Fundamentos axiológicos da barbárie capitalista:a incidência nas religiões de mercado

Por mais longa e dolorosa que se apresente a experiência da barbárie do capitalismo, no mundo, inclusive no Brasil, frequentemente nos flagramos surpresos com seu grau de perversidade. Aqui, nos referimos especialmente a sua grade de valores, a sua proposta e experiência axiológica. Com efeito, sobretudo, em sua fase extremamente parasitária, comandada pelo seu subsistema financista/rentista, aparecem mais enfaticamente, e com profusão, os sinais cotidianos de sua barbárie, manifesta sob múltiplas formas, que ele tem protagonizado. Tentemos compreender e sublinhar aspectos que entendemos fundamentais de seus valores, de sua grade axiológica.

Comecemos, por exemplo, pela imposição de privilégios de vários tipos que ele busca garantir aos membros dos setores dominantes, isto é: dos controladores do seu Mercado e dos controladores de seu Estado. No primeiro caso, a longevidade de seu mercado – do mercado capitalista – tem repousado na manutenção de privilégios em detrimento do respeito aos direitos humanos, a dignidade das pessoas e do próprio Planeta. Impõe-se, por conseguinte, uma norma segundo a qual um percentual mínimo de cidadãos e cidadãs se dá o direito de dominar, explorar e marginalizar todos os demais, inclusive quanto ao uso e abuso dos bens comuns e da natureza. O capitalismo faz deste ínfimo percentual – 1 %, 2% ou 5% – os detentores exclusivos dos bens comuns, das riquezas e do patrimônio da Humanidade. Um pequeno exemplo disto pode ser o de examinarmos a estrutura, o funcionamento de seus paraísos fiscais, em relação aos quais alguns filmes, tais como o intitulado “Lavanderia”, podem ilustrar. Pouco importa a esta ínfima minoria – constituída de grandes proprietários de terras, controladores de transnacionais, operando nos mais diversos ramos da economia, da educação, da cultura e até das religiões, além de grandes empresas industriais, comerciais e serviços, atuando em escala nacional, mas sempre organicamente conectadas com as que operam também em escala internacional – pouco ou nada importam a esta gente as consequências deletérias de sua esdrúxula acumulação de bens, de riquezas, de patrimônios. O que deveria ser de uso comum do conjunto dos humanos e dos demais seres acaba tendo efeito perverso e desumanizante, causando fome miséria, doenças e toda sorte de infortúnio aos demais. O que conta para esta ínfima parcela da população mundial são apenas seus interesses de classe.

Não raro, nos perguntamos: se 95 ou 99% da população mundial só tem acumulado danos e prejuízos profundos, inclusive com drásticas consequências para a nossa Casa Comum, como entender que tal situação se faça possível? Disto cuidaremos mais adiante.

