Levantes da resistência: Um protesto contra a censura

Por Jessy Daiane

Num contexto de guerras híbridas, censura e repressão, o atual cenário brasileiro evidencia o papel central da batalha das ideias na sociedade. Vivenciamos uma eleição em 2018 marcada pelas “fake News”, pela desinformação e pela forte propagação de ideias conservadoras nas redes sociais e nas ruas. Diante da dura derrota que sofremos não é difícil constatar que as ideias da esquerda perderam espaço na sociedade, o que nos impõe a tarefa de intensificar a disputa ideológica.

É diante desse grande desafio que o Levante Popular da Juventude ousou lançar um livro que reúne poemas, ilustrações e fotografias contando a história de luta da nossa geração a partir do nosso olhar.

Sabemos que a permanente disputa cultural tem a capacidade de formar consciência para transformar a realidade que está posta ou para conservá-la. Interessa aos poderosos do nosso país manter o povo brasileiro submetido à uma ideologia que convence os oprimidos e explorados a se perpetuarem nessa posição. A ideologia que dissemina o consumismo, o machismo, o racismo, o individualismo, a meritocracia e tantos outros valores que fortalecem a lógica da exploração capitalista.

Sabendo disso, em períodos de maior repressão do capitalismo, ao ter o governo em mãos, uma das primeiras atitudes da burguesia é censurar de forma direta ou indireta a produção artística que foge ao seu agrado.

Não à toa, após assumir o governo, uma das primeiras medidas de Bolsonaro foi a extinção e dissolução do Ministério da Cultura (MinC) através da Medida Provisória nº 870; as ameaças à Agência Nacional do Cinema (Ancine) tem sido constantes; em menos de um ano, juntando também a Educação e os Esportes, o governo cortou uma média de R$ 1 bilhão do orçamento voltado para estas áreas.

Além disso, não são incomuns as notícias de tentativas do bolsonarismo de vetar filmes, exposições, peças, livros em cima do discurso da defesa da “família, da moral e dos bons costumes”.

Cito aqui dois episódios que demonstram esse movimento em curso no Brasil, o fato ocorrido na Bienal do livro no Rio de Janeiro que teve uma grande repercussão quando uma ordem de censura explícita partindo do prefeito Crivella determinou o recolhimento do romance gráfico “Vingadores, a cruzada das crianças”, que tem a imagem de beijo homoafetivo. O filme “Marighella” também foi impedido de estrear no Brasil por ordem da Ancine, mesmo depois de já ter sido aplaudido no festival de Berlim.

O processo de criminalização da periferia e do povo pobre por meio da cultura é evidente, com os recentes episódios de criminalização do funk, com a prisão do DJ Rennan da penha que conquistou a liberdade há pouco tempo, e com a ação da polícia no baile funk em Paraisópolis (SP), que deixou 9 mortos e 12 feridos numa ação absurdamente abusiva.

É nesse contexto que o Levante – que desde seu nascimento ousa inovar nas formas de luta e combinar arte e cultura com luta e resistência – lança um livro que reúne a produção artística da juventude da periferia, do campo, das escolas e universidades, dando voz à produção de dezenas de jovens, através de múltiplas linguagens, que é invisibilizada cotidianamente de forma intencional pelo sistema.

Esse livro além de representar uma importante vitória para juventude, também representa mais uma “arma” para a batalha das ideias.

Nele, contamos as lutas da nossa geração, por meio de poemas, ilustrações e fotografias dessa militância jovem e artista. A partir de mais de 200 materiais que foram enviados, selecionamos cerca de 100 para expor nesse compilado. A coletânea possui materiais de jovens de todas as regiões do Brasil, aproximadamente, 55% do material selecionado foram de mulheres, 60% de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais, 50% de pretos, pardos e indígenas e 41% de pessoas fora de capitais.

O livro é uma publicação do Levante Popular da Juventude com a Expressão Popular, possui um comentário do João Pedro Stedille e a participação de artistas convidados como Mel Duarte, Sérgio Vaz, Shiko, Rafael Vilela, Leonardo Milano, Doralyce e Bia Ferreira.

O lançamento nacional ocorreu no dia 29 de janeiro, no Armazém do Campo em São Paulo, com arte e protesto contra a censura. Esperamos que essa singela contribuição estimule e fortaleça a luta de toda esquerda brasileira e que seja mais um passo na valorização da arte popular.

Edição: Rodrigo Chagas

Fonte: Brasil de Fato

(30-01-2020)