Hábitos

oshoSegunda-feira de manhã. Você acorda, como toda Segunda-feira. E então começa outra vez, de novo, ainda,

“A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza das casas de enfrente, do sujo tabuleiro de janelas de tempo com seu letreiro HOTEL DE BELGIQUE.

Enfiar a cabeça como um touro apático contra a massa transparente em cujo centro bebemos café com leite e abrimos o jornal para saber o que aconteceu em qualquer dos cantos do tijolo de cristal. Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo podeia se transformar, se cumpra com a fria eficácia de um reflexo cotidiano. Até logo, querida. Passe bem.

Apertar a colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita. Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória. Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café.

E não é mau que as coisas nos encontrem outra vez todo dia e sejam as mesmas. Que a nosso lado esteja a mesma mulher, o mesmo relógio e que o romance aberto encima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos, por que haveria de ser mau? mas como um touro triste é preciso baixar a cabeça, do centro do tijolo de cristal empurrar para fora, em direção ao outro tão perto de nós, inacessível como o toureiro tão perto do touro. castigar os olhos fitando isso que anda no céu e aceita astuciosamente seu nome de nuvem, sua réplica catalogada na memória. Não pense que o telefone vai lhe dar os números que procura. Por que haveria de dá-los? Virá somente o que você tem preparado e resolvido, o triste reflexo da sua esperança, esse macaco que se coça em cima de uma mesa e treme de frio. Quebre a cabeça desse macaco, corra do centro em direção à parede e abra caminho. Oh, como cantam no andar de cima! Há um andar de cima onde moram outras pessoas que não percebem seu andar de baixo, e estamos todos dentro do tijolo de cristal. E se, de repente, uma traça pára pertinho de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olhe-a, eu a estou olhando, estou apalpando seu coração pequenino, e ouço-a: essa traça ressoa no tijolo de cristal, nem tudo está perdido. Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se encima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta de tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.” Julio Cortázar, “Manual de instruções”, in: Histórias de Cronopios e de Famas (Rio de Janeiro, Círculo do Livro, s.d.)

Os hábitos anestesiam a nossa capacidade perceptiva, a nossa possibilidade de nos relacionarmos com o mundo, que lambem até lhe dar uma suavidade satisfatória. A rotina dissolve a singularidade de cada pequena coisa na névoa cinza do repetido. A socialização impõe formas padronizadas de conduta, a través de mecanismos de punição e recompensa. Ao condenar as desviações de comportamento, uma cultura começa a morrer. E a matar.

“Os sacerdotes e os políticos que dominam a humanidade conspiram em segredo: façam o homem sentir medo. Digam-lhe que há algo de errado, de mau em sua natureza. Dividam-no em dois – bom e mau, santo e pecador . Quando dividimos uma pessoa, podemos subjugá-la. Dividir e subjugar. Esse tem sido o segredo até agora. E o homem está dividido, o homem está rachado.

Dizem-lhe haver tantas coisas erradas em você que, só de pensar que elas são erradas, você se sente condenado. E, ainda assim, apenas achando que estão erradas não é possível suprimir essas coisas. Quando muito, você conseguie reprimí-las – mas, ao reprimí-las fica cada vez mais mal-humorado. Ao reprimí-las fica cada vez mais desprezível. Chega à autocondenação, começa a pensar que é o pior pecador do mundo. Afirmam-lhe tantas vezes que vai sofrer no inferno que, conscientemente, não pensa nisso, mas o inferno está lá, em suas próprias raízes. E lhe dizem que será recompensado no céu, se obedecer aos sacerdotes e aos políticos.

Essas são as artimanhas básicas para treinar animais. É toda a psicología de Skinner. Se desejar modificar e mudar o comportamento de alguém, estas são as duas artimanhas: sempre que ele fizer o que você quer que ele faça, recompense-o. Quando ele não fizer, castigue-o. É assim que treinam os ratos e é assim que treinam os elefantes no circo – e é isso que vêm fazendo com os homens.

Os sacerdotes e os políticos insultam de tal forma a humanidade que é simplesmente espantoso o fato de ainda tolerarmos essa gente. Seu maior insulto é nos tratarem como se fossemos ratos.” Bhagwan Shree Rajneesh (Osho:“Por que você só é feliz quando está triste?”, in: Riso: a religião essencial. São Paulo: Editora Gente, s.d.p., p. 22. ).

Exercícios:

1) Mude a forma de abrir a porta, escovar os dentes, olhar para a sua (seu) namorada(o), de vez em quando. Preste atenção ao que acontece.

2) Releia um livro de que você gostou há algum tempo atrás (quanto mais antigo melhor), e observe o que acontece.

3) Escreva numa folha ou caderno (não na tela do micro) o que aconteceu hoje desde que você acordou. Os sonhos que teve. As pessoas que viu. Os pensamentos que teve. O que sentiu. (Faça isso até decidir outra coisa).

Questões:

1) Para o sociólogo (¿?) alemão Georg Simmel (“A metrópole e a vida mental”), os hábitos envolvem a poupança de uma energia que deveríamos gastar novamente, caso não tivessemos automatizado determinadas ações. Isto é, caso tivessemos que decidir a cada momento, o que pensar, o que sentir, o que fazer.

2) Imagine uma pessoa totalmente programada, e outra totalmente desprogramada. Que nome você daria a cada uma delas? Hein? Você conhece pessoas assim?

3) Qual é a importância de automatizarmos alguns atos da nossa vida? Pense, por exemplo, se a cada vez que dessemos um passo, tivessemos que executar a complexa tarefa de calcular conscientemente distância, velocidade, peso, etc. e tal. Entretanto, ao caminharmos automáticamente, algo perdemos: a experiência única desse único passo que não se repetirá jamais.

4) Quais atos não deveriam nunca ser automatizados? Pense naqueles monges que repetem mecânicamente uma máscara de “pureza” ao orarem, enquanto cozinham por dentro todo tipo de desejos proibidos (monstruizados, demonizados, satanizados, negados, se preferirem). Já viu uma criança orando (sem saber que está sendo observada)? Pense na “máscara para se olhar no espelho”, que cada um de nós põe ao se defrontar com aquela superfície prateada diante da qual seremos sempre formosos/as, monstruosos/as, …………………(completar) não sabe não se aplica (não se olha no espelho) não responde.

Capítulo 3 de Sociologia Itinerante (inédito)