A imposição de privilégios a tão poucos, à custa da sobrevivência digna de enormes parcelas da população mundial, não constitui o único modo como se expressa a barbárie capitalista. Sua grade de valores também conta com tantos outros mecanismos produtores, direta ou indiretamente, de um sistema de morte, presente na proposta capitalista. Um segundo constitutivo de sua grade de valores repousa na ideologização das relações sociais e humanas. Sua ideologia funda-se no sistema de mentiras, organicamente conectadas, com o objetivo de produzir sobre cada fato ou acontecimento de seu interesse, as versões que lhe convêm e lhe sejam diretamente funcionais. Suas mentiras têm caráter sistêmico e um complexo e extenso alcance à medida que seus principais representantes cuidam de falsear continuamente a realidade social, por meio de múltiplos mecanismos, servindo-se inclusive de mínimos elementos de verdade, com a clara intenção de esconder os fatores verdadeiros que estão por trás de sua maquinação da perversidade em escala internacional, difundindo-se também em outras escalas. Para tanto, os setores dominantes do capitalismo – mega empresas transnacionais, coadjuvadas pelo seu Estado – recorrem aos meios de comunicação de massa, tanto a chamada mídia comercial ou corporativa quanto as redes sociais sob seu controle no dia a dia. Inúmeros são os eventos, os acontecimentos, os fatos, em escala internacional e nacional e local,  tendo, pois, a seu serviço as principais fontes de informação, os principais canais de notícias, inúmeros serviços de informação e de circulação de seus valores. Tais setores dominantes empenham-se em difundir, permanentemente, suas interpretações próprias, suas versões singulares acerca de cada um destes fatos e acontecimentos. Disto usa-se e abusa-se, sem cessar. Um dos grandes estrategistas desta forma de dominação é a figura do nazista Goebbels, para quem uma mentira difundida inúmeras vezes acaba transformando-se em verdade. Pelo menos, para um número expressivo de telespectadores, profundamente vulneráveis em seu processo formativo humanizador, espalhados pelo mundo, e alimentados por canais ideológicos e outros meios institucionais tais, como, a escola, a família, as igrejas e outras instituições semelhantes. Cria-se a ideia de que a verdade dos fatos coincide com as versões e as imagens cotidianamente difundidas pela rede de canais de comunicação social de massa (“Tá na Globo!…”), bem como das redes sociais ininterruptamente alimentadas pelas suas fontes de informação, em escala internacional, produzidas por algumas grandes agências noticiosas e, em seguida, repassadas e acriticamente introjetados por uma enorme parcela de ouvintes e telespectadores, para quem a verdade é o que noticiam o rádio, a televisão, as redes sociais mais poderosas. Atuando sob poderosa rede de robôs que transmitem, a dispararem em marcha, seguidas versões mentirosas sobre os mais variados fatos econômicos políticos, culturais, religiosos…

Na grade axiológica do sistema capitalista, especialmente, em sua atual fase/face, tem lugar preponderante a força ideológica das religiões, notadamente daquelas que se manifestam mais funcionais aos interesses de seus setores dominantes, de um lado, desde os primórdios, a humanidade teve e tem que conviver com sua dimensão também religiosa, comum dos componentes culturais dos povos, em todo tempo e lugar. Por outro lado, convém lembrar que, em se tratando de um fato cultural e sócio-histórico, a religião tem múltiplas funções, de modo a operar tanto a serviço de projetos de dominação – o que tem sido largamente um fenômeno majoritário – quanto um apelo libertário, o que acontece, embora em escala muito menor, das relações com o sagrado vivenciadas por pessoas e coletividades, em todos os tempos, inclusive hoje como se dá, por exemplo, nas relações cotidianas das e dos que formam a expressiva rede dos chamados cristãos e cristãs pela libertação.

A Teologia da Libertação constitui, a este respeito, um importante referencial, à medida que é capaz de interpretar os principais valores destes grupos, associações, movimentos e organizações afundados nos valores da tradição de Jesus. Não se trata de cristãos e cristãs pertencentes apenas a uma só igreja, por exemplo, a Igreja Católica, mas também muitos deles e delas integram outras igrejas cristãs. Principalmente as chamadas históricas, como são aquelas que constituem o CONIC – conselho Nacional de igrejas cristãs (a Igreja Metodista, a Igreja Luterana, a Igreja Católica Romana, entre outras). Convém, todavia, sublinhar que esta rede de cristãos e cristãs pela libertação constitui um pequeno número no universo cristão, formado por dezenas, talvez centenas, de igrejas que se confessam igualmente cristãs, dentre em fazer deve ser dada ao conjunto de igrejas neopentecostais, a cujas práticas rituais também se associam cristãos e cristãs da Igreja Católica, nomeadamente os grupos que cultivam a espiritualidade carismática.

Quais as características presentes nas relações cotidianas, bem como nas práticas cúlticas desta enorme maioria de cristãos e cristãs? Vejamos alguns pontos que marcam suas práticas: um primeiro aspecto, que se apresenta fortemente funcional ao ideário capitalista, foca no individualismo, isto é, na pregação e na interpretação de que Deus chama apenas individualmente a cada pessoa, independentemente de que elas se sintam como membros solidários de um grupo mais amplo, menos ainda de um povo. Assim, desconectados enquanto membros do Povo de Deus, isto é, da humanidade inteira tal compreensão os leva a uma busca intensa de resolverem seus próprios problemas, sejam eles de ordem econômico-financeira, de caráter familiar, ou ainda atinentes a seu estado de saúde. O que importa, fundamentalmente, é encontrar ajuda de pastores, de padres e outras lideranças, que lhes proporcione o milagre da Cura ou da superação de suas respectivas necessidades. Neste sentido, suas referências centrais são as lideranças religiosas, católicas ou neopentecostais, que, por sua vez, tratam de potencializar esta via religiosa, tornando-a organicamente funcional ao ideário capitalista, à medida que tratam de incentivar estas pessoas a reforçarem, dia a dia, sua aposta, investindo seus recursos, destinados a engordar a caixa destas entidades, da qual tiram proveito as mesmas lideranças.

