Indústria farmacêutica incentiva "memória fraca" no jornalismo brasileiro

Por Gustavo Barreto (*), da redação

O jornal Folha de S. Paulo está selecionando projetos de pesquisa sobre a história do jornalismo brasileiro. O programa “Folha Memória” selecionará três projetos de pesquisa e premiará seus autores com uma bolsa de R$ 2.300 mensais.

“Nos seis meses em que receberão essa ajuda de custo, os candidatos selecionados deverão conduzir sua pesquisa com rigor acadêmico e transformá-la em um texto de interesse geral e caráter jornalístico. Eles serão orientados por um jornalista da Folha. O melhor dos três trabalhos será publicado em livro editado pela Publifolha, e seu autor ganhará um laptop.” (Anúncio em uma escola de comunicação no Rio)

O curioso é que o patrocínio é da maior transnacional farmacêutica do planeta, a Pfizer. A participação também se dá na avaliação de conteúdo: sempre que há alguma, também está presente um representente da “Comunicação Corporativa da Pfizer”. Para avaliar, lembremos, projetos sobre… a história do jornalismo. Imagino que a Folha entenda haver um campo integrado de estudo entre comunicação corporativa e história do jornalismo. Ou se venderam mesmo.

E se o projeto em análise for sobre jornalismo científico e os malefícios dos laboratórios privados para o sistema de saúde global? A Organização Mundial de Saúde (OMS) está em pé de guerra com os laboratórios privados há um tempo, pois estes não compartilham informações básicas sobre o desenvolvimento de vacinas ou medicamentos. Isso prejudica centenas de países que precisam destes dados para resolver problemas fundamentais, já superados pelos países desenvolvidos. É a velha questão da troca que benefício todos versus o conhecimento proprietário.

Na outra ponta, dos doentes “ricos”, produzem remédios que “viciam” o organismo, de modo que a cada dois anos os remédios de ponta precisam ser refeitos. Fui a um evento sobre antimicrobianos, em 2008, em que uma pesquisadora da UERJ comentava que uma bactéria estava tão dependente de um determinado antibiótico que, sem o uso deste, acabava morrendo (!).

Em 2007, já havia comentado que os programas de treinamento em jornalismo dos dois maiores jornais de São Paulo – Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo – eram patrocinados pela indústria do tabaco (e ainda são), e como isso influenciava na hora de decidir o que é notícia ou não, ou o que ganhará destaque ou não. Lembre-se que esta é a mesma indústria que, segundo a OMS, “continua a colocar os lucros à frente da vida; sua própria expansão antes da saúde das futuras gerações; seus ganhos econômicos à frente do desenvolvimento sustentável dos países”. (Leia aqui o artigo, republicado pela Associação Mundial Antitabagismo)

O jornal Estadão, além de ter apoio da gigante do tabaco Philip Morris, também é apoiado financeiramente neste programa pela Vivo, uma das teles que sofre centenas de ações civis públicas no Ministério Público por não atender minimamente seus clientes, a ponto de todo mundo (mesmo) já ter passado, com uma ou mais operadoras, por problemas absolutamente ridículos de falta de respeito e completo desprezo pelo consumidor. No meu caso, já tive cancelamento indevido, tributação inexistente e até mesmo o Ministério Público Federal de Minas Gerais já entrou com uma Ação Civil Pública a partir de uma carta aberta que escrevi em 2004 (aqui e aqui), conforme me informou a assessoria do MPF em Minas.

Será que se eu usar o “rigor acadêmico” para elaborar um projeto de memória do jornalismo independente, nesse caso, eles me aprovam?

Isso é grande imprensa, vendida pra quem puder pagar mais. No caso “Folha Memória”, sugiro aos candidatos investigar denúncias de cobaias humanas na África, que de vez em quando vazam na mídia global (como no caso das mais de 100 crianças mortas na Nigéria, leia aqui), fato que originou o filme “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener, 2005), baseado em fatos documentados amplamente pela organização Médicos Sem Fronteiras à época. Empresa responsável pelos “testes em humanos”: Pfizer.

Será que a Folha acompanha o caso? E sobre a atuação dos laboratórios na África?

Infelizmente, mais uma vez, comprovamos que, em termos de grande mídia, o patrocínio se torna promiscuidade de interesses. Em abril deste ano (de 2009 mesmo, acredite), saiu uma indenização (ou seja, 13 anos depois) do caso e a briga não acabou nos EUA. O The Independent da Inglaterra deu (leia aqui, em inglês, ou num jornal de Portugal, aqui), mas como nós não temos um jornal ou telejornal chamado “O Independente” e nem algo parecido – apenas a dependente Folha, a dependente Globo, o dependente Estadão etc -, ninguém fica sabendo disso. Não é manchete.

A matéria do diário britânico é de 6 de abril, sendo que no dia 10 de abril (4 dias depois), a única citação que há na Folha para a palavra “Pfizer” é sobre o mercado de medicamentos genéricos:

3. Folha de S.Paulo – Sanofi compra Medley e vira líder no país – 10/04/2009
… doenças que afetam a maior parte da população. Um deles é o Liptor, da Pfizer, que combate o colesterol. “O mercado de genéricos deve sofrer um aquecimento com o vencimento …
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1004200922.htm

Nem a Folha Online nem o jornal Folha de S. Paulo deram a notícia. Matar crianças na África não deve ser, mesmo, de interesse público, na cabeça dos ilustres editores. E os demais membros do corpo editorial da Folha devem estar se perguntando por que esse assunto não foi pauta por lá. Um mistério editorial.

O “rigor acadêmico” do edital de apoio à “memória do jornalismo” da FSP/Pfizer depende, ao que se vê, de uma seleção rigorosa pra escolher estudantes que não questionem essas bobagens, como fazer de crianças africanas no norte da Nigéria cobaias humanas. Ou selecionar quem tem memória fraca.

(*) Gustavo Barreto é pós-graduando na UFRJ, foi repórter na Fiocruz e é assessor de imprensa na área de Saúde Pública. Editor de meios alternativos na mídia livre.

ASSUNTO: SP

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