Globo tenta reescrever história

Apoiador do Regime militar instaurado em 1964, jornal O Globo tenta reescrever sua história. Por Marcelo Salles, do Fazendo Media, e Cláudia Abreu, do Jornal Surgente.

Cláudia Abreu é uma das jornalistas mais corajosas que já conheci, dessas que dignificam a profissão. Foi uma das primeiras a encabeçar a luta pela democratização da mídia, nos idos dos anos 1980, e uma das responsáveis pela gravação de imagens que depois viriam a ser utilizadas no clássico “Muito Além do Cidadão Kane”.

Tenho orgulho de ter estado a seu lado durante transmissão clandestina de rádio que fizemos, no Rio de Janeiro, em homenagem ao aniversário da Globo. Na ocasião entrevistamos, ao vivo, o escritor Roméro da Costa Machado, autor do livro “Afundação Roberto Marinho”, que conta alguns dos crimes cometidos por esta empresa. Atual editora do Surgente, jornal do Sindicato dos Petroleiros do RJ, Cláudia Abreu me encaminhou o texto abaixo, que foi publicado na última edição do referido veículo:

40 anos depois, estudantes lembram Edson Luis
Apoiador do Regime militar instaurado em 1964, jornal O Globo tenta reescrever sua história

O jornal O Globo da última sexta [28/3] dedicou página inteira aos 40 anos do ato que sensibilizou a sociedade brasileira na época. “Mataram um estudante. Podia ser seu filho” foi o título da matéria (pág 14), copiando o jornal Correio da Manhã do dia seguinte ao assassinato, mas sem citar a fonte.

Em 29 de março de 1968 o título de O Globo foi “Estudante Morto à Bala em Conflito com a PM”. E dizia em seu editorial, na primeira página: “governa a Guanabara um político ponderado, adversário tradicional da violência. Essa circunstância dá aos cariocas uma certeza: a de que a tragédia será plenamente investigada, com isenção e honestidade. E que os responsáveis por ela serão entregues à Justiça. A opinião pública deve permanecer de atalaia contra as explorações demagógicas. E confiar.”

Na época, o jornal publicou em reportagem que o Secretário de Saúde Hildebrando Marinho (…) “Chegou à janela e viu que os primeiros a atacar foram os estudantes. Os PMs afastaram-se para, em seguida, fazer nova investida, pensando que tudo estava mais calmo. Foram novamente repelidos e tiveram o veículo danificado, quando foram feitos os disparos.”

O jornal deste dia cita como autor do disparo o “Tenente Alcino”. Em 28 de março de 2008 o autor do disparo ganha o nome de Aloisio Raposo, nome que não consta em nenhuma das 3 páginas dedicadas ao assunto pelo jornal, há 40 anos.

***
Há outras boas informações publicadas sob a orientação editorial de Cláudia, que conta com uma grande equipe de jornalistas, entre os quais Cátia Lima, e estudantes: www.apn.org.br e www.sindipetro.org.br

_______________________________________
www.consciencia.net