Algumas delas figuram, inclusive, como pertencentes a um seleto grupo de milionários. É o que se lê, na imprensa, acerca de figuras, tais como o Bispo Macedo, o Pastor Silas Malafaia (https://www.youtube.com/watch?v=y2nZ1HDT450), o autoproclamado apóstolo Valdomiro Santiago, RR Soares, entre outros.

Difunde-se, portanto, a ideologia do individualismo, a prática de uma relação intimista com o seu Deus, a quem agradar significa contribuir com seus míseros rendimentos para a caixa desta ou daquela igreja, a serviço principalmente de suas respectivas lideranças. Não se considera, conforme suas relações do cotidiano e suas práticas curtas, que o Deus dos cristãos e das cristãs, encarnado em Jesus de Nazaré, tenha como núcleo do anúncio do seu Reino, um propósito de libertação, mais do que de pessoas isoladas, de comunidades, de todo o povo vivo, de toda a humanidade. Desconectados, então, deste projeto do Reino de Deus, estas pessoas, em geral, destituídas de uma formação humanizadora mínima, encontrando-se sem condições de desenvolver sua potencialidade crítica, discernimento, acabam presas fáceis da ideologização protagonizada pelas suas lideranças, em proveito do ideário capitalista.

Outra característica forte aí presente, tem a ver com a difusão, pelas lideranças, também introjetada pela massa de seus seguidores, de que Deus fala apenas pela mediação destas lideranças, o que reforça uma crença incondicional no poder da hierarquia católica ou de outras igrejas. Difunde-se, então, a ideia que apenas as autoridades têm o controle e o poder de interpretar a vontade de Deus, sem passar pela relação das pessoas com o seu Deus, de forma direta. Aí se encontra um fator altamente condicionante de seu modo de vida, de seu modo de se relacionar com o mundo, de seu modo de vivenciar a sua fé, acabando por se tornarem alvos prediletos da ideologia capitalista, para muito além das influências nocivas exercidas pelas suas lideranças. Influências nocivas que se vão ampliando para outras figuras da sociedade civil, em particular daquelas que concentram o poder das decisões, em todos os âmbitos, à medida que sua incondicional obediência às autoridades se faz em nome do Deus de sua fé, normalmente adorado como um Deus todo poderoso, o Deus dos exércitos, o Deus dos fortes, enquanto nas mesmas fontes, principalmente a dos Evangelhos, os apelos predominantes não são para este Deus dos exércitos, este Deus poderoso e dos poderosos, mas um Deus que se encarna em Jesus de Nazaré, nascido pobre, no meio dos pobres, e cuja causa libertadora o leva a uma fidelidade até a sua morte. Em outras palavras, não obstante a denominação “evangélicos”, não raramente, os cultos, as homilias, os rituais tomam distância desta simplicidade vivida por Jesus de Nazaré, em sua caminhada conjuntamente com pescadores, com pessoas da roça, com mulheres e pessoas pobres, em sua companhia. Um Jesus a pregar que felizes são os pobres, felizes são os mansos, felizes são os misericordiosos, felizes são os construtores da paz, felizes são os que passam fome, felizes são os aflitos, felizes são os perseguidos por causa da justiça… Deste Jesus se fala muito pouco, durante as sessões e cultos dessas igrejas. Fala-se muito em nome de Deus, mas de que Deus se trata? Do Deus e do Reino anunciados, vividos, testemunhados e inaugurados por Jesus de Nazaré ou, antes, do Deus mamon, isto é, do Deus do mercado, do Deus dinheiro?

