Guerra e paz

Guerra e paz são estados internos. Tornamo-nos permeáveis à ação do inimigo a través do medo, da desconfiança, da insegurança. Em meio a situações de guerra, tudo se torna incerto. Mas temos um espaço interno, e muitas vezes também espaços próximos (família, amigos, colegas) em que é possível permanecermos em paz, seguros/as, tranquilos/as, confiantes.

Estas reflexões resultam da minha experiência ao longo dos anos em que vivi na Argentina. Quando eu era criança e jovem, a guerra era longe, as notícias vinham pelos jornais, rádio e TV. Depois, a guerra era contra nós, era no território nacional. Era o estado terrorista contra a população civil desarmada.

O que trato de resgatar, agora que se reinstala no país e no mundo um estado semelhante, é aquilo que a memória me traz. É possível sobreviver de maneira íntegra, mantendo a paz interior, não deixando que troquem o que percebemos e sentimos e queremos, por aquilo que nos querem impor desde os meios de manipulação e deformação.

Recordo que li em uma publicação da OPS-OMS datada creio de 1997 (La salud mental en el mundo), que toda guerra é travada na mente das pessoas. O livro se referia às situações de terrorismo de estado verificadas em vários países do mundo, dentre os quais também a Argentina.

Pude compreender então a realidade do ocorrido. O alvo do terrorismo de estado não são organizações revolucionárias, mas a população como um todo. Citava o estudo da OPS-OMS o fato de que apenas uma percentagem mínima das pessoas alvo da repressão ilegal na Argentina, tinham alguma vinculação com organizações revolucionárias.

São jogos de cena, manipulações de emoções e comportamentos para garantir a perpetuação de um estado desumano de submissão e dominação. Cabe portanto uma resistência humanizadora centrada no íntimo de cada pessoa e no âmbito comunitário, para fortalecer o potencial resiliente, conservar a alegria e a vontade de viver, fazer projetos e desfrutar da vida.