Homilia do Papa Francisco, na missa celebrada no dia dos pobres

No Evangelho de hoje, Jesus surpreende seus contemporâneos e nós também. Com efeito, justamente enquanto se prestava louvor ao magnífico Templo de Jerusalém, ele afirma que “não ficará pedra sobre pedra”. Por que estas palavras dirigidas a uma instituição tão sagrada, pois não era apenas um edifício, mas um símbolo religioso único, uma casa dedicada a Deus e ao povo crente? Por que tais palavras? Por que profetizar que a firme certeza do povo de Deus entraria em colapso? Por que, enfim, o Senhor deixa que destruam certezas, enquanto o mundo enquanto o mundo está cada vez mais privado delas?

Busquemos respostas às palavras de Jesus. Ele hoje nos diz que quase tudo passará. Quase tudo, mas nem tudo. Neste penúltimo Domingo do Tempo Comum, ele explica que a destruição a vir, são das penúltimas coisas, não das últimas: do templo, não de Deus; os reinos e os eventos da humanidade, não do homem. Passam as coisas penúltimas, que, muitas vezes, parecem definitivas, mas não o são. São realidades grandiosas, como os nossos templos, e aterradores como os terremotos, sinais no céu e guerras sobre a terra: a nós parecem notícias de primeira página, mas o Senhor as coloca na segunda página. Na primeira, permanece o que nunca passará: o Deus vivo, infinitamente maior do que qualquer templo que Lhe construamos, e o homem, o nosso próximo, que vale mais que todos os anais do mundo. Então, para nos ajudar a recolher o que importa na vida, Jesus nos põe em vigilância, em relação a duas tentações.

A primeira é a tentação da pressa, do imediatismo. Para Jesus, não precisamos ir atrás de quem diz que o fim chega de repente, que o tempo está perto. Não siga a quem espalha o alarmismo e alimenta o medo do outro e do futuro, porque o medo paralisa o coração e a mente. E, no entanto, quantas vezes nos deixamos seduzir pela pressa de querermos saber tudo e de imediato, pelo prurido da curiosidade, pela última notícia bombástica e escandalosa, pelas narrativas turvas, pelo barulho de quem grita mais forte e com mais raiva, de quem diz: ”é agora ou nunca”. Mas esta pressa, este tudo e este imediatismo não vêm de Deus. Se nos afeiçoarmos pelo imediatismo, esqueceremos o que permanece para sempre: perseguimos as nuvens que passam e perdemos de vista o céu. Atraídos pelo último clamor, nunca encontramos tempo para Deus e para o irmão que vive ao nosso lado. Como isto é verdadeiro hoje! Na mania de correr, de conquistar tudo, e de imediato, aqueles que são deixados para trás ficam aborrecidos. E são considerados coisas descartáveis: quantos idosos, quantos nascituros, quantas pessoas com deficiência, pessoas pobres são consideradas inúteis. Se vamos depressa sem nos preocuparmos com as distâncias, que a ganância de poucos aumente a pobreza de muitos.

Como antídoto à pressa, Jesus, propõe hoje a perseverança a cada um de nós: “com sua perseverança você salvará sua vida”. A perseverança é marchar, dia após dia, com os olhos fixos no que não passa: o Senhor e o próximo. É por isso que a perseverança é um dom de Deus por meio do qual conseguimos todos os outros dons. Peçamos que cada um de nós e a Igreja perseverem no bem, para não perdermos de vista o que importa. Este é o engano da pressa.

Há um segundo engano do qual Jesus quer nos afastar, quando diz: “Muitos virão em meu nome dizendo “sou eu”. Não os sigam”. É a tentação do eu. O cristão, como não procura o imediato, mas o sempre, por isso não é um discípulo do eu, mas do tu. Ou seja, não segue as sirenes de seus caprichos, mas o chamamento do amor, a voz de Jesus. E como se distingue a voz de Jesus? “Muitos virão em meu nome”, diz o Senhor, mas não devem ser seguidos: não basta o crachá de “cristão” ou de “católico” para ser de Jesus. Precisamos falar a mesma língua de Jesus, a do amor: a língua do tu. Fala a linguagem de Jesus, não quem diz eu, mas quem sai do próprio eu. E, no entanto, quantas vezes, mesmo fazendo o bem, reina a hipocrisia do eu: faço o bem, mas para ser tido como bom; faço doação, mas para receber na minha vez; eu ajudo, mas para atrair a amizade daquela pessoa importante. É isso que se fala a língua do eu. A Palavra de Deus, por outro lado, nos leva a uma caridade não hipócrita, a darmos a quem não tem como restituir, a servirmos sem esperar recompensas e troco. Então podemos nos perguntar: “Ajudo alguém de quem não poderei receber? Eu, cristão, tenho nem que seja um pobre como amigo?”.

Os pobres são preciosos aos olhos de Deus porque não falam a linguagem do eu: não se mantêm sozinhos, com suas próprias forças, precisam de alguém que lhes dê a mão. Isto nos lembra de que assim se vive o Evangelho se vive, como mendigos dirigindo-se a Deus. A presença dos pobres nos reporta ao clima do Evangelho, onde são felizes os pobres em espírito. Então, em vez de nos aborrecermos quando eles batem à nossa porta, que nós possamos acolher seu pedido de ajuda, como um convite a sairmos do nosso eu, recebê-los com o mesmo olhar de amor que Deus tem por eles. Que bom seria se os pobres ocupassem em nosso coração o lugar que eles ocupam no coração de Deus! Estando com os pobres, servindo os pobres, aprendemos os gostos de Jesus, compreendemos o que fica e o que passa.

Voltemos, então, às perguntas iniciais. Entre tantas coisas penúltimas que passam, o Senhor hoje quer nos lembrar a última, a que permanecerá para sempre. É amor, porque Deus é amor e o pobre que pede meu amor me leva diretamente a Ele. Os pobres nos facilitam o acesso ao Céu. É por isso que o senso de fé do povo de Deus os via como os guardiões do céu. Já a partir de agora, eles são o nosso tesouro, o tesouro da Igreja. De fato, eles revelam a riqueza que nunca envelhece, a que une Terra e Céu e pela qual vale a pena realmente viver, isto é, o amor.

Trad: AJFC

Digitação: EAFC