 

Outro valor bastante compatível com o ideário capitalista, igualmente desenvolvido nas religiões de dominação, é da competição/concorrência seja nas relações de trabalho, seja no ambiente familiar, seja nos próprios cultos. É praxe acentuar-se o valor da competição e da concorrência. Somente aqueles fiéis que se decidem a contribuir, inclusive com parte de seus próprios recursos, com tal igreja, tornar-se-ão alvo do agrado de Deus. A partir daí, escancaram-se as portas: seus incômodos de saúde, suas frustrações econômico-financeiras, seus problemas familiares se resolvem, razão por que não poucos passam a acreditar-se os eleitos de Deus, entendendo-se superiores aos não crentes, entendendo-se, não raramente, melhores do que os outros. Nesta esteira, contribuem também para o fortalecimento da grade de valores do sistema capitalista, uma vez que passam a entender o mundo como estando dividido entre os fiéis a Deus e os infiéis, cabendo graças e bênçãos aos primeiros, desgraças e infortúnios aos demais, até do ponto de vista econômico. Por vezes, a tendência a acreditar que os desempregados, os que sofrem necessidade, são aqueles e aquelas que são infiéis a Deus, pois a riqueza é sempre vista como algo abençoado por Deus, diferentemente do que se pode ler em várias páginas do Evangelho, em que são os pobres, os desvalidos, os injustiçados, os preferidos de Deus, enquanto, por exemplo, o canto do Magnificat se refere a maldição dos ricos: “ele depõe os poderosos de seus tronos e eleva os humildes. E despede os ricos sem nada e enche de bens os famintos.”

Crescente multiplicação das denominações neopentecostais é fruto de uma história que se acentua, a partir de meados dos anos 60, vindo mais frequentemente de experiências religiosas características dos Estados Unidos. A este respeito, a algumas décadas, o pesquisador Délcio Monteiro de Lima, em seu conhecido livro “Os demônios descem do Norte”, cuida de analisar este fenômeno, muito frequente também na América Central e em outros países da América Latina.

Ao observarmos o comportamento, agora no âmbito governamental – principalmente as esferas do executivo e do legislativo -, constatamos o crescente investimento no processo eleitoral de candidatos e candidatas que se confessam evangélicos, de modo a compreender-se a importância que tem algumas bancadas da Câmara Federal, a exemplo das chamadas bancada da Bíblia, bancada da bala, bancada do boi… Tal tendência, já há diversos anos, vem sinalizando a existência de poder político, alimentado pelos Evangélicos, eleição após eleição, de modo a demonstrar o plano político que alimentam as lideranças evangélicas, inclusive aquelas figuras acima mencionadas, e sobre as quais vale a pena conferir alguns vídeos sugestivos.

Não basta, entretanto, constatar e analisar a incidência destes fatos característicos da grade axiológica do capitalismo e seus respectivos agentes, nos mais diversos segmentos de nossas sociedades. Importa, não menos, buscar caminhos de superação desta tendência, a curto médio e longo prazos. É do que trataremos, no tópico seguinte.

 

Potencial transformador da educação popular 

Diante destes dilemas e desafios acima enunciados, cumpre investir reflexão crítica, tempo e pesquisa, em busca de descobrir e ousar passos que, a curto, médio e longo prazos, permitam aos que são vítimas deste sistema de morte, exercitarem uma resistência propositiva, no horizonte de uma nova sociedade, alternativa ao atual modelo hegemônico.

A educação popular a que nos referimos, é a que se mostra comprometida com a causa Libertadora dos oprimidos e oprimidas. Trata-se de uma corrente crítico transformadora, na medida em que se empenha hein proceder a 1 diagnóstico objetivo da realidade social objetiva, e, ao mesmo tempo, empenha-se em transformá-la, a partir do protagonismo dos seus principais interessados: as classes populares. Parafraseando Paulo Freire, também entendemos que a educação – também a educação popular -, sozinha, não transforma uma sociedade, mas, sem ela, em vão se espera uma transformação social consistente, ao menos na Perspectiva dos seus protagonistas.

