Homilia do Papa Francisco, do dia 19/10/2014

papaAcabamos de escutar uma das frases mais célebres de todo o Evangelho: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”

À provocação dos fariseus que, por assim dizer, queriam fazer um exame de religão com Ele, e induzi-Lo a erro, Jesus responde com esta frase irônica e genial. Trata-se de uma frase que o Senhor expressa a todos aqueles que se põem um problema de consciência, sobretudo quando estão em jogo suas conveniências, suas riquezas, seu prestígio, seu poder e sua fama. E isto se dá em qualquer tempo, desde sempre.

A ênfase de Jesus recai, por certo, na última parte da frase: “Dai a Deus o que é de Deus.” Isto significa reconhecer e professar, frente a todo tipo de poder, que apenas Deus é o Senhor do homem, e não há outro. Esta é a novidade perene a descobrir a cada dia, vencendo os medos muitas vezes experimentamos, diante das surpresas de Deus.

Ele não tem medo das novidades. Por isso nos surpreende, abrindo-nos e conduzindo-nos à caminhos impensados Ele nos renova, isto é, nos faz novos, continuamente. Um cristão que vive o Evangelho é a novidade de Deus na Igreja e no mundo. E Deus ama muito essa novidade.

“Dar a Deus o que é de Deus” significa abrir-nos à Sua vontade, e dedicar-Lhe nossa vida, e cooperar com Seu Reino de amor, de misericórdia, de paz. Esta é nossa verdadeira força, é fermento que faz levedar, é sal que dá sabor a todo esforço humano contra o pessimismo predominante que o mundo nos propõe.

Esta é nossa esperança, porque a esperança em Deus não é, portanto, uma fuga da realidade, não é um “álibi”. É restituir operosamente a Deus o que Lhe pertence. É por isto que o cristão mira a realidade futura, aquela de Deus, para viver a vida plenamente, com os pés bem plantados sobre a terra, a fim de responder, com coragem, aos inúmeros novos desafios.

Vimos isto, durante esses dias, por ocasião do Sínodo Extraordinário dos Bispos. “Sínodo” quer dizer caminhar juntos. Com efeito, pastores e leigos de toda a parte do mundo trouxeram para aqui, para Roma, a voz de suas igrejas particulares, para ajudarem as famílias de hoje a caminharem na estrada do Evangelho, com olhar fixo em Jesus. Foi uma grande experiência em que vivemos a sinodalidade e a colegialidade. Sentimos a força do Espírito Santo que guia e renova sempre a Igreja, chamada a cuidar das feridas que sangram, a reacender a esperança de tanta gente sem esperança.

Pelo dom deste Sínodo, e pelo espírito construtivo oferecido por todos, com o apóstolo Paulo: damos sempre graças a Deus por todos vós, lembrando-nos de vós em nossas orações. Que o Espírito Santo que, nesses dias operosos, concedeu-nos trabalhar generosamente com verdadeira liberdade e humilde criatividade, agora acompanhe a caminhada que, na intenção de toda a terra, se prepara para o Sínodo Ordinário dos Bisos, em outubro próximo de 2015.

Semeamos e vamos continuar semeando, com paciência e com perseverança, na certeza de que é o Senhor quem faz crescer o quanto tenhamos semeado.

Neste dia da beatificação do Papa Paulo VI, voltam à minha mente as palavras, com as quais ele instituía o Sínodo dos Bispos: “Auscultando atentamente os sinais dos tempos, cuidemos de adaptar os caminhos e os métodos ante as crescentes necessidades dos nossos dias e as condições de mudança de nossa sociedade.

Diante desse grande papa, desse corajoso cristão e desse incansável apóstolo, ontem como hoje, só podemos dizer uma palavra tão simples, sincera e importante: Obrigado! Obrigado, nosso caro e amado Papa Paulo VI! Obrigado pelo teu humilde e profético testemunho de amor a Cristo e à Sua Igreja!

Em suas anotações pessoais, o grande timoneiro do Concílio, no dia seguinte ao encerramento da sessão conciliar, escreveu: “Talvez, o Senhor me tenha chamado e me mantenha neste serviço, não tanto para que eu tenha alguma atitude ou para que eu governe e salve a Igreja de suas dificuldades presentes, mas para que eu sofra algumas coisa pela Igreja. E assim fique claro que é Ele, e não outrem, quem a conduz e quem a salva.” Nesta humildade, resplandece a grandeza do Beato Paulo VI que, enquanto se esboçava uma sociedade secularizada e hostil, soube conduzir com sabedoria e por vezes solitário, o timor da barca de Pedro, sem jamais perder a alegria e confiança no Senhor.

Paulo VI soube realmente dar a Deus o que é de Deus, dedicando toda a sua vida ao dever sagrado, solene e gravíssimo de continuar no tempo e sobre a terra, a missão de Cristo, amando a Igreja e guiando a Igreja, para que fosse, ao mesmo tempo, mãe amorosa de todos os homens e dispensadora de salvação.

http://www.youtube.com/watch?v=0F_srHsTi4g
(Do minuto 1:03:42 ao minuto 1:13:00)

Trad.: AJFC