de pessoas desejam agora dar as suas versões dos fatos, fazer as suas vozes serem ouvidas. A palavra do século é interatividade e a perspectiva do milênio, a democracia.

Há, no entanto, que se ter cuidado. É notório, claro, o potencial democratizante da Internet. Afinal, teoricamente não há mais um emissor que se comunica para uma massa de receptores, de forma verticalizada. Mas é preciso pensar, antes de tudo, a forma que está tomando esse processo. Em primeiro lugar, é importante desmontar a falácia da integração global. Se um terço da população mundial passa fome, que dirá ter acesso à Internet. A notabilidade da exclusão digital, em escala planetária, é simplesmente inegável.

Além disso, é necessário atentar ainda para um outro fato: até que ponto, no mundo virtual, não continuamos a ser mediados pelos mesmos grandes conglomerados comunicacionais? Afinal, continuamos à mercê das mega empresas de jornais e televisão, só que desta vez sob a lógica dos grandes portais de informações e de buscas. E isso sem falar no surgimento das coberturas jornalísticas minuto-a-minuto que descontextualizam os acontecimentos e fazem a mídia se aproximar cada vez mais da lógica sensacionalista do início da imprensa.

A ideia, segundo essa lógica, não é tratar as inovações trazidas pela Internet de forma apocalíptica, mas apenas apresentar um olhar questionador sobre o uso que temos feito dela. A Grande Rede é, sem dúvidas, o mecanismo de maior potencial político, social e democrático da História. Entretanto, se não utilizado de forma crítica e consciente, será, apenas, mais do mesmo.

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