Um primeiro aspecto enfrentado pela educação popular é acentuar a importância dos seus protagonistas, educadores e educandos, com sua intensa e necessária participação, sobretudo nos processos decisórios. Outra característica: despertar o exercício contínuo da criticidade, Isto é, o aprimoramento incessante por parte de seus protagonistas – mulheres e homens-, despertar em seu compromisso social, isto é, sua capacidade de agir em mutirão, coletivamente, fazendo entender que as transformações almejados constituem uma obra coletiva, por mais que também seja fruto da contribuição de cada um de seus membros. Criticidade, protagonismo, sentido comunitário vão juntar-se a outros requisitos, igualmente relevantes no desenvolvimento incessante de sua consciência crítica e autocrítica, os participantes deste processo passam a manifestar seu empenho numa análise objetiva da realidade social, de modo a conhecer suas estruturas e mecanismos de funcionamento da realidade social, tratando de delimitar quais são os interesses maiores em jogo e em disputa; quais são os grupos principais que disputam este projeto em jogo; Que classes sociais disputam seu respectivo projeto; quais são suas estratégias. E, quais os valores fundamentais que inspiram as lutas cotidianas, em busca deste Horizonte – eis alguns dos elementos constitutivos desta educação popular.

Já tivemos oportunidade de considerar diversos aspectos da educação popular, em textos precedentes. Aqui, tomamos em consideração específica o tema dos valores característicos desta mesma educação popular. Neste sentido, cuidamos de destacar e comentar aqueles que consideramos mais relevantes e prioritários. Além da dimensão de protagonismo do conjunto dos participantes deste mesmo processo formativo, importa também acentuar a importância de três dimensões que comportam um potencial transformador extraordinário: o horizonte almejado, Isto é, Qual é mesmo o horizonte que se Quer alcançar, do ponto de vista da busca de construção de uma nova sociedade? Não se trata, neste caso, de pretender-se esgotar os traços mais detalhados deste projeto alternativo, mas, antes de sublinhar aqueles aspectos teórico-práticos que merecem maior atenção:

  • Um Horizonte comprometido, na prática e na concepção, com assegurar a dignidade das pessoas, dos grupos, dos povos, bem como a dignidade do planeta;

  • O modo societal de organização, que seja alternativo ao modo de produção, ao modo de consumo, ao modo de gestão societal hoje hegemônico;

  • A Praxis Libertadora requer, outro sim, o desenvolvimento continuo de uma ação transformadora que tome em conta, além da memória histórica e de lutas e de conquistas de gentes de todo mundo, da América Latina, do Brasil, como também a necessidade de como recolher destas experiências de lutas, de conquistas, inclusive de reveses, lições inspiradoras para o enfrentamento exitoso dos Desafios atuais.

Utopia, memória histórica e práxis constituem, por conseguinte, elementos-chave deste trabalho de base inspirado numa educação popular, de inspiração freiriana.

Com base nestes elementos, os protagonistas deste processo, Isto é, os educadores e Educandos – mulheres e homens – buscam pôr em prática estes princípios, por meio de sua contribuição em, pelo menos, três Campos de luta: o seu processo organizativo, o seu processo formativo e o seu compromisso de lutas.

No que toca ao processo organizativo, os protagonistas desta educação popular, em especial os movimentos sociais populares e outras organizações de base, cuidam de refletir este seu compromisso na forma de se organizarem, o que se faz, com base em procedimentos ou iniciativas tais como:

  • Investimento na formação de grupos temáticos, de núcleos de ação, de pequenas comunidades ou conselhos populares – ou outro nome do gênero -, com o compromisso de, não apenas criarem estes espaços de vitalidade, mas sobretudo de mantê-los com intensa e Crescente participação;

  • Núcleos, células, conselhos, círculos de Cultura – ou que outros nomes tenham -, que se encontrem periodicamente, em busca de uma ampla e contínua participação de todos os seus membros, Especialmente nos processos de tomada de decisão. Não se trata, por outro lado, de núcleos isolados, mas organicamente conectados há outros núcleos, bem como a outras instâncias. Para tanto, torna-se fundamental a experiência do que se chama delegação, Isto é, a eleição de Delegados e delegadas que, sobre o controle de cada núcleo, são enviados a outras instâncias, com a tarefa de compartilharem as decisões tomadas pela base, em cada núcleo.

