Leituras

Há algumas vezes em que a pessoa acorda com a sensação vaga de um sonho. Alguma coisa fica no umbral da memória ou da percepção, e, como diz Julio Cortázar, ali mas onde, como, aquilo que não consegues trazer de todo para a consciência, fica ali, como que a te querer dizer alguma coisa, ou a te dizer de fato, não sabes o que.

Algo parecido ocorre quando pegas um livro para ler, como me ocorreu agora há pouco, ao começar a ler as primeiras páginas de A Fera da Selva, de Henry James. Começa o livro, e em seguida, as reminiscências, os ecos. De um outro livro do próprio Henry James, que estou lendo também ao mesmo tempo (não os dois exatamente na mesma hora, se entende, mas em tempos sucessivos), intitulado Os papéis de Aspern.

Ecos de livros de Howard Phillips Lovecraft, A tumba, ou de um relato de Egar Allan Poe, O homem na multidão. José Saramago, O homem duplicado, Jorge Luis Borges, O outro, o mesmo. Octávio Paz. Umberto Eco: O cemitério de Praga. E os espelhos refletem uns nos outros, até se perder por completo a noção do que é o que. Ontem via na TV Escola, depoimentos de pessoas sobre os livros, a leitura, o que um livro faz por nós ou conosco.

É um labirinto infinito. Praticamente não houve depoimento no qual não me espelhasse. Desde os mais comuns, em que a pessoa diz que perde a noção do mundo cotidiano em volta, vai para outros lugares (um pouco o que vem acontecendo aqui, agora), até aqueles que dizem que ao ler pegam noções de outros rumos possíveis para suas decisões, enriquecem a sua linguagem e expressividade, aumentam as suas possibilidades de ser e de agir, suas formas de relacionamento e de conexão com a realidade.

Mundos infinitos estes dos livros. Jorge Luis Borges disse alguma vez, numa coletânea de palestras que proferiu na Universidad de Belgrano, em Buenos Aires, intitulada Borges oral, que o livro é uma extensão da memória e da imaginação. Da experiência também, sem dúvida, além de muitas outras coisas. Pessoas muito intensas devem desacelerar, de vez em quando, para se equilibrarem. Quem gosta de ler, não precisa estar sempre lendo. Pode estar perto de um livro, ou de uma estante com livros, e já vai se dissolvendo, já vai apagando as fronteiras das supostas realidades objetiva e cotidiana.

Com o passar do tempo, o seu mundo interior começa a estar traçado por novas escolhas, escolhas feitas desde outros pontos de vista e perspectivas. Lembro que uma das pessoas entrevistadas no programa da TV Escola sobre os livros dizia que conhecemos algo de nós que nos era desconhecido, ao encontrarmos no livro alguma alusão, alguma provocação.

Por isto, e por muitos outros motivos, dentre eles o prazer de se subtrair de uma realidade bastante dolorosa, é que acho que a todos nos faz bem mergulhar na leitura de bons livros. São portas, caminhos, janelas para dentro de nós mesmos e para o mundo afora. Até que fora e dentro vão se diluindo, vão se apagando, e vai ficando uma espécie de unidade. A unidade da vida.

Que bom, dizem que a alma é um mind flux, e agora voce mistura sua alma a todas estas coisas boas, como uma baleia brincando de ir nas profundezas e voltar para soltar o ar como num chafariz. Mas é perigoso enroscar demais o mind flux hem, embora eu acredite no prazer e no prazer da leitura como o fio de Ariadne que não te deixará
perdido dentro do labirinto. Falar no ‘velho Maestro’ e não mencionar laberintos, não era possível. Estou seduzido pelo ‘cemitério de praga’,
que vou achar dentro de mais este maelstrom do senhor Eco? o beco sem saída da Europa branca?

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