Irã insiste em satanizar Sakineh e perseguir jornalistas

Se alguém ainda precisava de motivos para deplorar o estado teocrático iraniano como uma excrescência medieval sem lugar no século 21, os aiatolás ensandecidos trataram de os fornecer.

Foram duas demonstrações a mais de despotismo gritante, aberrante e aviltante.

Coagiram Sakineh Mohammadi Ashtiani a participar, na TV, de uma farsa em que ela fingiu aplicar no finado marido uma injeção de sedativo, para que seu amante depois o eletrocutasse.

Sendo, como são, totalmente inconfiáveis os Torquemadas iranianos, useiros e vezeiros em forjarem e propagarem mentiras como justificativas para suas práticas sanguinárias, não dá para acreditarmos sequer que o finado morreu de morte matada…

O certo é que Ashtiane foi condenada à execução por apedrejamento APENAS E TÃO SOMENTE em função de haver cometido adultério.

TODO O MAIS VEIO DEPOIS. Quando o mundo inteiro repudiava, horrorizado, esta sentença bestial, foram acrescentadas (o que tudo leva a crer não passarem de) sórdidas invencionices.

Tentou-se fazer dela uma assassina, para dourar a pílula. Satanizou-se a vítima para melhorar a imagem dos carrascos. É como sempre agem os linchadores travestidos de otoridades.

Em vão. Para quem não é fanático religioso, misógino exacerbado ou sádico enrustido, nem mesmo esta pretensa cumplicidade em assassinato justificaria a condenação ao apedrejamento.

E, claro, o fedor da farsa era tamanho e tão inconfundível que ninguém dotado de perspicácia e espírito de justiça acreditou, alhures.

Agora, ao torturá-la (ou ameaçá-la com novas torturas, contando com o trauma que lhe causaram as já sofridas) para que produza trunfos propagandísticos contra si própria, participando de uma grotesca encenação, o regime iraniano apenas consegue se tornar mais repulsivo ainda aos olhos do mundo.

Lembra a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, o Chile de Pinochet ou o Camboja de Pol-Pot. Merece o que está tendo: o mais veemente repúdio do mundo civilizado.

De quebra, a  Santa Inquisição Iraniana acaba de condenar o presidente da Associação de Jornalistas do Irã, Mashallah Shamsolvaezin, a 16 meses de prisão por ter cumprindo seu dever como profissional de imprensa e como representante da categoria. Eis o seu próprio relato:

“Fui condenado a um ano de prisão sob a acusação de ter minado o regime, dando entrevistas para televisões e agências de notícias estrangeiras. Também fui condenado a quatro meses de prisão por me referir a Ahmadinejad como ‘megalomaníaco’ numa entrevista em árabe à [rede] Al Arabiya”.

Como revolucionário formado na tradição marxista (e, portanto, visceralmente avesso a medievalismos), como defensor dos direitos humanos em quaisquer circunstâncias, como homem civilizado e como jornalista,  manifesto meu veemente repúdio a mais esta condenação iníqua.

De resto, cabe lembrar uma argumentação correta que os companheiros estão utilizando no caso de Julian Assange: é inaceitável a intimidação de quem apenas divulgou aquilo que os governos foram incompetentes em proteger.

Da mesma forma, não somos nós que temos de zelar pela imagem do Irã, ameaçado de intervenção externa contra seu programa nuclear. São os próprios dirigentes iranianos.

Se eles insistem em fornecer, de mão beijada, tudo de que os propagandistas ocidentais necessitam para criar um ânimo belicoso em relação ao Irã, não faria sentido traírmos nossos princípios e negarmos o óbvio ululante a pretexto de dificultar os planos dos EUA e Israel.

Comportarmo-nos como cegos ou como avestruzes nos tiraria toda credibilidade, jogando-nos na mesma vala comum em que está o truculento Irã.

É certo que, por pior que seja tal regime, ainda assim a tarefa de regenerá-lo cabe ao próprio povo iraniano, devendo ser firmemente repudiada qualquer intervenção militar estrangeira, sob qualquer pretexto.

Mas, daí a compactuarmos com o extermínio legalizado de oposicionistas, torturas, estupros, apedrejamentos e todo tipo de violação dos direitos humanos e direitos civis, vai uma grande distância.

A pressão moral temos, sim, o direito e a obrigação de exercer. A mais incisiva possível.

Perfeita a colocação final, Celso. Embora saibamos de toda a podridão política e econômica que norteia a campanha americana e israelense no que se refere ao Irä (e ao mundo árabe em geral), não dá para compactuarmos com aiatolás medievais fazendo o q bem entendem, e oprimindo aqueles que simplesmente nao concordam com suas verdades fundamentais.

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