  • Outra inquietação constante do processo organizativo, tem a ver com o papel da direção ou da coordenação. Uma vez eleitos e eleitas membros de uma coordenação ou de uma direção, estes membros não se tornam controladores dos núcleos nem das instâncias, uma vez que, sendo as decisões tomadas pela base, cumpre-lhes tão somente operacionalizar e aplicar as decisões tomadas pela base. Não se perpetuam neste cargo. Ocupando por algum tempo, previamente determinado, os membros de coordenação ou de direção, tão logo findo o prazo de sua gestão, cedem seus postos aos novos eleitos, enquanto os que saem voltam para a respectiva base, os da base são chamados a cargo de coordenação ou de direção. Estes mecanismos – da delegação e da alternância de cargos e funções – constituem verdadeiros elementos revolucionários, na medida em que se acham diametralmente opostos a tendência a uma pessoa ou a um pequeno grupo se eternizar em cargos de coordenação e de direção. Por outro lado, permitem aos membros da base participarem de tarefas de coordenação ou de direção, o quê confere uma relevante experiência do ponto de vista da formação crítica e de sua participação como protagonistas do mesmo processo de educação popular.

  • Outro aspecto não menos importante é o do exercício da autonomia (coletiva e pessoal), frente ao mercado e frente ao Estado ou a outras instituições. Autonomia que é cultivada, sob vários aspectos, inclusive e a partir do seu cuidado com o auto financiamento, isto é, por meio de iniciativas de arrecadação de seus próprios membros, de alguma forma de contribuição (seja em espécie, seja alguma contribuição financeira regularmente recolhida), como meios de assegurar suas atividades regulares. O conjunto desses membros fica mais acreditado, fica mais fortalecido, quando se trata de formular suas críticas e seus questionamentos tanto aos representantes do mercado quanto aos representantes do Estado, de modo a zelar pela sua autonomia, não abrindo mão de sua crítica e autocrítica.

O processo formativo constitui um segundo espaço de embates permanente, para o conjunto dos protagonistas – de base ou de direção. O processo de formação conta com várias características dentre as quais podemos sublinhar:

  • Trata-se, em primeiro lugar, de uma formação contínua: Diferentemente da formação oferecida pela Escola formal, que dura apenas alguns anos, o processo formativo protagonizado pela educação popular, por sua vez, se faz ao longo da vida, tanto do ponto de vista pessoal, quanto do ponto de vista coletivo;

  • Além disso, também se mostra empenhado no despertar contínuo da consciência crítica e autocrítica de todos os participantes;

  • A tarefa das educadoras e educadores é proporcionar ao conjunto de formandos e formandas oportunidades de auto descoberta, isto é, de tomada de consciência progressiva tanto de seus talentos, de suas habilidades, quanto também de seus limites.

  • A educação popular também destaca a importância do compromisso contínuo de superação da velha dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho manual, o que permite a todos fazerem de um tudo, ainda que sabendo da diferença no desempenho destas tarefas. Ao mesmo tempo, a educação popular também Propicia o exercício da Mística revolucionária, por força da qual cada membro, a partir das mais diversas atividades em que se sinta envolvido, é chamado a avaliar e Auto avaliar, dia após dia, seu desempenho geral, sua agenda de compromissos, o que lhe permite exercitar a renovação de seus compromissos fundamentais, tanto os de ordem organizativa, quanto o de caráter formativo, quanto o de sua participação nas diversas frentes de lutas. Trata-se de um compromisso de renovação interior, de um chamamento a cada um, cada uma, de ir tornando-se, dia após dia, um novo homem, uma nova mulher, comprometidos com a transformação da realidade, conforme os valores amplamente trabalhados nas tarefas do cotidiano, no trabalho de base.

Deste processo organizativo e desta participação formativa é que brota igualmente o compromisso de luta, de mobilização, agora favorecidas pela consistência que tanto a organização quanto a formação imprimem, nas ocasiões mais visíveis de mobilização e de luta.

Eis algumas brevíssimas pistas fornecidas pela educação popular, por meio das quais, nossas organizações de base são historicamente chamadas a enfrentar os terríveis desafios que enfrentamos, inclusive no campo da axiologia do capitalismo, incidindo na ideologização do campo religioso.

João Pessoa, 17 de janeiro 2020.