Homilia do papa Francisco, domingo 23/11/2014

papaA Liturgia de hoje nos convida a fixar o olhar sobre Jesus, como Rei do Universo. A bela Oração do Prefácio nos lembra que o Seu Reino é um Reino “de verdade e de vida; Reino de santidade e de graça; Reino de justiça, de amor e de paz. As leituras que escutamos nos mostram como Jesus realizou o Seu Reino, como o realiza no decorrer da história e o que pede de nós.

Primeiro, como Jesus realizouo Reino. Ele o fez com sua proximidade e sua ternura para conosco. Ele é o Pastor, do qual nos falou o profeta Ezequiel, na primeira leitura. Toda uma passagem cheia de verbos que indicam o cuidado e o amor do pastor para com seu rebanho: “procurar”, “enfaixar”, “reunir as dispersas”, “conduzir ao pasto”, “fazer repousar”, “procurar a ovelha perdida”, “reconduzir as que se desviaram”, “tratar a ferida”, “cuidar da que está enferma”, “ter cuidado”, “apascentar”.

Todos esses compromissos tornaram-se realidade em Jesus Cristo. Em verdade, Ele é o grande pastor das ovelhas e guardião de nossas almas. E. na Igreja, todos quantos somos chamados a ser pastores, não podemos desviar-nos desse modelo, se não quisermos tornar-nos mercenários. A este respeito, o Povo de Deus é dotado de um filtro infalível para reconhecer os bons pastores e distingui-los dos mercenários.

E após Sua vitória, isto é, após Sua Ressurreição, como é que Jesus leva adiante o Seu Reino? O apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos Coríntios, nos diz: “É preciso que Ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés.” É o Pai que, pouco a pouco, vai submetendo tudo ao Filho, ao mesmo tempo em que o Filho tudo submete ao Pai, e, ao fim, a Si próprio.

Jesus não é um rei à maneira deste mundo. Para Ele reinar não é mandar, é obedecer ao Pai, a Ele conformar-se para que se cumpra Seu desígnio de amor e salvação. Assim se manifesta plena a reciprocidade entre Pai e Filho. Portanto, o tempo do Reino de Cristo é o longo tempo da submissão de tudo ao Filho e da conformação de tudo ao Pai. O último inimigo a ser destruído será a morte, E, ao final, quando tudo tiver sido posto sob a realeza de Jesus, e tudo – inclusive Jesus – tiver sido submetido ao Pai, Deus será tudo em todos.

O Evangelho nos diz o quê o Reino de Jesus pede de nós. Recorda-nos que a proximidade e a ternura são a regra de vida também para nós, e sobre isto seremos julgados. Será o protocolo do nosso julgamento. E na grande parábola do Juízo final de Mateus 25, o Rei diz: “Venham, benditos do meu Pai, e recebam o Reino que lhes foi preparao desde a criação do mundo, pois Eu tive fome e vocês Me deram de comer, tive sede e Me deram de beber, Eu fui um estranho e vocês Me acolheram, Eu estava nu e vocês Me vestiram, doente, e vocês Me visitaram, estive preso e vocês foram Me ver. Os justos perguntarão: “Quando fizemos tudo isto?” E Ele lhes responderá: “Tudo o que vocês fizeram a a um só desses meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizeram.”

A Salvação não começa pela confissão da realieza de Cristo, mas da imitação das obras de misericórdia por meio das quais Ele realizou o Reino. Quem as cumpre, mostra que acolheu a realeza de Jesus, porque fez espaço no seu coração à caridade de Deus. No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor, pela proximidade e pela ternura para com os irmãos. Disto vai depender a nossa entrada no Reino de Deus, a nossa colocação numa ou noutra parte.

Jesus, com a Sua vitória, abriu para nós o Seu Reino. Resta a cada um de nós nele entrar, já a partir desta vida. O Reino começa agora, fazendo-nos concretamente próximos do irmão que nos pede pão, roupa, acolhida, solidariedade, catequese. Se realmente amamos aquele irmão, aquela irmã, seremos levados a repartir com ele, com ela o que temos de mais precioso, isto é, o próprio Jesus em Seu Evangelho.

Hoje, a Igreja se põe diante do modelo de novos santos que, justo por meio de sua obra de generosa dedicação a Deus e aos irmãos, serviram, cada qual em seu âmbito, o Reino de Deus. Ao mandamento do amor a Deus e ao próximo dedicaram-se, sem se pouparem, ao serviço dos últimos, no cuidado aos indigentes, aos doentes, aos anciãos, peregrinos. Sua predileção aos pequeninos e aos pobres reflete a medida de seu amor incondicional a Deus. Cada qual respondeu, com grande criatividade, ao mandamento do amor a Deus e ao próximo.

De fato, buscaram descobrir o amor de Deus na forte relação pessoal com Deus, da qual jorra o verdadeiro amor. Na hora do Juízo, eles ouviram essas doces palavras: “Venham, benditos do meu Pai, recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo.
Com o rito da canonização, confessamos, mais uma vez, o mistério do Reino de Deus, e prestado honra a Cristo Rei, Pastor pleno de amor pelo Seu rebanho. Que os novos santos, com seu exemplo e sua intercessão, façam crescer em nós a alegria de caminhar pela estrada do Evangelho, com a decisão de assumi-lo como a bússola de nossa vida. Peçamos que tenhamos sua fé, seu amor. Para que também nossa esperança se revista de imortalidade. Não nos deixemos levar por altos interesses terreno passageiros. E que nos guie nossa Mãe Maria, rainha de todos os santos.

http://www.youtube.com/watch?v=Dvd_v6c-9Qw
(Do minuto 54 ao minuto 1:03:34)

Trad.: Alder Júlio Ferreira Calado

Nós também Somos Igreja, grupo de estudo, reflexão e ação social cristã.

Seções: Opinião.